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25 de julho de 2019, 11:45h

A primeira missão arqueológica brasileira no Egito

Pesquisadoras trabalham na catalogação de cones funerários achados na tumba / Foto: Acervo BAPE (Brazilian Archaeological Program in Egypt)

Reprodução do jornal O Estado de São Paulo

Por Júlia Marques – Finalista na categoria Divulgação Científica do Prêmio IMPA-SBM de Jornalismo 2019

O sotaque brasileiro ganhará eco entre as ruínas do Egito Antigo. Pela primeira vez, o Brasil comanda uma missão arqueológica no país. O trabalho, liderado por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pretende desvendar, no início do ano que vem, os segredos de uma tumba construída cerca de 1,5 mil anos antes de Cristo na antiga região de Tebas, hoje Luxor, no sul do Egito.

“Existem arqueólogos brasileiros que trabalham no Egito, mas, até então, sempre com missões estrangeiras”, conta, animado, José Roberto Pellini, professor da UFMG que chefiará a empreitada. Foi depois de um convite do governo egípcio que Pellini e sua equipe montaram um projeto de escavação. “Eles nos deram muitas opções de trabalho em monumentos e acabamos escolhendo a tumba tebana 123.”

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A estrutura foi construída na época do faraó Tutmósis III, rei conhecido como o Napoleão do Egito por suas empreitadas militares de conquistas de territórios. Mas, ao contrário das tumbas destinadas a enterrar os reis, como a luxuosa tumba de Tutancâmon, as tebanas eram um pouco mais modestas: serviam como cemitério de nobres e guardavam os objetos que eles queriam levar para a vida após a morte. A 123 era propriedade de Amenenhet, sobre quem pouca coisa se sabe, por enquanto.

Entrada da Tumba TT123 / Foto: Acervo BAPE (Brazilian Archaeological Program in Egypt)

No dia 18 de dezembro de 2017, foi a abertura da tumba TT123. Na foto, membros da equipe brasileira acompanhados por representantes do governo do Egito / Foto: Acervo BAPE (Brazilian Archaeological Program in Egypt)

“Ele era um sacerdote e ocupava o cargo de contador de pães, o que era algo importante porque o pão funcionava como uma espécie de salário no Egito”, explica Pellini. O trabalho de escavação da tumba começará por uma pequena sala anexa, que está entupida até o teto de sedimentos. O que vão encontrar lá dentro é um mistério. Os pesquisadores ainda não sabem se os objetos nessa sala pertenciam realmente a Amenenhet ou foram usurpados de outras tumbas da necrópole.

A tumba 123 nunca foi estudada, a não ser no século 19, quando um pesquisador inglês entrou na estrutura. “Ele ficou um dia, mas não fez nada”, diz Pellini. O que os brasileiros encontraram apenas em uma limpeza superficial no início deste ano é promissor. “Identificamos vários materiais, pedaços de sarcófagos, duas partes de múmias, estatuetas. Tudo muito preservado, de altíssima qualidade. Então, a expectativa é grande para a escavação.”

Para especialistas, a missão coloca o Brasil no circuito da produção científica internacional. “É mais um importante passo para a área e que vai consolidando o diálogo com pesquisadores europeus, do Egito e americanos”, diz Maria Beatriz Borba Florenzano, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP).

Os pesquisadores brasileiros ficarão por 50 dias no Egito, entre janeiro e fevereiro, aproveitando tanto o período de férias acadêmicas como o inverno o país – fora desta estação, as temperaturas na região, desértica, podem passar dos 40º C. Cedinho, às 6 horas, as escavações começam. Ferramentas como colher de pedreiro ajudarão a retirar os materiais. Antes, um toxicologista avalia os riscos de contaminação dos materiais, guardados há centenas de anos – e o uso de máscaras dentro da tumba é obrigatório.

No fim do dia, longe da necrópole, o trabalho é quase igual ao de qualquer mortal: anotações em papéis, planilhas no computador, separação de fotos e vídeos. “Por mais que o Egito já venha sendo estudado há séculos, cada tumba tem uma história própria, que ajuda a compreender o papel dessa pessoa (a proprietária) no contexto. Quanto mais histórias conseguimos interpretar, mais temos ideia de como essa sociedade funcionava”, explica a arqueóloga Caroline Murta, coordenadora da escavação.

Nada do que for encontrado na tumba deverá ser trazido para o Brasil. Um acordo com o governo egípcio garante que as peças fiquem no país – ou guardadas na própria tumba ou no Museu Egípcio, no Cairo. O trabalho completo de escavação só deverá ser concluído nos próximos quatro ou cinco anos. Durante esse período, os pesquisadores esperam que mais brasileiros, incluindo estudantes de graduação interessados na arqueologia egípcia, se juntem ao projeto, em uma espécie de “tumba-escola”.

A vantagem, diz Caroline, é que a arqueologia no Egito é “didática” como em poucas partes do mundo. Protegidos pelo clima seco, até restos humanos, como as múmias, são encontrados em bom estado de conservação. “O material orgânico, difícil de achar no Brasil, se preserva muito bem lá. Isso é bom para alunos de graduação, é rico. É possível produzir muito conhecimento com esses objetos”, explica a arqueóloga.

Acesso

Para democratizar o acesso à tumba, os pesquisadores também planejam colocá-la ao alcance dos olhos de qualquer um por meio da realidade virtual. Para isso, estão sendo feitas imagens em 360 graus da estrutura. A ideia é que as imagens – com as etapas da escavação – ajudem também os pesquisadores. Longe do Egito, será possível, por exemplo, relembrar de onde exatamente as peças foram extraídas, o que ajuda a interpretá-las.

Outro objetivo do grupo é tornar o espaço aberto à visitação. Além das escavações, também é feito um trabalho de conservação da estrutura. “Depois que estiver restaurada, deve ser uma das três tumbas mais bonitas de toda Luxor. A qualidade dos relevos nas paredes é inigualável”, diz Pellini. Cenas raras como o abate de um porco e a imagem de Amenenhet dirigindo uma charrete de guerra – ação atribuída, em geral, aos faraós – são exemplos da riqueza de detalhes.

Pellini observa estrutura da tumba, que contém cenas raras / Foto: Acervo BAPE (Brazilian Archaeological Program in Egypt)

Materiais encontrados na área de escavação não deverão sair do país e a ideia é que o local vire ponto de visitação e estudo / Foto: Acervo BAPE (Brazilian Archaeological Program in Egypt)

A expedição também conta com um trabalho menos “Indiana Jones”, a cargo do grupo argentino que fará parte da missão brasileira. Os “hermanos” vão fazer uma incursão antropológica, de interação com a comunidade da região. “Nos interessa trabalhar com os vivos da necrópole, não só os mortos e faraônicos”, diz María Bernarda Marconetto, antropóloga e professora da Universidade Nacional de Córdoba, na Argentina.

“Toda a população que vive ali tem muitíssimo vínculo com a necrópole, cuida das tumbas, faz (trabalhos como) guias, réplicas e vendem artesanatos”, diz Bernarda, que pretende se debruçar sobre como estes povos interpretam sua própria história. A equipe ainda terá um integrante francês e egípcios ligados ao serviço de antiguidades do país, que ajudarão, principalmente, na tradução das inscrições.

Sala anexa, que será escavada na viagem do ano que vem, tem sedimentos até o teto; uma limpeza superficial encontrou estatuetas e até múmias / Foto: Acervo BAPE (Brazilian Archaeological Program in Egypt)

 

Interesse do Brasil pelo Egito vem desde o Império

O fascínio do Brasil pelo Egito não é recente: vem desde os tempos de Império e tem em dom Pedro II seu maior representante. Estudioso e apaixonado pela civilização milenar, o imperador fez duas viagens ao Egito. “Ele conhecia alguns símbolos e, enquanto viajava anotava, transcrevia e desenhava tudo o que via. Não era só uma curiosidade, ele era um estudioso da história do Egito Antigo”, conta a historiadora Liliane Corrêa.

Como parte de sua pesquisa de pós-doutorado pela Universidade de Aswan, no sul do Egito, Liliane refez, no início deste ano, os caminhos do imperador. Além do fascínio pelos templos – o de Karnak, em Luxor, era o seu preferido -, Pedro de Alcântara também admirava as paisagens. “Ele descrevia os pores do sol e suas cores em contraste com o Nilo e o deserto”, conta. “Já o Vale dos Reis, onde os arqueólogos brasileiros estão escavando, não chamou tanta atenção, provavelmente, porque a maioria das tumbas ainda não havia sido descoberta quando ele esteve lá.”

No dia 23/5/1876, o jornal A Província de São Paulo (Hoje O Estado de S.Paulo) publicou a agenda imperial em que aparece a viagem de Pedro II ao Egito, em dezembro

Em uma de suas viagens, dom Pedro II ganhou presentes como o esquife da cantora Sha-amun-em-su, que viveu durante a primeira metade do século 8 a.C. Logo a peça se tornou uma das preferidas do imperador, que a manteve em seu gabinete até a Proclamação da República. Levada ao Museu Nacional, no Rio, junto com outros artigos da coleção, se perdeu após o incêndio que destruiu o acervo em setembro.

Pedro II e comitiva em frente à grande esfinge de Gizé / Foto: Brasiliana Fotográfica Biblioteca Nacional (Brasil)

À esquerda, anotações de suas viagens / Foto: Marcos de Paulo/Estadão; à direita, o esquife da cantora Sha-Amun-Em-Su, destruído no incêndio do Museu Nacional / Foto: Fábio Motta/Estadão

Ciência

Nas universidades, o interesse de pesquisadores pelo Egito Antigo ganhou força na década de 1980. Mas ainda é pequeno o número de cientistas que se dedicam à arqueologia egípcia. Para Júlio Gralha, professor de História Antiga da Universidade Federal Fluminense (UFF) com especialização em Egiptologia, a expedição brasileira abre o campo de atuação.

“Uma coisa é trabalhar com informações, imagens. Outra, é ter condição de fazer uma pesquisa no local. Isso abre uma estrada para facilitar a ida de pesquisadores brasileiros ao Egito ou a locais que têm materiais de egiptologia, sobretudo agora que no Museu Nacional perdemos a coleção”, diz Gralha. A Argentina, que vai integrar a comissão brasileira, já tinha missões próprias. Portugal e Espanha, também. “Estava na hora de o Brasil conseguir isso.”

Embora parte da comunidade acadêmica veja pouca relevância em estudos de civilizações tão antigas, o pesquisador explica que aspectos da sociedade egípcia como a forma de lidar com a homossexualidade e com o feminino continuam atuais. “Alguns pesquisadores olham o mundo a partir do século 16. Mas, muitos dos problemas de hoje estão mais atrás. Precisamos estudar as sociedades da Antiguidade. Elas ainda nos dão respostas.”

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