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18/07/2019

Étienne Ghys e seu ‘passeio matemático singular’

Secretário perpétuo da Académie des Sciences da França desde janeiro de 2019, o pesquisador honorário do IMPA Étienne Ghys lançará ainda este ano a versão em português do livro “A singular mathematical promenade”, pela editora do IMPA.

Com o título “Um passeio matemático singular”, a obra aborda uma aula de verão que Ghys ministrou no IMPA e contempla assuntos de álgebra, topologia, geometria, análise complexa e ciência da computação.

Em entrevista ao IMPA, o diretor de pesquisa do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) falou sobre a produção do livro, a importância da colaboração entre Brasil e França e sua posição como secretário perpétuo da Académie des Sciences. Ghys está no Rio participando do “1st Joint Meeting Brazil-France in Mathematics”.

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IMPA: O sr. assumiu, este ano, o cargo de secretário perpétuo da Académie des Sciences. Qual é o papel da instituição e suas atribuições?

Étienne Ghys: É uma instituição parecida com a Academia Brasileira de Ciências (ABC), só que um pouco mais antiga, foi criada em 1666. É um lugar maravilhoso, muito antigo e bonito. Como papel, temos que organizar meetings, mas não só de Matemática. No momento, estou trabalhando no projeto de planejar um congresso grande sobre mudança climática. Muitos conferencistas são esperados. É como se eu fosse um organizador da vida científica da academia. Por exemplo, organizar conferências e falar com ministros. No momento, o currículo de ciência no colégio mudou completamente, então temos que visitar os políticos para convencê-los da importância da ciência. Recentemente, fui recebido pelo o presidente da França Emmanuel Macron. É um trabalho que tem aspectos políticos, organizacionais e científicos.

IMPA: Como está sendo esta nova etapa em sua carreira?

EG: Mudou muito a minha vida. Até recentemente eu morava em Lyon, agora moro em Paris. Nova cidade, novos colegas, mas não só matemáticos – destes eu estou um pouco cansado, são todos parecidos [brinca]. Agora conheço mais pessoas da biologia, da física, tenho outras perspectivas. 

O pesquisador Étienne Ghys (centro) ao lado de palestrantes e organizadores do “1st Joint Meeting Brazil-France in Mathematics”

IMPA: E quais são os projetos que o sr. tem se dedicado mais recentemente?

EG: Estou trabalhando com um assunto um pouco complicado para explicar agora [risos], mas o último projeto, que finalizei recentemente, foi um livro que escrevi aqui no Rio. Na verdade, dei uma aula de verão no IMPA que se transformou em livro. Ele foi publicado primeiro em inglês, mas a tradução para português foi finalizada esta semana. Quando dava aula aqui, elas eram filmadas. Um dia, recebi um e-mail de uma pessoa que não conhecia. O homem estava em Lyon, minha cidade. Ele era brasileiro e estava assistindo às minhas palestras no IMPA. Gostou e me escreveu perguntando se poderia traduzir meu livro. O título é “Um passeio matemático singular” e vai sair na coleção do IMPA. Algo interessante: o  livro foi traduzido primeiro para o turco. Fiquei muito feliz. Além disso, na semana passada, um aluno escreveu para dizer que a tradução russa também está pronta.

IMPA: O sr. é um pesquisador premiado por seus trabalhos científicos e, também, pela atuação como divulgador da matemática. Por que há tanta dificuldade em aliar essas duas atividades? 

EG: Um dos maiores problemas é que, se um matemático começa a fazer divulgação frequentemente, os outros vão fofocar dizendo que esta é a demonstração de que ele não é um bom matemático. Fazer divulgação na nossa comunidade é um negócio “sujo”. Os matemáticos de pouca qualidade vão fazer isso. É por isso que os jovens têm muita dificuldade de começar a fazer divulgação porque, na verdade, não vão ser avaliados de uma maneira positiva, como, por exemplo, para ser promovido a professor. Frequentemente, os jovens que fazem divulgação não são levados a sério. Parece um negócio inútil. No meu caso, não preciso de promoção, então faço o que quero fazer.  

IMPA: Pode contar um episódio que demonstra como é possível ser pesquisador e divulgador da Matemática?

EG: A verdade é que já assisti a muitas palestras sem entender nada. E chegou um dia que fiquei cansado disso: “Não é possível continuar assim, eu quero entender!”. Por isso tentei pouco a pouco dar palestras que as pessoas pudessem entender. Inicialmente, era para que os meus alunos pudessem entender. Depois, para meus colegas. E, por fim, para todos. 

IMPA: No “1st Joint Meeting Brazil-France in Mathematics”, o sr. está apresentando uma série de palestras sobre geometria, mas que não é direcionada a geômetras. Como surgiu a ideia?

EG: Falo para um público composto por vários tipos de matemáticos, como probabilistas e analistas, e eles não falam a mesma língua. Achei que seria importante falar coisas acessíveis para todos. Por isso decidi fazer coisas simples ou, pelo menos, antigas. Não queria falar para geômetras porque, na verdade, tem poucos na sala. Quando falo, gosto de ser entendido.

IMPA: Como o sr. avalia a realização de um evento que celebra a colaboração em pesquisa matemática entre  Brasil e França?

EG: Minha primeira impressão é que é um evento muito grande. Poucas vezes houve no Brasil um encontro com tanta gente. São 400 pessoas, certo? A segunda observação é que fiquei muito surpreso com o fato de que este é o primeiro encontro franco-brasileiro, já que temos uma colaboração de 50 anos entre os dois países. Não entendo por que nunca aconteceu antes. O nível das palestras é muito bom.

IMPA: Qual a importância do intercâmbio acadêmico na pesquisa matemática, em particular, e nas ciências, em geral?

EG: Em um contexto de Bolsonaro e Trump, acho muito importante continuar a afirmar que a ciência é importante na sociedade. Sob este ponto de vista, acho que a colaboração, mesmo pequena e simbólica, mostra que podemos continuar a ter contato com a cultura, com a ciência. Acho importante. De certa forma, é bom os matemáticos brasileiros receberem os franceses para continuar compartilhando a cultura. 

IMPA: Pode citar em que momentos e de que forma essa troca intercultural e colaborativa influenciou sua trajetória?

EG: Quando cheguei ao Rio, em 1979, tinha uma concepção muito francesa da Matemática, muito rígida, triste. Aqui descobri que a Matemática pode ser dividida entre pessoas, que pode ser um prazer. Rigidez não faz parte da Matemática. Sempre digo que foi a abertura para a “Matemática tropical”. Fazer Matemática aqui é muito diferente de fazer Matemática na França.

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