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18 de fevereiro de 2019, 14:04h

Trimedalhista da OBMEP garante ingresso na Unicamp

Na primeira OBMEP, Natainá conquistou medalha de bronze

Karine Rodrigues

Paulista de São João da Boa Vista, cidade a pouco mais de 200 km da capital, Natainá Novaes Silva Barbosa nasceu no dia do azar, no chamado mês do desgosto. Se fosse supersticiosa, viveria um tormento todo 13 de agosto, mas a data nunca foi um problema, nem mesmo nos anos em que a comemoração caía numa sexta-feira.

Embora guarde um trevo de quatro folhas na carteira e desvire todo sapato emborcado que encontra pela frente, não é a sorte que garante as conquistas: “Acredito no esforço pessoal. Sempre”, diz a jovem de 18 anos. 

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Mês passado, Natainá foi aprovada em uma das mais destacadas instituições de ensino do país, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), após seleção para premiados em olimpíadas do conhecimento. 

Na primeira chamada para as vagas olímpicas, dos 76 estudantes aceitos, 23 são medalhistas da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), criada pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) em 2005, ou da Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM), parceria do instituto com a Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), realizada desde 1979.

Com um ouro, uma prata e um bronze na OBMEP, Natainá entrou em Estatística, curso que tanto almejava, por meio da vaga olímpica, criada pela Unicamp para promover a inclusão social e ampliar as formas de acesso. Para chegar até lá, não se valeu de amuletos. Empenhou-se e, como disse em mensagem enviada à OBMEP, logo após receber a boa nova da aprovação, a olimpíada foi uma oportunidade. Que ela soube aproveitar.

“Hoje saiu a lista dos aprovados para entrar na Unicamp por olimpíada científica. Eu me inscrevi como medalhista da OBMEP e passei, sem precisar de vestibular, Enem [Exame Nacional do Ensino Médio] ou qualquer outra coisa. Além de já ter me proporcionado tudo de bom, a OBMEP me deu a chance de entrar na faculdade que eu queria cursar. Agradeço de coração aos responsáveis e a todos os que fazem essa olimpíada acontecer porque, sem dúvida, ela mudou a minha vida”, escreveu. 

Na mensagem, Natainá detalhou o “tudo de bom” trazido pela OBMEP, que ela descobriu em 2014, quando cursava o 9º ano do Ensino Fundamental na Escola Estadual Cristiano Osório de Oliveira, em São João da Boa Vista, onde mora com a mãe e a irmã mais velha. Logo na estreia, obteve um bronze.

“Foi uma conquista que me fez acreditar que eu poderia conseguir alguma coisa na vida”, escreveu na mensagem, lembrando que a premiação garantiu o ingresso no Programa de Iniciação Científica da OBMEP, o PIC Jr. “Lá conheci muitos amigos que tinham o mesmo amor pela Matemática que eu. Aprendi a Matemática de uma forma diferente. Sem contar os professores maravilhosos, os materiais didáticos e o meu primeiro ‘salário’”, acrescentou, referindo-se à bolsa do PIC concedida aos medalhistas da OBMEP.

Natainá concluiu o Ensino Técnico em Administração integrado ao Ensino Médio no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP), Campus São João da Boa Vista. Fez o PIC três vezes, além do Programa Mentores – destinado aos estudantes que já participaram do PIC pelo menos duas vezes, sendo uma delas como aluno do Ensino Médio. 

“Aprendi e me esforcei bastante. Mas em 2018 ficou corrido porque dava monitoria pela manhã, estudava à tarde e à noite e, aos sábados, fazia PIC/ Mentores. Aí caí um pouco por causa do cansaço”, disse, por telefone. Ela conta que jamais pensara em tentar ingresso em uma universidade pública. “Quando ganhei medalha na competição, entre tantos participantes, imaginei: ‘Se foi assim na OBMEP, por que eu não passaria na Unicamp?’ Aí soube que a Unicamp aceitaria medalha da OBMEP, e as minhas esperanças aumentaram.”

Natainá, a mãe Valdirene e a irmã Natally

Segunda pessoa da família a entrar na universidade, ela tem uma irmã mais velha, Natally, que faz Engenharia Civil em uma instituição privada. Os pais interromperam os estudos mais cedo: Valdirene concluiu o Ensino Médio e trabalha como operadora de máquina na Têxtil São João; Altemir parou antes mesmo de finalizar o primeiro ciclo do Fundamental. Separados em 2015, ele foi morar na Bahia, e, no momento, está desempregado.

“Estou muito feliz por ela”, diz Valdirene, que, ao diferentemente da filha, não se surpreendeu com a aprovação para a Unicamp. “Já esperava esse resultado, pela inteligência e força de vontade dela. Ela gosta de Matemática. Só tirava dez na escola”, afirmou a mãe, considerando que a OBMEP deu muitas oportunidades para Natainá. O único porém é que a filha agora vai morar longe. “Estou triste, mas vai ser bom para o futuro dela.”

Quem também comemorou a notícia foi Felipe Bittencourt Lima, professor de Matemática do IFSP em São João da Boa Vista. “Ela sempre foi muito dedicada aos estudos, sobretudo Matemática.  Ofereci um curso à noite de preparação para olimpíadas e ela foi uma das alunas que sempre compareceu”, destacou o mestre em Ciências Exatas pela Universidade Federal de São Paulo (UFSCar), que lecionou para Natainá durante o Ensino Médio.

Natainá ao lado do professor de Matemática Felipe e dos colegas Rafael e Vitor

Segundo ele, nos dois últimos anos, a jovem foi “plantonista” de Matemática no IFSP e ajudou os demais alunos no aprendizado da disciplina. “Acredito que esse foi um dos motivos que fizeram com que ela conseguisse cada vez mais medalhas em olimpíadas de Matemática, já que, para conseguir ensinar os colegas, ela certamente teve que se empenhar mais”, observou.

A medalha mais recente foi o ouro na OBMEP 2018. Além de ter contribuído para o ingresso na Unicamp, a conquista há de realizar outro sonho de Natainá: conhecer o Rio de Janeiro. A OBMEP traz para a cidade todos os ganhadores de ouro para a cerimônia de premiação, no ano seguinte à competição.

“Fiquei superfeliz”, disse ela, que agora busca repúblicas em Campinas. As aulas começarão em 26 de fevereiro. “Uma hora encontro um lugar… Estou muito ansiosa. Minhas malas já estão feitas há muitos dias”, contou, aos risos.

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