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6 de March de 2020, 10:54h

Paixão pela matemática se aprende e se ensina em casa

Família de Cocal dos Alves comemora as medalhas

Luiza Barata

Ainda na época da escola, Kuerly Vieira elegia a matemática e o português como matérias favoritas. “Tinha bastante facilidade nas duas disciplinas. Hoje, sou professora de língua portuguesa, no Centro de Ensino em Tempo Integral (Ceti) Augustinho Brandão, e mãe de dois medalhistas da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas. Realmente não poderia imaginar!” 

Depois de ver o filho mais velho, Wesley, garantir seis medalhas na competição e se tornar professor de matemática, foi a vez de Iago, filho do meio e atualmente aluno do 8º ano, levar a primeira medalha de ouro em 2019. “Wesley e Iago ganharam a principal da medalha quando cursavam a mesma série. Quase não acreditei. Do 7º do Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio, Wesley foi medalhista em todos os anos. Com Iago, o caminho está sendo parecido.”

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Motivo para a família de Cocal dos Alves, município do Piauí, vibrar com cada uma das conquistas, que, apesar de acontecerem com frequência, são tidas como únicas. “Como mãe, cada resultado é uma emoção incomparável, não tem como explicar”, tenta definir Kuerly. “O amor dos meninos pela matemática começou com o envolvimento do professor  Antônio Cardoso do Amaral, durante a preparação para olimpíada e nas próprias aulas da escola. É inquestionável o quanto eles evoluíram.”

Iago com a primeira medalha olímpiaca, em 2018

Amaral foi quem deu o pontapé inicial para a cidade de 6,1 mil habitantes participar da OBMEP, em 2005. Desde então, Cocal dos Alves passou a ser considerado um “celeiro de medalhistas”, com a maior proporção de medalhas nas olimpíadas. Ao todo, já são 424 premiações, entre medalhas, menções honrosas, secretaria e escolas premiadas. 

Nas duas vezes em que foi medalhista, Iago mal conteve a alegria. “Fiquei muito feliz, tanto com a de ouro quanto com a de prata. Mas acho que preferi receber a de ouro, mesmo”, diverte-se. “Na primeira vez que fiz a prova, estava muito animado para participar porque era algo novo para mim. Mas desde então não penso mais em parar de competir. Quero continuar me superando!”

Para o estudante, que pensa em ser engenheiro militar, há um “empate” entre as matérias favoritas na escola: ciências e matemática, o que se reflete no destaque que tem nas aulas. “Vejo que ele tem muita curiosidade sobre questões ligadas ao universo e aos seres vivos”, observa o professor Amaral. “Ele é muito curioso a respeito do que acontece no mundo, de maneira geral. Quer sempre saber mais sobre o universo e seres vivos.”

Wesley com as medalhas, em 2012

Durante sete anos, Amaral foi professor de Wesley e se diz satisfeito em dividir com o ex-aluno o ambiente de trabalho, sob uma nova perspectiva. “Wesley foi um estudante nota 10, com potencial de excelência. Agora, ele vem fazendo um grande trabalho, inclusive como preparador de alunos para olimpíadas matemáticas.” 

Trabalho que se estende de dentro para fora de casa. Wesley acredita ser uma das inspirações do irmão, já que Iago cresceu vendo “as portas” que a participação na OBMEP pode abrir. “Ele me via sendo premiado, chamado para eventos, viajando pelo país para me apresentar em eventos acadêmicos e recebendo a bolsa de estudos. Iago viu os pontos positivos e sabia que, ao chegar no 6º ano do Ensino Fundamental, ele poderia ter acesso à mesma vida.” 

Para o preparador da OBMEP, o grande diferencial das olimpíadas é a didática utilizada para elaboração das questões. O que contribui para tornar o ensino menos “chato e direto”. Wesley acredita que os livros utilizados durante o Ensino Fundamental, de maneira generalizada, tentam “disfarçar as contas”, ao usar textos ou figuras nos problemas, o que nem sempre atrai, de fato, os alunos. “Já a OBMEP traz questões que fazem você pensar mais do que fazer conta. Tem o papel chave de cativar o estudante, mostrando que uma matemática que não é só fazer ‘a+b’.”  

E o sucesso matemático da família ainda pode ganhar mais um reforço. Para Amaral, “eles são uma espécie de Família Bernoulli”, fazendo referência à família que, durante os séculos 17 e 18, teve oito notáveis cientistas das áreas de matemática e física. “No ano que vem, o irmão mais novo de Iago e Wesley, Yuri, vai começar a estudar na escola. Já sabemos que ele é detentor de um talento especial em matemática”, completa. 

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