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27 de julho de 2019, 18:48h

No IMPA, abertura do encontro de matemáticas lota auditório

Um ano após o evento que reuniu matemáticas de todo o mundo no Rio de Janeiro, o World Meeting for Women in Mathematics (WM)², estudantes e pesquisadoras da área lotaram o principal auditório do IMPA, neste sábado (27), para a abertura da primeira edição do Encontro Brasileiro de Mulheres Matemáticas.

Coordenadora da Comissão Organizadora do evento e pesquisadora do IMPA, Carolina Araujo comemorou a participação dos cerca de 500 inscritos e observou que a ideia de realizar um encontro nacional surgiu exatamente durante o (WM)², em 31 de julho de 2018. Segundo ela, a intenção, materializada neste fim de semana de atividades no IMPA, é fruto da mobilização das redes locais e nacional de mulheres matemáticas. 

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“Vários eventos vêm acontecendo desde 2016, comprovando a demanda de se discutir a discrepância de gênero na nossa comunidade matemática”, disse Carolina, destacando o 12 de maio, Dia das Mulheres na Matemática. A data foi criada durante o Congresso Internacional de Matemáticos 2018 (ICM na sigla em inglês) em homenagem ao nascimento de Maryam Mirzakhani (1977-2017), única mulher a ganhar a Medalha Fields. Este ano, foram realizados na data 109 eventos em 31 países, sendo 12 no Brasil.

Pesquisadora do IMPA, Carolina coordenou a Comissão Organizadora do Encontro

Coordenadora do Comitê Científico do evento, Celina Herrera de Figueiredo (Coppe/UFRJ) contou que a preparação para o Encontro foi praticamente uma gestação. “Nove meses incríveis, de muito aprendizado e de muita gratidão”, disse, destacando que, durante o período, o tema mulheres na ciência foi debatido em instituições como Cefet, Firjan e UFRJ e mulheres foram eleitas, pela primeira vez, para cargos relevantes na área, como Eliete Bouskela, primeira diretora científica da Faperj; e Denise Pires de Carvalho, primeira reitora da UFRJ.

Na opinião de Celina, a programação do Encontro Brasileiro de Mulheres Matemáticas reflete a adesão e o engajamento e a atenção para a inclusão. 

“A escolha das palestrantes celebra a diversidade e também comemora a quebra histórica do jejum de dez anos na Academia Brasileira de Ciências com a posse duas matemáticas e uma engenheira”, disse. Ela ainda destacou que o evento promove o encontro de três palestrantes sênior e 10 jovens matemáticas. “A ausência de palestrantes semi-sênior é um alerta. Há muito para comemorar, mas muito mais para fazer”, concluiu.

O diretor-geral do IMPA, Marcelo Viana, disse que é uma honra para o Instituto ter colaborado para a organização do Encontro Brasileiro de Mulheres Matemáticas. Viana contou que a primeira vez em que ouviu falar sobre a questão de gênero na área foi em 1990, durante o ICM, em Kyoto, no Japão.

“Para muitos, eu incluído, era um assunto inexistente. Todos nós evoluímos, uns mais outros menos, e, sobretudo, fomos entendendo, eu fui entendendo, que as questões que se colocam em relação ao equilíbrio de gênero e à presença das mulheres na matemática são muito mais sutis do que a gente pensava no início”, declarou, considerando que elas dizem respeito e também transcendem o ambiente acadêmico.

Carolina, Marcelo, Celina e Christina na mesa de abertura do evento

Também presente na mesa de abertura, a pesquisadora do IME/USP, Christina Brech, fez uma retrospectiva do movimento de mulheres matemáticas no Brasil, citando a organização do Encontro Paulistas de Mulheres Matemáticas, em 2016, e destacou o Ciclo de Debates Matemática, Substantivo Feminino, inaugurado no IMPA, durante o 31º Colóquio Brasileiro de Matemática, em 2017. 

“Queríamos que homens e mulheres se conscientizassem de aspectos que a questão de gênero em matemática encerra”, disse, observando que o Ciclo abriu espaço para se falar sobre o tema, inspirou mulheres a se engajarem na questão e conectou mulheres, tecendo uma rede brasileira de mulheres matemáticas. Cerca de 70 mulheres de 15 universidades das cinco regiões do país participaram como debatedoras ou organizadoras, segundo ela. 

Entre as iniciativas surgidas ao longo do período, Christina citou, por exemplo, a criação da Comissão de Gênero da Sociedade Brasileira de Matemática (SMB) e da Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC). “As conquistas e iniciativas são todas importantes e elas são tão plurais quanto nós, mulheres matemáticas. No meu mundo ideal essa fala seria um coro”, observou, destacando que “conquista fundamental é poder falar sobre o tema”.

Em nome de Danielle Nunes, da L’Óreal Brasil, que não pode comparecer ao evento, Carolina falou sobre o programa “Para Mulheres na Ciência”, cujo vídeo oficial foi exibido durante a abertura. A empresa patrocina o Encontro, que também conta com apoio do IMPA, Capes, SBM, Fapesp, e CNPq. 

Ao finalizar a cerimônia, Carolina convidou a plateia conhecer a exposição “Um olhar singular. Contribuições de mulheres à Matemática Brasileira”, que conta a história de pesquisadoras que colaboraram para o desenvolvimento da disciplina no país. Muitas delas estavam presentes e foram aplaudidas durante a abertura. 

Entusiasmo

Logo após a cerimônia, a plateia acompanhou a palestra “Counting problemas and generating functions”, de Ragni Piene, da Universidade de Oslo, na Noruega, primeira mulher a participar do Comitê Executivo da União Matemática Internacional (IMU, na sigla em inglês).  Sobre o Encontro, a pesquisadora disse ter ficado maravilhada com a quantidade de participantes.  

Ragni Piene, da Universidade de Oslo: “Fantástico ter aqui pessoas de todo o Brasil”

“Mostra o entusiasmo em relação ao tema. Soube que são pessoas de todo o Brasil, o que é fantástico, afinal, é um país enorme, com longas distâncias. Realmente é um grande esforço para estar aqui. Todas essas mulheres juntas é uma grande oportunidade para colaborações científicas, amizades e network. Também achei ótima a apresentação das três jovens matemáticas. Muito confiantes. Isso é muito bom para o futuro da matemática brasileira.”

Até amanhã, os participantes terão uma programação intensa. Além das palestras especiais e de jovens pesquisadoras, haverá espaço para debates e reflexões, nas mesas redondas sobre diversidade na ciência e maternidade e carreira. 

Neste domingo, além do lançamento de dois livros sobre matemáticas e escritos por matemáticas, haverá uma sessão de tutoria, na qual serão discutidos alguns dos desafios da carreira e a forma de enfrentá-las. Durante a elaboração da atividade, decidiu-se criar uma plataforma para mulheres matemáticas no Brasil, espaço para projetos, eventos e oportunidades. O nome da página será escolhido pelos participantes até amanhã. 

O Encontro será concluído com a Sessão Panorama, na qual serão apresentadas iniciativas que visam estimular a inclusão e a diversidade na ciência.

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