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29 de abril de 2019, 14:36h

Matemático se dedicou a escola rural em Petrópolis, por décadas

Escola reunia em uma mesma sala alunos do 1º ao 4º ano do Ensino Fundamental

Karine Rodrigues

A estrada que leva até Contrões, na área rural de Petrópolis, exige motoristas habilidosos e paciência. Maurício Peixoto, pesquisador emérito do IMPA morto neste domingo (28), aos 98 anos, sabia bem disso. Por quase quatro décadas, frequentemente, ele vencia a distância a sacolejos até o sítio da família. Na região, apostou em uma transformação possível por meio da educação.

O projeto ia além das aulas extras de Matemática, que ele mesmo ministrava, aqui e ali, para estudantes do Ensino Fundamental,  e se materializava em um prédio modesto, de paredes claras, onde figurava o nome “Escola Municipal Marília Chaves Peixoto”.

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Situada a cerca de 70 quilômetros do centro de Petrópolis, a escola foi construída em 1971 e homenageia a primeira mulher de Peixoto. Também matemática, Marília morreu aos 39 anos, uma década antes. Gostaria de ter visto o projeto tomar corpo naquela região carente de recursos, onde o pai tinha um sítio.

Quando Peixoto ganhou, em 1969, o Prêmio Moinho Santista por contribuições à área de Sistemas Dinâmicos – entre as quais, um dos primeiros trabalhos sobre estabilidade estrutural feito com Marília -, ele nem pensou duas vezes: doou o recurso ganho para a prefeitura de Petrópolis, com destinação certa.

No 1º CBM, em 1957, Maríllia (1ª à direita na 1ª fila) e Maurício (3º na mesma fila, de óculos)

O matemático cearense queria finalmente ver ali, em Contrões, uma escola. Acreditava que a proximidade poderia ajudar a reduzir o índice de analfabetismo na região. A unidade de ensino mais próxima estava a cerca de dez quilômetros dali, vencidos a pé, cavalo ou carroça.

A escola foi erguida em um terreno doado pelo então sogro.  Lá, vigorava a classe multisseriada: crianças de 1º ano ao 4º ano do Ensino Fundamental compartilhavam o mesmo espaço e tinham uma única professora.

Nunca a educação esteve tão ao alcance dos moradores de Contrões, recorda Ana Caroline de Paula, 36 anos. “A escola foi muito importante para todos nós. Ninguém precisava mais ficar 1h30 na estrada para estudar”, conta ela, que fez os primeiros quatro anos do Ensino Fundamental na Marília Chaves Peixoto.

“Ninguém queria ensinar em uma distância tão grande”

Daquela época, Ana guarda inúmeras lembranças de Peixoto. Além das aulas extras de Matemática – “ele focava na importância da educação, de nos dedicarmos aos estudos, apesar das dificuldades” -, o via de um lado para outro tentando resolver o problema da locomoção das professoras.

“Não existia transporte, van escolar, tinha de ir a pé. Havia uma dificuldade grande até para conseguir professor, ninguém queria ensinar em uma distância tão grande”, relembra Ana, contando que Peixoto ajudou muito a comunidade onde ela morava, situada a pouco mais de 15 minutos de onde vive atualmente.

Quando as primeiras crianças concluíram os quatro anos na escola, recorda, surgiu uma dúvida na comunidade: será que elas vão dar conta das exigências das instituições de ensino da cidade? Segundo Ana, uma preocupação à toa: “O ensino era de qualidade. Não tive dificuldade. Depois fiz formação de professores”, revela. Já crescida, fez preparação para professora, entrou na Faculdade de Direito, mas não conseguiu concluir o curso.

Última mulher de Peixoto, a também matemática Alciléa Augusto dá a dimensão do projeto na vida do pesquisador. “Por quase 40 anos e nessa única sala, com cozinha e refeitório, fizeram o curso primário mais de 300 estudantes. Sem condução pública, longe de centros onde moravam as professoras, Maurício, durante todo esse tempo, providenciou a presença de uma professora na escola. Comprou bicicleta para uma, pagou ao dono de um fusca para que levasse e buscasse outra, pagou a gasolina do jipe de outra, forneceu merenda quando a prefeitura falhou, enfim, o que foi necessário para que as crianças de Contrões tivessem escola. Outros moradores ajudaram doando geladeira, fogão, gás.

Educação e valores

Em 2002, Peixoto tentou uma forma de apresentar à criançada o mundo novo da informática. Conseguiu com o Instituto de Matemática e Estatística (IME) da Universidade de São Paulo (USP) a doação de alguns computadores. O Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), assim como o Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), também ajudaram com novas máquinas. Na ocasião, com o apoio de proprietários de sítios vizinhos, conseguiu ampliar o prédio da escola, construindo um laboratório, salas, biblioteca e uma despensa.

Quando o transporte escolar da Prefeitura de Petrópolis passou a garantir a ida das crianças da região a unidades de ensino mais estruturadas, a escola se tornou o Centro de Referência Marília Chaves Peixoto. Lá, alunos de outras regiões aprendiam os segredos da informática, e adultos eram alfabetizados. Durante nove anos, cerca de 70 crianças eram atendidas por semestre.

Leandro Oliveira, o Léo, 31 anos, e a irmã, Juliana, também passaram quatro anos na Escola Municipal Marília Chaves Peixoto, de onde guarda boas lembranças. Crescido, voltou à escola para integrar o grupo de quatro estudantes que auxiliavam o professor nas aulas de informática.

“Sou muito agradecido pela pessoa que me tornei. Tenho muito orgulho da minha trajetória. E a escola foi essencial para isso. Lá recebi educação e aprendi valores importantes”, observa Léo, que trabalha como vendedor em uma empresa de Petrópolis e mora bem próximo de Contrões. “Até hoje é um lugar meio abandonado pelo poder público”, diz.

Sobre o assunto, Peixoto nunca gostou de falar publicamente. Vibrava muito com cada avanço presenciado na escola, mas não queria reconhecimento. Apenas viabilizar a transformação por meio de algo pelo qual tanto prezava.

“Certo dia, uma senhora contou que a mãe dela morria de vergonha por ser analfabeta, mas ela e os filhos todos sabiam ler, escrever e fazer contas graças ao Doutor Mauricio”, recorda Alciléa.

A escola continua à disposição da comunidade. Lá funciona a Associação da Microbacia do Brejal, que cuida da preservação das nascentes locais.

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