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3 de maio de 2019, 11:19h

Há muitas carreiras promissoras na Matemática

Reprodução do blog do IMPA Ciência & Matemática, de O Globo, coordenado por Claudio Landim

Roberto Imbuzeiro Oliveira  – Pesquisador titular do IMPA

Mais sobre a formação e as carreiras de matemáticos

No mês passado, fiz propaganda da carreira de matemático neste blog. O artigo fez sucesso, mas algumas pessoas que respeito reagiram com questionamentos. Será que eu não estava muito otimista com a carreira, exagerando as vantagens e escondendo as dificuldades?

Essa pergunta é um bom pretexto para esta “parte 2” daquele texto. Aqui, falo um pouco mais sobre as carreiras de matemáticos no Brasil e no mundo. Como veremos, há, sim, boas perspectivas, mas é preciso manter os pés no chão.

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1. Formações em Matemática

Os estudantes procuram a Matemática por diversas razões. Os alunos de licenciatura querem dar aulas na Educação Fundamental e falaremos pouco deles aqui. Já os alunos de Bacharelado em geral podem optar pela Matemática pura (focada em si e muito aprofundada) ou aplicada (com cursos mesclados de outras áreas).

Muitos institutos de Matemática nas universidades também oferecem programas em Atuária e Estatística. A Atuária serve para “avaliar e administrar riscos” [1] relacionados a seguros e previdência privada, por exemplo. Por sua vez, a Estatística lida com a “coleta, análise e interpretação de dados” [2]. As duas áreas têm muito prestígio, oferecem empregos bastante lucrativos e tendem a crescer muito. A Estatística, em particular, explodiu com o advento da chamada “Ciência de dados”.

Cada área acima tem suas vantagens. Atuária e Estatística são muito interessantes e dão emprego imediatamente. Já os bacharelados em Matemática pura e aplicada têm a vantagem de serem generalistas dentre as áreas técnicas: ao enfatizarem o raciocínio, preparam o aluno para oportunidades variadas, incluindo pós-graduações e empregos relacionados a Engenharia, Computação e Pesquisa Operacional (que é o uso de Matemática na tomada de decisões de empresas e governos). Na verdade, todas as formações descritas nesta seção abrem portas para profissões variadas.

 2Trabalhos para matemáticos nos Estados Unidos

O mercado de trabalho dos Estados Unidos reflete o dinamismo implícito no parágrafo anterior.

O governo dos EUA publica um guia chamado de “Occupational Outlook Handbook” (ou “Guia das perspectivas ocupacionais”) [3]. Na figura 1 abaixo, há uma tabela com informações sobre carreiras em Matemática e em outras áreas relacionadas. As colunas apresentam o crescimento esperado no número de vagas de 2016 a 2026; o salário mediano de cada área; e se o mercado costuma exigir pós-graduação dos profissionais.

 

Figura 1: dados dos EUA sobre carreiras em Matemática e algumas áreas relacionadas

Vemos que os salários medianos de matemáticos e estatísticos nos EUA são comparáveis aos de programadores, engenheiros civis e mecânicos e analistas financeiros. Por outro lado, Matemática, Estatística e Atuária devem crescer muito mais (33%) do que a maioria das outras profissões. Ou seja: ninguém vai escolher a Matemática para ser o mais rico, mas a perspectiva da carreira, mesmo na mediana, é muito boa.

3. Brasil parece bem na fita 

No nosso país, há menos dados, mas bons indícios. Estatísticos e atuários se dão extremamente bem no mercado brasileiro: quase todos saem empregados da faculdade. Sabe-se menos sobre bacharéis em Matemática, mas alguns programas – como a Matemática Aplicada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) [4] e a Matemática Industrial da Universidade Federal do Paraná (UFPR) [5] – relatam experiências muito animadoras de seus alunos na indústria, em consultorias e no setor financeiro, dentre outras áreas.

Para complementar estas informações, fiz uma pequena enquete com 31 alunos egressos do programa de Aplicada da UFRJ [6]. A figura 3 mostra onde foram trabalhar os formados pelo programa que preencheram ao meu formulário. Mais ou menos um terço deles foi para área de pesquisa, que discutiremos mais adiante. Outro terço dos egressos foi para o setor financeiro, enquanto 20% dos ex-alunos está em Informática ou Ciência de Dados.

Figura 2: primeiro emprego dos egressos da Matemática Aplicada da UFRJ. Dados compilados a partir de enquete do Google Forms

Alguns pontos das respostas da enquete merecem atenção.

a) Mais da metade dos ex-alunos acredita ter achado emprego mais facilmente do que colegas de outras áreas, como Computação e Engenharia. Menos de 10% dos alunos acreditam ter tido mais dificuldade.

b) Mais ou menos 45% dos ex-alunos se julgam mais bem preparados para seus empregos do que colegas de outras áreas. Outros 45% estão neutros. Apenas 10% julgam estar menos bem preparados.

c) Mais de 80% dos egressos recomendam a formação em Matemática Aplicada para outros interessados em trabalhar em suas áreas.

Resumindo, os resultados da enquete são muito animadores para os matemáticos aplicados brasileiros. Eles não parecem ficar atrás de atuários e estatísticos!

4. Carreiras em pesquisa Matemática

O quadro acima é animador, mas talvez diga pouco para os muitos alunos que fazem Matemática ou Estatística para descobrir coisas novas nestas áreas.

Quem trabalha com esta descoberta é pesquisador, ainda que em geral também seja professor universitário [7]. A pesquisa é a opção padrão para matemáticos puros, mas ela também é desejada por estudantes de outras áreas. Como veremos, os dados sobre pesquisadores dos EUA trazem um susto e um consolo para quem quer fazer pesquisa.

Primeiro, um pouco de contexto. Quem quer fazer pesquisa quase sempre faz doutorado, o estágio mais avançado da formação. A “American Mathematical Society” (AMS, ou “Sociedade Americana de Matemática”) publica relatórios periódicos sobre o emprego logo depois do doutorado dos doutores em Matemática, Estatística e Bioestatística (ou Estatística voltada para as Ciências Biomédicas) nos Estados Unidos. O documento que cito [8] cobre o período de 2015 a 2016 e está resumido na Figura 2.

Figura 3: dados sobre o primeiro emprego dos doutores em Matemática, Estatística e Bioestatística dos EUA formados em 2015 e 2016. Só foram contados os formandos que obtiveram emprego no próprio país

Vemos que 25% dos doutores vão trabalhar como professores pesquisadores na área, e outros 12% se tornam professores pesquisadores em outras áreas (como Medicina). Portanto quase dois terços dos doutorandos acaba não trabalhando em pesquisa. Só um quarto tem emprego em departamentos de pesquisa em sua área. Isso reflete a grande competitividade da Ciência nos EUA e pode gerar medo e ansiedade para quem sonha trabalhar investigação matemática ou estatística.

Por outro lado, há uma boa notícia no gráfico acima. Muitos dos doutores que não vão para pesquisa acabam em empregos confortáveis ou até bastante lucrativos – governo, consultorias e setor financeiro são destinos comuns. É difícil chamar de “fracassado” quem acaba assim. Na verdade, muitos descobrem ainda no doutorado que a pesquisa cansa muito e lhes gratifica pouco.

Os dados dos EUA são relativamente estáveis de um ano para o outro. O Brasil é diferente. De 2006 a 2015, houve uma abundância de empregos de pesquisa em Matemática. Muitas novas universidades foram criadas, e os centros tradicionais se expandiram e renovaram seus quadros. Este “boom” somou-se ao trabalho de muitos anos para alavancar a pesquisa brasileira em Matemática a um patamar de grande qualidade, que se reflete no prestígio internacional da área, tendo elevado o país ao Nível 5 da União Matemática Internacional, a elite da pesquisa matemática mundial, composta por apenas 11 países. Infelizmente, as perspectivas atuais de emprego em pesquisa no país não são animadoras; é até difícil prever o futuro.

Para ler o texto na íntegra acesse o site do jornal

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