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23 de maio de 2019, 17:25h

Série de reportagens aborda desafios da Matemática

O professor Luiz Felipe Lins tem vários alunos premiados em matemática Crédito: Paula Martini/CBN

Reprodução da Rádio CBN

Por Paula Martini – Menção honrosa na categoria Matemática do Prêmio Impa-SBM de Jornalismo 2018

A rotina na escola Francis Hime seria a mesma de qualquer escola pública do Brasil, não fossem os números. Um deles, em especial: quatrocentos e noventa e nove. Esse é o total de premiações que os alunos do colégio municipal da Zona Oeste do Rio já receberam em competições de matemática. O estudante João Vitor Pereira poderia ser definido pelo som das medalhas dele. Aos 13 anos, ele já tem bronze, prata e dois ouros de diferentes torneios. Mas João conta que nem sempre foi assim.

“Eu estudava antes em colégio particular e não gostava muito de matemática. Aí eu vim pra Francis Hime e acabei me interessando mais. Acho que foi o jeito da professora explicar. Ela explicava bem, brincando, colocava tudo no quadro e sempre perguntava se alguém tinha dúvida.”

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Com 13 anos, João Vitor Pereira tem várias medalhas em matemática

Boa parte desses resultados foi conquistada com o suor do professor Luiz Felipe Lins, que trabalha na escola há 12 anos. Para cativar os alunos, ele usa exercícios práticos e jogos de tabuleiro, mas diz que não existe segredo pra formar turmas bem-sucedidas.

“Até que ponto resolver uma equação de segundo grau é fundamental? Todo mundo precisa de técnicas pra resolver problemas em tudo na vida, e isso a matemática desperta. Mas a ideia não é formar matemáticos, ou campeões em matemática.”

O método do professor Luiz Felipe deu tão certo que ele mesmo precisou voltar a ser aluno. Hoje, ele divide o tempo entre as turmas da Francis Hime, de uma escola particular e o doutorado em matemática.

“Essa matemática que eu voltei a estudar não é uma matemática que eu vou aplicar neles, mas vai me dar um olhar diferente do que eu estou fazendo.  Como as crianças desenvolveram potencial tão grande, eu comecei a ver que eu estava muito longe da matemática, eu tinha que estudar, eles estavam melhores do que eu.”

Mas, dos dois milhões e duzentos mil professores da educação básica do país, um quarto (24%) não se formou nem no nível superior*. Em matemática, seis a cada dez (61%) docentes que dão aula nos anos finais do ensino fundamental não tem formação específica na área. Entre os qualificados, ainda há quem precise se dividir ensinando outras matérias. No ensino de Física do Ensino Médio, por exemplo, um terço dos professores tem licenciatura só em matemática (29,8%). Os dados são do Movimento Todos pela Educação, com base no Censo do Inep de 2015. 

Um dos principais matemáticos do mundo, o premiado Artur Ávila diz que, além da falta de incentivo, os professores têm um desafio maior: mudar a imagem da matemática que muita gente traz de casa.

“Tanto na escola, como mesmo na família, existem coisas que levam as pessoas a se afastarem da matemática. Socialmente, muitas vezes, é até estimulado. Uma pessoa dizer  que é incompetente com matemática e não consegue fazer conta vai  fazer algumas pessoas rirem, até se identificar. Não da mesma maneira que alguém dizer que não sabe ler. Mas, pra muito além de fazer conta, tem muitos conceitos que são importantes pra uma participação efetiva na sociedade.”

* O Plano Nacional de Educação exige a formação específica na área de conhecimento da disciplina que o docente ministra, mas a Lei de Diretrizes e Bases de 1996 (LDB), que não é anulada pelo PNE, determina como formação mínima adequada o nível superior com habilitação em licenciatura para os anos finais do EF e para o EM, e curso de pedagogia para os anos iniciais do EF e para a Educação Infantil, sendo admitido para estas duas etapas o curso normal de Ensino Médio (magistério).

Confira aqui as outras reportagens da série.

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