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27 de julho de 2019, 23:04h

Pesquisadoras se reúnem para debater diversidade na ciência

Aos 15 anos, apenas 22% das meninas pensam em seguir carreira nas áreas de ciências e engenharia. Na graduação, o percentual de mulheres inscritas nestes cursos alcança a  faixa de 50%, mas, na pós-graduação, em particular nos programas de doutorado, o índice cai novamente. Foi a partir da apresentação de dados, que retratam a baixa representatividade feminina na ciência, que teve início a mesa redonda sobre diversidade no Encontro Brasileiro de Mulheres Matemáticas, neste sábado (27), no IMPA.

Composta pelas pesquisadoras Sonia Guimarães, professora de Física do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), e Bárbara Carine Soares Pinheiro, professora de Química da Universidade Federal da Bahia (UFBA), a mesa, mediada Bruna Magno, estudante de doutorado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), abordou questões de gênero e raça.

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Primeira mulher negra brasileira a obter o título de doutora em Física e a lecionar no ITA,  Sonia celebrou, em sua apresentação, o trabalho e trajetória de outras pesquisadoras negras na área, entre elas Katemari Rosa, Marcelle Soares Santos e Zélia Maria da Costa Ludwig.

Sobre Zélia, que atua como professora na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Sonia destacou o empenho em estimular nas meninas o interesse pela ciência.

Física Sonia Guimarães, professora do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA)

“Para acabar com o desinteresse pela Física, com esse argumento de que é muito difícil, Zélia diz para levarmos o laboratório para o Ensino Médio, para as periferias, mostrando como a Física funciona, o que ela faz, mas com equipamentos, não só com teorias”, apontou Sonia.

Outra pesquisadora destacada por Sonia foi a física e mulher trans Vivian Miranda, única brasileira em projeto de foguete na Nasa. Durante a apresentação, a professora do ITA também enfatizou a importância da afirmação racial.

“Com todo o estigma da cor da pele, tem mulher negra que não se diz negra. Eu costumo dizer que eu sou uma negra declarada porque talvez até exista uma outra mulher que, antes de mim, se formou em Física, com doutorado, e não tenha a pele branca. Mas ela não se declarou até hoje, então eu continuo muito famosa”, brincou Sonia.

Já Bárbara propôs uma reflexão acerca da construção social do gênero feminino, bem como dos mitos comportamentais e intelectuais a ele associados que afastam as mulheres de espaços de poder, entre eles a ciência. Como embasamento teórico, acessou as discussões levantadas por autoras referências no tema, como Simone de Beavouir e Ana Montenegro.

“A partir do momento em que surge a propriedade privada, surge também a privação do corpo da mulher, a noção da mulher enquanto propriedade privada do homem. Obviamente, para privar um ser à minha tutela, é preciso criar características de submissão e inferioridade nesse ser. Neste contexto, surge o gênero feminino, surge a mulher como dependente do homem, como doméstica, como bela, recatada e do lar”, explicou Bárbara.

Química Bárbara Carine Soares Pinheiro, professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA)

Citando os trabalhos das filósofas Angela Davis e Sueli Carneiro, Bárbara aprofundou o debate sobre gênero, perpassando, agora, por aspectos raciais. “Precisamos pensar nas múltiplas determinações que constituíram o histórico de diversidade da mulher. Existem características tidas como do gênero feminino que não se aplicam às mulheres negras”, apontou.

A pesquisadora criticou ainda o recorte temporal das aulas de História, que apresenta a população negra apenas em condição de escravidão e subserviência.

“A memória que a escola bate a vida toda na minha cabeça é uma memória de quatro séculos em detrimento de pelo menos 300 mil anos de história. Se vocês tiverem a dimensão de como é absurdo o que a escola faz conosco para imprimir uma subjetividade de inferioridade na cabeça de pessoas negras e de superioridade das pessoas brancas, verão que é surreal. Ficam martelando em nossas cabeças: ‘você é filho de escravo’”.

Para enfatizar como considerar as questões de raça também é importante ao discutir gênero, Bárbara mostrou o quadro de mulheres que já foram contempladas com o Nobel de Química. O número é ínfimo: apenas quatro, de um total de 178 laureados. Nenhuma delas, porém, era negra.

Ao fim das apresentações, o público compartilhou experiências, observações e agradecimentos.

“Estou muito feliz de ver tantas mulheres negras neste evento. Nestes tipo de espaço, costumo contar quantas negras estão presentes, porque, geralmente, quando falam de mulheres nas exatas, sempre são 100% brancas, mas neste auditório eu perdi a conta. Além disso, muitas vezes somos vistas como burras, mas vocês mostraram o contrário, me inspiraram a seguir em frente”, disse Wellem Christina, estudante de graduação em Matemática na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

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