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3 de setembro de 2019, 11:13h

'Não há progresso sem Matemática', diz pesquisador

Na literatura e no cinema, não é raro esbarrar com o estereótipo do “cientista maluco”: jaleco branco, penteado esquisito e uma risada alucinada em seu laboratório equipado com tubos de ensaio, geradores de Van de Graaff e aparatos eletrônicos impressionantes. O personagem e o cenário encantavam Diego Fernandes Nehab e a carreira na ciência era um sonho de infância. 

Pesquisador do IMPA desde 2010, o carioca encontrou na Matemática e na computação gráfica uma maneira de se manter engajado com os projetos científicos. 

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“Não sei muito bem de onde veio a ideia de profissão. Talvez porque sempre me interessei muito por mecanismos, em saber como as coisas funcionam e o porquê de tudo. Adorava desmontar equipamentos mecânicos, elétricos e eletrônicos para ver o que tinha dentro. Dependendo de quem conta a história, eu conseguia montar de volta ou não. Mas todos concordam que as coisas eram de fato desmontadas”, recorda.

À época do vestibular, Nehab ficou em dúvida entre três cursos: engenharia mecatrônica, engenharia de computação e Matemática. Como não dispunha de informações suficientes para uma decisão assertiva, ele tentou adotar um raciocínio pragmático. 

“Engenharia mecatrônica me pareceu uma carreira sem muito futuro. Afinal, robôs são brinquedos caros, e o Brasil não era muito competitivo na área. Cursar Matemática praticamente me obrigaria a ser pesquisador. Computação parecia ter um mercado infinito de possibilidades. Fora isso, computadores são basicamente robôs que não se mexem. Pareceu-me óbvia a escolha. Ironicamente, hoje sou pesquisador do IMPA.”

Nehab se formou em engenharia de computação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), tendo cursado um ano na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), nos EUA, como aluno de intercâmbio. Também na PUC-Rio, fez mestrado em informática, com ênfase em linguagens de programação. 

Durante o doutorado na Universidade Princeton (EUA), trabalhou com o pesquisador Szymon Rusinkiewicz em diversos projetos relacionados à captura da geometria e aparência de objetos reais por computador. Neste período, fez estágios de verão na Honda Research, na ATI Technologies (atual Advanced Micro Devices – AMD) e na Microsoft Research. Nesta última também fez o pós-doutorado, com o cientista Hugues Hoppe, que hoje atua no Google. 

Nehab escolheu trabalhar no IMPA pelo foco em produção de pesquisa e na formação de pesquisadores, ambos em paridade com outras instituições de renome internacional. Envolvido com diferentes linhas de pesquisa, em colaboração com alunos e pesquisadores de outras instituições, Nehab, no momento, tem se dedicado a problemas relacionados ao desenho de ilustrações vetoriais por computador. 

“Praticamente tudo o que vemos na tela (exceto por jogos 3D ou fotografias e vídeos) é representado de forma vetorial: mapas, texto, gráficos, ícones, entre outros. Parece um problema que já foi resolvido, mas ainda há muito para ser melhorado. Em particular, é fundamental que consigamos dividir a tarefa do desenho entre vários processadores diferentes porque os computadores não estão ficando mais rápidos, só mais paralelos. Esta é uma das minhas especialidades”, aponta.

O pesquisador acredita que a capacidade de traduzir problemas do mundo real para uma linguagem matemática é o que nos permite compreender tão bem o universo em que vivemos. 

“É esta compreensão que nos dá o poder de mudar o mundo de acordo com a nossa vontade. Assim, Matemática, Ciência e Engenharia afetam praticamente tudo no nosso dia a dia: o tecido das nossas roupas, a luz elétrica, os prédios, os aparelhos de telefone celular que cada vez mais predominam nas nossas interações, os programas que rodam nesses aparelhos. Hoje em dia, não há progresso sem Matemática e computação”, reflete.  

Aos 42 anos, Nehab está focado, no momento, no nascimento do filho, previsto para novembro. “Acho que os planos futuros vão depender dele”, brinca. 

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