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27/04/2022

‘Matemática precisa do seu próprio ar’, diz doutoranda

A primeira vez em que Zoraida Fernandez-Rico pisou no Rio de Janeiro foi em 2016, quando desembarcou de um avião a caminho do mestrado no IMPA. Desde então, a atual  doutoranda foi envolvida pela cidade e, nesta sexta-feira (29), às 13h, conclui mais uma etapa em sua formação acadêmica. Após formar-se mestre pelo instituto, apresenta a tese “Estimação ótima: propriedades sub-Gaussianas, cauda pesada e robustez”. A defesa será realizada na sala 232 e terá
transmissão online.

Orientada pelo pesquisador do IMPA Roberto Imbuzeiro, a tese foi elaborada, em partes, à distância, por conta da pandemia da Covid-19. A aluna conta que durante a pandemia ficou mais introspectiva, mas, apesar disso, não desistiu. “As videochamadas com meu orientador sempre me motivaram. Há uma mágica em discutir matemática com Roberto, que conseguiu criar um ótimo ambiente de trabalho mesmo em plena pandemia… Ele é um excelente matemático e tem um coração grande. Quando queríamos formalizar o seminário das alunas do IMPA, por exemplo, não hesitamos em pedir a ajuda dele”, disse.

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O trabalho aborda a estimação estatística ótima para amostras finitas sob as perspectivas de robustez e dados de cauda pesada. “Nós estudamos dois problemas: propriedades da média truncada e estimação da matriz de covariâncias. Nosso principal resultado é que a média truncada atinge cotas quase Gaussianas para observações que não necessariamente são deste tipo. De fato, as observações podem ser muito malcomportadas. Também nos interessa desenhar estimadores ótimos para outros objetos como a matriz de covariância”, explica.

Vida e trajetória acadêmica

Nascida em Cochabamba, cidade na região central da Bolívia, Zoraida cresceu em uma casa construída há quase 200 anos, cercada de cultura e reuniões embaladas ao som de folclore latino-americano. Apesar de Cochabamba significar, em quechua uma das línguas indígenas da Bolívia —, “planície entre as águas”, a abundância do recurso natural não assegurou a oferta de um sistema de água potável e esgoto para os habitantes da região. Conhecida como “Guerra da Água”, a mobilização popular de bolivianos contra a privatização do sistema municipal de gestão da água, em 2000, ficou marcada na história da doutoranda.

“Foi a primeira vez, por exemplo, que vivi um estado de sítio. Desde então, fui testemunha das pessoas tentando sair da cidade, procurando um futuro melhor. As músicas, os filmes, as conversas nos restaurantes, tudo era sobre a ilusão de ir embora. Inclusive, a peça de teatro do meu colégio abordou isso. Eu fiz o papel de migrante”, relembra.

Filha de uma geneticista, a ciência esteve tão presente quanto a arte na infância da doutoranda, que tinha uma ampla variedade de interesses: literatura, física, matemática, entre outros tópicos. A escolha profissional pela área de exatas foi por acaso. “Cheguei a matemática por um erro no momento certo. Gabriel Garcia Márquez sabia errar com precisão, eu não. Tive a sorte e o prazer de poder fazer o que queria. E eu sei que muitas meninas no meu país não têm essa escolha. Também não têm essa oportunidade para errar”, comentou.

Para a graduação, escolheu o curso de matemática na Universidade Mayor de San Andrés, em La Paz, na Bolívia. Habituada a viver na cidade que está a mais de 3.600 metros acima do nível do mar, Zoraida trocou La Paz pelo Rio de Janeiro, para começar o mestrado no IMPA. Ao desembarcar na capital fluminense, logo sentiu a mudança brusca do ar, marcado pela umidade. “Quando desci do avião, senti como se estivesse entrando numa sauna. E nunca mais saí”, contou.

A doutoranda conta que se sentiu satisfeita com sua experiência no instituto desde o começo. “A coisa mais importante que me aconteceu na vida sempre foram as pessoas. A minha graduação e pós-graduação me permitiram compartilhar trajetórias, narrativas e cumplicidade com pessoas maravilhosas que agora moram no meu coração.”

A nível acadêmico, a doutoranda descreveu sua jornada como “formativa, bonita e frustrante”. “Às vezes, a matemática ficava ‘árida’ demais para mim e eu me sentia perdida. Encontrar o norte pode demorar, retornar ao ponto de partida pode não acontecer, ir para frente pode te afastar mais. Algumas vezes temos que parar para respirar. Acho que a matemática precisa do seu próprio ar”, disse.

Mulheres na matemática

A dedicação pelos estudos não impede Zoraida de reservar espaço para outras paixões, como a leitura, o mar e o cinema. Nos últimos anos, grande parte de seu tempo foi dedicado a discussões sobre representatividade de gênero na matemática. A boliviana participou da organização de eventos como o primeiro e segundo Encontro Mulheres Matemáticas do IMPA. 

“Acho que habitar-se como mulher na matemática tem um pouquinho a ver com se reconhecer através de outras mulheres matemáticas. Participar desses grupos me dá um sentimento de pertencimento. Eu tive referências como a Carolina e a Luna, o que foi muito importante, porque gerações passadas não as tiveram”, disse. 

E, se depender da matemática, ainda vem muita mudança pela frente neste cenário. “Planejo continuar participando de grupos de mulheres matemáticas no futuro. Gostaria muito de formar a primeira sociedade de mulheres e pessoas diversas matemáticas na Bolívia”, completou.

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