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16 de agosto de 2019, 17:07h

Jaqueline Mesquita ganha Prêmio Para Mulheres na Ciência

Jaqueline Mesquita (2ª da dir. para esq) foi uma das premiadas em 2019 / Foto: L’Oréal Brasil

Jaqueline Godoy Mesquita sempre teve vontade de seguir carreira como cientista. As possibilidades eram tantas, que, à época do vestibular, ficou indecisa. Para escolher a área, precisou de um empurrãozinho da tia e matemática Cleide Bezerra. Vencedora do Prêmio Para Mulheres na Ciência 2019, na categoria Ciências Matemáticas, a roraimense, de 33 anos, não tem mais dúvidas: nasceu para isto. 

Criado para reconhecer e promover a participação da mulher na ciência e apoiar cientistas promissoras no país, o prêmio é uma iniciativa da L’Oréal, em parceria com a Unesco Brasil e a Academia Brasileira de Ciências (ABC). A cada ano, sete jovens pesquisadoras nas áreas de Ciências da Vida, Física, Química e Matemática são contempladas com uma bolsa-auxílio de R$ 50 mil para desenvolverem seus projetos. 

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Professora da Universidade de Brasília (UnB), onde graduou-se (2007), Jaqueline estuda equações diferenciais funcionais com retardamento, utilizadas para descrever fenômenos que possuem um lapso de tempo entre a causa e o efeito, como, por exemplo, a ingestão de um medicamento. Atualmente, a pesquisadora está na Alemanha como Capes/Alexander von Humboldt fellow trabalhando com o pesquisador Hans-Otto Walther, expoente na área.

Com mestrado (2009) e doutorado (2012) pela Universidade de São Paulo (USP), este último com período sanduíche na Academia de Ciências da República Tcheca, Jaqueline conta que começou a se interessar pela área a partir de um problema proposto pela orientadora, Márcia Cristina Federson. 

“Quando comecei a estudar estas equações e a entender a complexidade delas, bem como a importância na descrição de diversos modelos, fiquei encantada e quis aprofundar meus estudos na área. No doutorado, continuei na mesma linha de pesquisa e investiguei uma classe de equações envolvendo medida e retardamento e estabeleci uma relação entre estas e outros tipos de equações. Agora estou trabalhando em uma classe mais ampla destas equações onde o retardo depende do estado.”

Campo relativamente novo da Matemática, as equações que envolvem retardamento vem ganhando destaque pela sua grande aplicabilidade.

“Elas podem ser usadas para descrever modelos de doenças como a zika, que possuem certo período de incubação, ou seja, existe um tempo entre ser infectado e apresentar os sintomas da doença”, exemplifica.

Secretária Regional da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) e membro afiliado da Academia Mundial de Ciências (TWAS, em inglês) e da ABC, Jaqueline realizou estágios de pós-doutorado na Universidade de Santiago do Chile e na USP. Apesar do currículo, a pesquisadora diz que a vivência no ambiente majoritariamente masculino da academia não foi – e ainda não é – fácil. 

“Na minha turma de graduação, entraram 36 alunos e apenas sete eram mulheres. Além disso, tive pouquíssimas professoras na graduação. Isto teve um impacto muito grande para mim, pois o cenário tinha mudado drasticamente do Ensino Médio para a graduação e, no novo espaço, eu não me sentia representada. À medida que fui cursando mestrado e doutorado, este número foi se reduzindo cada vez mais e a sensação de não pertencimento foi aumentando.”

Em julho, Jaqueline participou do Encontro Brasileiro de Mulheres Matemáticas (EBMM), no IMPA. Além de apresentar sua pesquisa, também foi uma das convidadas da sessão de tutoria, compartilhando com jovens matemáticas oportunidades de bolsas no Brasil e no exterior.

“A representatividade tem um papel crucial para aumentar a diversidade. É fundamental que as nossas jovens se sintam incluídas e percebam que a ciência também é o espaço delas. É importante direcionar e estimular as jovens cientistas que estão começando suas carreiras, incentivando-as e dando suporte para elas enfrentarem os desafios”, diz a matemática. 

Nesta edição do “Para Mulheres na Ciência”, foram registradas 508 inscrições. Este é o segundo maior número na história do concurso, criado em 2006, no Brasil. Além de Jaqueline, as pesquisadoras reconhecidas foram: a fisioterapeuta Aline Silva de Miranda (UFMG); a biomédica Adriana Folador (UFPA); a neurocientista Josiane Budni (UNESC); a etnobotânica Patrícia de Medeiros (UFAL); a astrofísica Marina Trevisan (UFRGS); e a química Taícia Fill (Unicamp). 

“É muito importante termos diversidade nos grupos de pesquisa, pois são vários os olhares com distintas perspectivas direcionadas a um determinado problema, trazendo resultados mais eficazes e um ambiente muito mais produtivo. Iniciativas como o Prêmio L’Oréal-Unesco-ABC e o EBMM têm um papel fundamental na desconstrução dos diversos estereótipos e preconceitos que estão enraizados social e culturalmente, trazendo a discussão e a reflexão para a comunidade científica”, aponta. 

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