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19 de agosto de 2019, 15:00h

Espetáculo de teatro de bonecos em realidade virtual no IMPA

Karine Rodrigues

Teatro de bonecos em realidade virtual? A união da milenar arte das marionetes com uma tecnologia comparativamente recente, de mundos criados por computador, despertou a curiosidade de quem foi conferir a apresentação “Aventuras de Lilith & Wood”, realizada na noite da última quinta-feira, no IMPA.

Sentados diante do telão do auditório, a plateia formada por profissionais de áreas como design, artes cênicas, matemática e computação gráfica acompanhou a história da desbravadora de mundos Lilith e do boneco Wood, que vivia solitário e nem sabia da existência de outros cenários e dimensões.

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À primeira vista, a produção parecia um curta de animação. Mas a história que o público viu estava além de um audiovisual tradicional: foi um cineateatro ao vivo, a transmissão de uma trama que estava se passando a poucos metros dali, em uma sala do Visgraf, o Laboratório de Computação Gráfica do IMPA.

Miguel e Vida durante um dos ensaios realizados no Visgraf

De lá, usando equipamentos de realidade virtual, os atores e manipuladores de bonecos Mariana Fausto e Miguel Araujo movimentavam seus avatares, Lilith e Wood, vistos no telão do auditório, explicou aos convidados o pesquisador-líder do Visgraf, Luiz Velho. 

Segundo contou no bate-papo após a apresentação, “Aventuras de Lilith & Wood” surgiu para testar e demonstrar o sistema de animação Expanded Virtual Puppeteering, que o assistente de pesquisa do Visgraf, Bernard Lupiac, desenvolveu sob coordenação de Velho. Para chegar à aplicação, convidaram animadores e diretores de teatro para integrar o projeto. 

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Surgiu, então, o que Velho definiu como colaboração tecnológica-artística entre pesquisa, desenvolvimento e ensino na área de Computação e Novas Mídias do Visgraf e direção criativa e encenação do Cegonha Bando Criação. Assim como em “The Tempest”, baseado na obra homônima de Shakespeare e apresentado ao longo de 2018, o projeto cresceu com a parceria entre áreas multidisciplinares.

Juntos desde meados de fevereiro, eles realizaram experiências para testar o sistema e aperfeiçoaram as ferramentas para a animação dos bonecos. Em seminário realizado no dia anterior, no IMPA, Velho e Lupiac explicaram que a tecnologia permite que o performer manipule bonecos virtuais usando as mãos nuas, por meio de um sistema de interação gestual.

Mas como você passa a intenção do manipulador do boneco através dos gestos para uma animação virtual no computador? Por meio de dispositivos com sensores (leap motion) que captam a imagem dos movimentos das mãos do usuário e as enviam para o computador, onde um programa lê os dados e os interpreta, usando inteligência artificial.

Bernard Lupiac é pesquisador assistente do Visgraf

No seminário de quarta-feira, Lupiac explicou que usou o conceito de machine learning: o computador aprende a classificar os gestos a partir das imagens das mãos capturadas pelos dispositivos (leap motions). São considerados vários modos de manipulação do boneco para troca de contexto na cena, como mexer a cabeça e andar. 

Lupiac lançou mão da plataforma Unity, usada no desenvolvimento de jogos, e optou por três recursos de controle de movimentos: animações; controle de movimento baseado em simulação física e cinemática inversa, ferramenta matemática muito poderosa de fazer animação quando há uma estrutura articulada, como o corpo humano, explicou Velho.

Bate-papo após a exibição de “Aventuras de Lilith & Wood”

“Você calcula quais são os parâmetros, os ângulos de rotação, para dobrar, por exemplo, o braço. São muitos cálculos. Mas posso simplesmente capturar a posição da mão, e o computador calcula tudo”, diz o pesquisador líder do Visgraf, observando o trabalhão que seria fazer isso em um corpo tão articulado quanto o humano.

A grande sacada da pesquisa, observou Velho, foi a introdução do conceito de modos, o sistema de reconhecimento de gestos, treinado com inteligência artificial. “Há o modo de mexer com a cabeça, com o braço, de andar, de pular, de voar”, disse ele, explicando que outros foram criados na medida do que pedia o roteiro criado pela também diretora Vida de Oliveira. 

A diretora, que se diz uma “entusiasta da mistura entre tecnologia e teatro”, avaliou que a experiência valeu a pena. “Por mais desafiador que seja sempre vou defender que vai dar samba. Mas tivemos que adaptar muitas técnicas de manipulação para conseguir movimentar os bonecos virtuais. Ao mesmo tempo, precisamos nos apropriar das possibilidades do mundo virtual.”

Luiz Velho e o fundador da Cia PeQuod – Teatro de Animação, Miguel Vellinho

Convidado para assistir a apresentação o fundador da Cia PeQuod – Teatro de Animação, Miguel Vellinho, considerou que o experimento anuncia as inúmeras possibilidades narrativas que hão de surgir. “Acho extremamente fascinante essa junção do virtual com real. Isso me leva a pensar em como a gente faz para transformar esse corpo, que não precisa seguir um modelo antropomórfico e que pode se configurar de outra maneira, a partir da movimentação humana.”

Visgraf e Cegonha já têm até novidades: um novo personagem, um cachorro robô criado com inteligência artificial; e um roteiro mais voltado ao público infantil. “Estamos construindo um universo de narrativas com vários mundos. Aqui é o primeiro episódio. Isso aqui vai ficar um Star Wars”, brincou Velho.

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