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27 de julho de 2019, 12:51h

Cientistas usam dados para achar corpos em Brumadinho

Bombeiros buscam vítimas da tragédia em Brumadinho (MG) / Imagem: Divulgação

Reprodução do UOL

Por Stefhanie Piovezan – Finalista na categoria Divulgação Científica do Prêmio IMPA-SBM de Jornalismo 2019

Pesquisadores de diversas universidades brasileiras e diferentes especialidades, como cientistas de dados, engenheiros, matemáticos e físicos, decidiram se reunir para achar formas de ajudar na localização das vítimas em Brumadinho (MG) e evitar novos rompimentos de barragens. Assim nasceu o grupo “Ciência por Brumadinho”. 

De acordo com o último levantamento da Defesa Civil de Minas Gerais, 182 pessoas morreram na tragédia na mina Córrego do Feijão e 126 são consideradas desaparecidas.

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“Não consigo dizer o que move todos os integrantes da rede, mas, no meu caso, é a revolta. Não é o primeiro erro, é o segundo e foi seguido. Parece que não houve uma preocupação dos órgãos responsáveis em evitar que essas tragédias acontecessem e entendo que não dá mais para ficar esperando que alguém resolva. Nós temos que agir e ajudar a evitar que isso aconteça”, Vânia de Oliveira Neves, coordenadora da iniciativa e pesquisadora da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora).

Neves é especialista em engenharia de software e quer usar o domínio dessa tecnologia para ajudar o trabalho do Corpo de Bombeiros, mas não anda fácil.

Cansada de esperar pelas informações necessárias para o desenvolvimento de programas e aplicativos de apoio, que nunca chegavam, ela passou a buscar ativamente o contato direto com as equipes de resgate. Só que ouviu da corporação que a prioridade era localizar os corpos das vítimas, então decidiu montar uma rede paralela para correr atrás desses dados.

Com a ajuda de voluntário que trabalha no Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, conseguiu acionar pesquisadores interessados em ajudar na causa, especialmente cientistas da área da computação. Juntaram-se a ela 80 cientistas de universidades como USP, Unicamp, PUC-RS, UFAL, UFAM e UFF e cerca de 200 voluntários na área de tecnologia – alguns já participam ativamente, outros acompanham o grupo aguardando sua especialidade ser requisitada.

São várias frentes de trabalho:

  1. Estudo da mecânica dos fluidos para entender como a lama se dispersou e sedimentou
  2. Uso de algoritmo para encontrar a força de arrasto e, a partir dela, indicar possíveis posicionamentos
  3. Uso de aprendizagem de máquina para simular onde estão os corpos
  4. Integração dos modelos
  5. Validação de desaparecidos

Análise do caminho da lama

Os primeiros resultados que surgiram no grupo de WhatsApp dos pesquisadores, que conta também com representantes do MP e do Corpo de Bombeiros, vieram da Poli (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo).

Integrantes do Laboratório de Automação e Controle da faculdade partiram de um algoritmo para encontrar a força de arrasto no rejeito, chegar à aceleração da lama e, a partir daí, estimar a distância percorrida pelas vítimas.

Com isso, conseguiram definir 30 possíveis localizações para aqueles que estavam no refeitório no momento do rompimento da barragem.

“Esse método pode auxiliar os bombeiros, porque indica pontos que não foram imaginados”,  Rafael Fernandes Pinheiro, doutorando da Poli-USP.

Ele e os colegas tentam agora aperfeiçoar o algoritmo e, com a ajuda de outros pesquisadores, indicar não apenas latitude e longitude, mas também a profundidade dos corpos.

Apesar dos esforços, Neves é cautelosa quanto ao impacto da iniciativa. Ela explica que há dificuldade em encontrar profissionais que entendam a dinâmica da lama e, como o trabalho é voluntário, muitos só conseguem ajudar nas horas de folga.

Além disso, os pesquisadores dispõem de poucas informações sobre o comportamento de fluxos de lama e dizem que não é possível garantir o sucesso da empreitada. “É uma tentativa. Estamos tentando e fazendo o nosso melhor para dar um pouco de conforto às famílias”, diz a cientista.

Mapa enviado pelo Ministério Público de Minas Gerais mostra a localização das vítimas de Brumadinho / Imagem: Divulgação

Análise de dados Outro grupo que colabora com o projeto Ciência por Brumadinho, nesse caso utilizando aprendizagem de máquina, está estabelecido no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP, em São Carlos (SP).

Quando o pedido de ajuda chegou à caixa de entrada do engenheiro de computação Luís Paulo Faina Garcia, pós-doutorando no instituto, ele acionou os colegas do Laboratório de Análise Massiva de Dados e o professor André de Carvalho, especialista em aprendizado de máquinas e mineração de dados.

“A intenção é tentar ajudar de alguma forma as famílias, os bombeiros, mesmo que não estejamos presentes lá”, afirma o pesquisador Luís Paulo Faina Garcia.

Para isso, eles alimentam um programa com a localização das vítimas antes e depois do acidente e treinam esse sistema para estimar a área em que os que permanecem desaparecidos podem estar.

Os dados são fornecidos pelo Ministério Público de Minas Gerais e englobam arquivos como mapas com a topografia anterior e posterior ao rompimento, informações sobre onde estavam os corpos já encontrados, a localização precisa dos prédios e as dimensões da mancha de inundação.

Eles são analisados, aplicados e começam a servir de base para os primeiros resultados.

Pesquisadores do laboratório do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP fazem parte de grupo de cientistas que estudam formas de localizar vítimas do desastre / Imagem: Reinaldo Mizutani/ICMC-USP

“O trabalho com inteligência de máquina requer dados, mas os dados de Brumadinho demoraram para ser liberados. Então, começamos fazendo simulações com dados artificiais”, Garcia.

Prevenção de terceira tragédia

Outra frente do grupo é a prevenção de novos acidentes envolvendo barragens. Nesse caso, a proposta é ajustar e aplicar técnicas já conhecidas.

“Quando vi a primeira reportagem sobre Brumadinho, me deu uma angústia muito grande, porque as técnicas que estamos pesquisando nas universidades poderiam ser utilizadas para evitar que esse tipo de tragédia acontecesse”, Neves.

“Seria possível, por exemplo, informatizar os sistemas e ligar os sensores a uma central, assim, poderíamos ter sistemas que avisassem da necessidade de evacuação das áreas e indicassem, pelos celulares, quais as rotas de fuga”, exemplifica.

Segundo a pesquisadora, também poderiam ser usados sistemas de alerta ligados à Defesa Civil ou ao Ministério Público. 

“Mariana não era para ter acontecido, Brumadinho também não. Nós não queremos de forma alguma que uma terceira tragédia aconteça”, diz.

Para ela, o Brasil possui profissionais com excelente formação que poderiam estar ajudando na resolução desses problemas.

“Muito tem se falado dos gastos com as universidades, mas elas não atuam apenas na formação de profissionais. Há os eixos da extensão e da pesquisa, e as pesquisas que estão sendo desenvolvidas poderiam ter sido aplicadas na prevenção. Não foram, e olha o que aconteceu”, critica Neves.

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