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13 de agosto de 2018, 10:37h

À Folha, Cédric Villani diz que a política precisa de cientistas

Cédric fez palestra sobre a idade estimada da Terra. Foto: Pablo Costa / ICM 2018

 

Reprodução da Folha de S. Paulo

Reportagem de Fernando Tadeu Moraes

Dentre as várias estrelas da pesquisa matemática que se reuniram no Rio durante o 28º Congresso Internacional de Matemáticos (ICM), nenhuma é tão popular como o francês Cédric Villani.

Agraciado em 2010 com a Medalha Fields, popularmente conhecida como o “Nobel da matemática”, Villani também se destaca por seu estilo peculiar: traja ternos bem cortados, acompanhados de colete e um lenço de seda no lugar da gravata, carrega um relógio de bolso e usa vistosas abotoaduras nos pulsos. Cravado na lapela, leva sempre um grande broche de aranha.

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A coleção de prestigiosos  prêmios acadêmicos, a indumentária original e a disposição para divulgar a matemática para o grande público fizeram dele uma espécie de astro pop da disciplina. 

Nos corredores do ICM-2018, evento mais importante da matemática, que pela primeira vez foi organizado num país do hemisfério Sul, Villani era frequentemente parado para tirar fotos, dar autógrafos ou simplesmente ser cumprimentado.

“Ganhar a medalha mudou tudo na minha vida”, disse ele à Folha. “Desde então, assumi a tarefa de transmitir a matemática para públicos maiores, escrevi livros, dei palestras por todo o mundo e me tornei uma figura pública, que as pessoas reconhecem.”

Outra consequência da popularidade adquirida após receber a láurea mais prestigiosa na matemática foi a entrada na política. No ano passado, Villani se elegeu deputado pelo La République En Marche!, partido do presidente da França, Emmanuel Macron.

Não foi fácil começar a nova aventura, admite o matemático. “Cientistas não são preparados para a política. É um ambiente violento, cheio de mentiras e fofocas. A visibilidade, além disso, faz de você um alvo. Todo dia vem alguém te insultar nas redes sociais.”

Apesar disso, o pesquisador afirma estar convencido de que “a política precisa de cientistas, seja para trazer a ciência para dentro das discussões técnicas, como as que envolvem o combate ao aquecimento global e a preservação do meio ambiente, seja para ajudar na comunicação entre esses dois campos”.

Em pouco mais de um ano dentro do Parlamento francês, Villani se envolveu na preparação de um relatório com propostas para reformar o ensino de matemática nas escolas públicas francesas e elaborou os alicerces de uma nova estratégia de seu país no campo da inteligência artificial.

A política consome hoje todo o seu tempo. “Tive de deixar a pesquisa de lado. No máximo consigo dar algumas aulas.” O matemático mantém seu vínculo com a Universidade de Lyon, embora não tenha obrigações nem receba salário. “Ainda a frequento quando preciso discutir algum assunto ou dar uma palestra.”

Trata-se de uma mudança drástica para alguém cuja vida sempre esteve intimamente relacionada à matemática. 

“Ela tem estado comigo há tanto tempo que é como se tivesse nascido dentro de mim, não algo que eu tenha descoberto algum dia”, assevera.

Tamanha proximidade se reflete na linguagem arrebatada que ele utiliza para se referir à disciplina. “Na adolescência, a geometria clássica foi o meu grande amor. No início dos meus estudos superiores,  me apaixonei pela álgebra.”

Acabou se dedicando às equações diferenciais parciais. Uma das facetas de seu trabalho é aplicar esse ramo da matemática a questões da física, como a que busca entender o comportamento dos gases.
Em 2012, escreveu o livro  “Théorème Vivant”, já traduzido para 15 línguas (o português não está entre elas).

“No livro, busquei descrever de um modo impressionista, do ponto de vista do coração, como é chegar a uma descoberta matemática importante. Trata-se de uma nova maneira de comunicar matemática, deixando de lado toda a parte técnica e se concentrando na emoção e na aventura de trabalhar com matemática.”

No universo particular de Villani, os grandes teoremas da matemática ocupam um lugar especial. “Eles são realmente obras de arte.”

A única diferença, diz, entre eles e um quadro de Rafael, por exemplo, é que por mais que a interpretação de uma tela do mestre renascentista possa mudar, o trabalho permanece o mesmo, ao passo que os grandes teoremas vão mudando a forma como são apresentados ao longo da história. 

“O teorema da uniformização de Riemann [resultado central de uma área conhecida como análise complexa], desde que foi proposto, em meados do século 19, foi reescrito de diversas formas, estendido, combinado a outros, de maneira que quando o vemos hoje nos livros-texto ele está escrito de uma forma bastante diferente da original.”

“Ele ainda é uma grande obra de Riemann”, prossegue, “mas os detalhes mudaram com o tempo, com a contribuição de outros matemáticos, e aquilo se tornou um trabalho coletivo. É como se ao longo dos séculos outros artistas fossem introduzindo pinceladas no quadro de Rafael.”

O francês utiliza toda essa paixão quando se trata de levar a matemática para fora do ambiente acadêmico.

“Tento mostrar que a matemática não é apenas sobre resultados. As pessoas querem ouvir a história de uma aventura — e não só uma aventura científica, mas também uma aventura humana”, diz. 

De acordo com Villani, há essencialmente três modos de se contar as peripécias de sua disciplina. 

“Uma é por meio da aventura das pessoas que participaram delas, seu lado humano. Há também a aventura dos projetos, em que o foco são as questões que ainda faltam ser resolvidas. Por fim, existe  uma aventura das ideias, um percurso no qual vamos passando de um problema para o seguinte, mostrando como foram sendo superados.”

Em suas conferências para audiências mais amplas, diz, busca combinar essas três vertentes. No ICM-2018, o matemático deu uma palestra aberta ao público onde narrou a história de três séculos de tentativas de definir a idade correta da Terra.

“A ciência precisa de comunicação, e não somente a feita por escritores de ciência ou jornalistas. Os cientistas também têm um papel nisso, dividindo as suas descobertas e a sua experiência.”


DESTAQUES DO CONGRESSO

Crime (ainda) sem solução
Na abertura, a medalha Fields do curdo radicado no Reino Unido Caucher Birkar foi furtada; o congresso chegou ao fim na última quinta-feira (9) sem que os ladrões tenham sido presos

Prêmios além da Fields
Além da medalha Fields, o Congresso Internacional de Matemáticos distribui outras láureas importantes, como:
Prêmio Nevanlinna, para pesquisadores de até 40 anos com feitos nas ciências da informação;
Medalha Chern, para quem tenha contribuído com realizações extraordinárias na matemática;
Prêmio Gauss, dado a cientistas cujas pesquisas tiveram grande impacto na tecnologia e em negócios;
Prêmio Leelavati, que reconhece contribuições para aumentar a consciência pública da matemática

Bebês bem-vindos
Muitas mulheres levaram seus bebês para o ICM-2018. O evento se preparou para isso: havia uma área especial para elas cuidarem dos filhos

Total de participantes
O ICM-2018 teve 3.018 congressistas de 114 países. No total, mais de 10 mil pessoas passaram pelo evento 

Até a próxima
São Petersburgo, na Rússia, será a sede do próximo ICM, em 2022

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