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20 de agosto de 2019, 10:19h

Trajetória de Hubert Lacoin vai dos carros ao baralho

Especialista em teoria da probabilidade, Hubert Lacoin, pesquisador associado do IMPA, conta que sua vocação para a área científica foi descoberta tardiamente, já no período de ingresso na universidade na França, seu país natal. Inicialmente, conta ele, embora desde cedo apreciasse a Matemática, seu projeto profissional consistia na escolha de um ofício que o habilitasse a trabalhar na indústria automobilística.

Lacoin nasceu em Harfleur, cidade na Normandia, região noroeste francesa. A família formada por pai, mãe e cinco filhos (três meninos e duas meninas) mudou-se para Bordeaux (sudoeste da França), onde ele cresceu.

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“Eu sempre gostei de Matemática, mas o que queria fazer era conceber automóveis… A ‘vocação’ para a pesquisa realmente chegou com a entrada na universidade”, recorda.

A ciência em geral e a pesquisa “tinham uma certa aura de prestígio” na França à época em que Lacoin, que hoje tem 34 anos, começou a planejar os rumos da vida adulta. 

“Acho que isso me influenciou e está na origem do meu gosto pela Matemática. A escolha de carreira foi feita quando comecei a ter atividade de pesquisa no estágio de mestrado. Então, soube que era capaz de descobrir novos resultados e que gostava de fazer isso”, disse.

Antes da constatação, acrescenta o pesquisador, considerava a carreira acadêmica só “como uma possibilidade”.  Havia outras. “Não excluía fazer algo diferente.”

Lacoin conta que, ainda hoje, os cientistas que o acompanharam “nestes primeiros passos na pesquisa matemática” exercem uma “influência decisiva” sobre suas atividades.

“São eles os orientadores de doutorado, de estágio, de mestrado. Foram os meus primeiros colaboradores.”

O pesquisador do IMPA concluiu a graduação, o mestrado e o doutorado inteiramente na França. A graduação em Matemática aconteceu na École Normale Supérieure, em Paris. O mestrado, na Universidade Paris Sud-Orsay. O doutorado, em 2009, na Universidade Paris VII-Denis Diderot. Durante o período acadêmico, fez intercâmbios e estágios no exterior, com destaques para períodos na Índia e na Inglaterra.

O curso de pós-doutorado foi feito em Roma (Itália). Ao voltar à França, trabalhou quatro anos como pesquisador do CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique), a que reputa como uma espécie de “CNPq [o brasileiro Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico] francês”. O CNRS é a maior instituição governamental de ciências da França e uma das mais prestigiadas organizações de pesquisa científica mundial.

Para Lacoin, que ingressou no IMPA em outubro de 2014, após concorrer em processo de seleção com cem candidatos, dos quais 83 estrangeiros, as “condições de trabalho” oferecidas pelo instituto sediado no Rio de Janeiro são “excepcionais”.

Ele cita como aspectos fundamentais desta avaliação o fato de o IMPA proporcionar a vinda de colegas colaboradores do exterior, a organização de eventos de envergadura internacional e a carga de ensino compatível com as atividades dos pesquisadores. 

A seleção da qual Lacoin participou escolheu ainda o alemão Oliver Lorscheid, também pesquisador associado do IMPA e especialista em álgebra.

Empenhado nos estudos sobre a teoria da probabilidade, com ênfase em problemas físicos, Lacoin revela que o tempo de mistura é o tema a que tem se dedicado.

O especialista explica o trabalho desenvolvido: “Podemos começar com a pergunta: ‘Quantos embaralhamentos são necessários para misturar um baralho de cartas?’ Para responder, é preciso ter uma definição matemática dos vários termos, em particular uma definição de ‘misturado’ e uma modelização de como se faz o embaralhamento”.

O pesquisador revela que matemáticos já comprovaram o resultado que confirma a prática dos cassinos espalhados pelo mundo. Para um baralho de 52 cartas, sete embaralhamentos é o suficiente.

“Este tema tem aplicações em Física, pois a teoria ajuda a entender quanto tempo um sistema físico precisa para achar o seu estado de equilíbrio”, explica.

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