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31 de julho de 2019, 18:41h

Pesquisador Douglas Arnold critica Fator de Impacto

Métrica usada em todo o mundo para avaliar as publicações científicas, o Fator de Impacto tem, entre seus críticos, o matemático americano Douglas Arnold. No Brasil para dar palestra no 32º Colóquio Brasileiro de Matemática (CBM), o pesquisador, após a apresentação, alertou para as falhas na consagrada medida de qualidade dos periódicos e defendeu novos métodos de avaliação.

“É possível aumentar o Fator de Impacto de uma publicação sem que a qualidade dela aumente. E isso, de fato, acontece. Mas não diria que a correlação entre Fator de Impacto e qualidade é inexistente”, disse o professor da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, referindo-se à manipulação dos dados.

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Entre as deficiências, na entrevista à Comunicação do IMPA, Arnold destacou o próprio cálculo do Fator de Impacto, que considera as citações dos primeiros dois anos após publicação. Segundo ele, algo particularmente “grave” na Matemática, área na qual cerca de 90% das citações ocorrem após este período, como destacou em artigo publicado na American Mathematical Society (AMS), em 2011.

O especialista explicou como se chega ao Fator de Impacto de um periódico no ano atual, 2019. “Você conta o número de citações recebidas pelos papers publicados no periódico em 2018 e 2017 e divide pelo número de papers publicados no período. Mas é ridículo considerar apenas os dois primeiros anos. Em Matemática, por exemplo. A minha tese, que tem milhares de citações, não aparece com citação alguma nos últimos dez anos. Levou um tempo para as pessoas perceberem esses problemas”, disse.

Qual, então, a melhor forma de avaliar as publicações científicas, consideradas as falhas do Fator de Impacto? Arnold reconhece que medir a qualidade dos periódicos não é algo fácil, mas já propôs à International Mathematical Union (IMU) que crie outra metodologia.

“Seria maravilhoso se houvesse uma forma simples de avaliar pessoas, artigos, publicações. Pense no Facebook, se o número de ‘likes’ fosse suficiente para saber se uma pessoa é boa ou má. Mas a vida não é tão simples assim. Penso que o que poderia funcionar melhor seria considerar a opinião de especialistas no assunto, por exemplo”, disse, contando que tentou que a IMU criasse um comitê para classificar as publicações em categorias. “Eles não toparam. Uma boa razão para isso seria receio de processo. Algo provável”, considerou.

No 32º CBM, Arnold proferiu a palestra plenária “Computational Math Meets Geometry”, na qual uniu duas áreas da Matemática distantes apenas na aparência. Durante a apresentação, citou o exemplo ocorrido ao longo da última década, quando a topologia e a geometria passaram a ter papel fundamental em análise númerica, a partir da discretização das equações diferenciais. Com isso, ao invés de aplicar algoritmos de uso geral, resultados muito melhores podem ser obtidos para vários tipos de problemas construindo métodos de discretização que preservam as principais estruturas geométricas subjacentes às equações sob consideração.

Após a palestra, o pesquisador lembrou que esteve no Brasil há quase 30 anos, para dar um workshop em Copacabana. Na ocasião, aproveitou um tempo livre para conhecer uma das praias mais famosas do mundo. Não deu para ir ao Corcovado. Por isso, nem piscou ao receber convite de Alexandre Madureira, pesquisador do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), seu orientando de doutorado há muitos anos, nos Estados Unidos. “Vamos ao Corcovado?” “Yes!”, respondeu prontamente.

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