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30 de janeiro de 2020, 10:50h

As histórias de verão no IMPA de Fernando Lenarduzzi

Luiza Barata

Fernando Lenarduzzi coleciona histórias de Verão do IMPA. “A primeira vez que estive aqui foi em 2009, para apresentar um pôster em um colóquio. Fiquei deslumbrado! Nunca tinha vindo ao Rio de Janeiro e não quis conhecer mais nada da cidade. Fiquei o tempo todo no IMPA”, conta o matemático nascido em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. Depois de todo o encanto, o verão do ano seguinte já tinha destino certo: voltou ao instituto para cursar análise real com o professor Carlos Gustavo Moreira, o Gugu. 

Na estação mais quente de 2011, Lenarduzzi também esteve no IMPA para fazer duas disciplinas, grupos fundamentais, com Henrique Bursztyn, e análise vetorial, com Paulo Sad. “Só que bateu uma certa insegurança… Então, preferi cursar só uma matéria. Esperei passar pela primeira avaliação para ver qual iria cancelar. Achei que tinha ido melhor na do Bursztyn, então tranquei a outra. Na hora do resultado, recebi nota 8 na que havia trancado e 4 na que iria continuar. Não teve jeito, tive que correr atrás do prejuízo!”, diverte-se. 

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Funcionou: há oito verões e sete outonos, invernos e primaveras o matemático não sai do IMPA. Depois de concluir o doutorado, em 2016, orientado por Enrique Pujals, cursa agora o pós-doutorado sob a supervisão de Jacob Palis. Durante o primeiro semestre de 2019, ministrou a disciplina “Dinâmica Hiperbólica” junto ao diretor-geral do IMPA, Marcelo Viana. “Pesquiso sobre Sistemas Dinâmicos e Teoria Ergódica. Tenho três objetos de pesquisa que são de tipos de dinâmicas diferentes. As perguntas servem para os três, mas com objetivos e ferramentas diferentes.” 

“A motivação do primeiro deles é um problema famoso em matemática, que tem a origem no problema de três corpos restrito. Isso tem a ver com várias coisas, como a estabilidade do sistema solar, por exemplo. É uma pesquisa sobre a teoria ergódica infinita. Em paralelo, com Jacob Palis e com Gugu, analisamos um problema específico. Ainda está em estágio bastante inicial e tem a ver com uma pergunta que o Jacob fez em 1999 sobre densidade de finitude de atrator. Estas perguntas se ramificam e juntam o trabalho que tenho desenvolvido com o Vitor Alves, aluno do IMPA. O terceiro objeto de pesquisa trabalho com Régis Varão, professor da Unicamp, Pujals e outros quatro pesquisadores. Nós relaxamos tópicos da dinâmica clássica e encontramos teoremas sobre os quais vamos trabalhar o conceito de hiperbolicidade”, enumera.

O interesse de Lenarduzzi pela matemática começou na época da escola e alguns professores foram fundamentais na escolha da carreira. “Os professores Jeferson e Rita são irmãos. Um me acompanhou durante o colégio e o outro já na faculdade, e foram muito importantes para minha escolha profissional. Sempre gostei de estudar sobre evolução. Pensava em ser biólogo, mas odiaria a ideia de ficar no meio do mato, com lama até os joelhos. Aqui no IMPA, estou rodeado de mato, mas em um nível seguro”, brinca. 

A parceria com outro docente do colégio também marcou Lenarduzzi. “Ao longo da vida, raramente temos a oportunidade de retribuir a um professor. Mas assim que entrei para a graduação, na Universidade Estadual Paulista (Unesp), o professor Luciano veio me pedir uma ajuda com um problema matemático. Ele tinha acabado de começar o Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional (Profmat).” Lenarduzzi topou na hora. “Toda a matemática básica que aprendi foi ensinada por ele e pela professora Rita. Então, foi uma oportunidade de devolver um pouquinho.” 

Ao contrário de muitos calouros, Lenarduzzi logo se identificou com o curso escolhido no vestibular. “Na primeira aula de cálculo, já queria fazer matemática aplicada. Isto mudou quando a professora à época, Juliana Precioso, mostrou que a raiz de dois é irracional, fiquei completamente sem reação. Aquilo explodiu a minha cabeça e só pensei ‘é isso que quero fazer pelo resto da minha vida’”. 

No dia do aniversário do pai, em 11 de setembro de 2012, veio a defesa da tese de mestrado e, logo em seguida, a mudança em definitivo para o Rio de Janeiro. O matemático é categórico ao pontuar as diferenças entre as duas cidades. “Não sou exatamente a ‘cara do Rio’, não sou muito de ir à praia, essa coisa toda que as pessoas esperam ouvir quando você diz que está em terras cariocas. Mas gosto de participar de festivais de rua, cinema, shows. Ouço de jazz a progressivo e não encontraria essa diversidade musical toda no interior de São Paulo.” 

Além de matemático, Lenarduzzi também é apaixonado por videogames, ficção científica e tem o russo Isaac Asimov como ídolo. “Minha frase favorita dele é ‘uma das coisas que mais me assustam na humanidade é que nós agregamos conhecimento mais rápido do que agregamos sabedoria.” No tempo livre, também gosta de praticar jiu-jitsu e diz “não ligar muito para viagens”. 

“Tem uma galera na pesquisa que tem passaporte praticamente de diplomata! Meu sonho era conhecer Nova Iorque, era a única cidade que realmente fazia questão de estar pelo menos uma vez na vida, o que pude fazer a convite do meu então orientador, Pujals. Dei uma palestra por lá.” Para Lenarduzzi, o que realmente conta são as pessoas e os contatos que se faz dentro do campo acadêmico. “Nos grandes centros de pesquisa, durante os congressos, você tem a oportunidade de ver e conversar com pesquisadores que fazem a diferença.”  

Para ele, dos marcos da carreira até agora, foi justamente um desses encontros. “O Robert Devaney, importante matemático americano, veio ao IMPA enquanto eu estava pesquisando sobre um problema que ele deixou aberto na década de 1980. Não resolvi o problema, troquei a pergunta – o que já foi um passo importante”, ri. “Pudemos conversar e ele foi muito acessível. Isso é frequentemente comum na nossa área e é algo que realmente admiro. As nossas celebridades são diferentes!”

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