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24 de setembro de 2019, 10:30h

‘Na Matemática, é preciso ter persistência’, diz Carolina Araújo

Karine Rodrigues

Quando entrou pela primeira vez no salão de leitura da biblioteca do IMPA, Carolina Araujo estava mergulhada em progressões aritméticas, análises combinatórias e outros conteúdos típicos do Ensino Médio. Na época, ainda na educação básica, percebia o pendor para a ciência e acumulava horas de brincadeira como professora, mas não imaginava que, anos depois, integraria o corpo científico do instituto. 

Carolina ouviu falar sobre o IMPA quando estudava no Colégio Andrews, nas aulas do professor de matemática Arnaldo Struzberg. Ele tornava os desafios, literalmente, mais doces: toda sexta-feira alguém se encarregava de levar bolo de chocolate para a aula, distribuído para toda a turma, mas franqueado em porções mais generosas aos que acertavam os exercícios. Naquele tempo, ainda não existia a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP).

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“Foi um professor incrível. Engajava a turma, mostrava um lado um pouco mais aprofundado da matemática”, recorda Carolina, que nunca gostou de bolo de chocolate, mas ficou viciada nos desafios. “Nas aulas dele, aprendi sobre lógica, dedução, sobre a intuição ser o primeiro passo para um mecanismo mais formal de demonstração”, conta, sobre o mestre que diz ter sido determinante na escolha da matemática.

Primogênita de um casal de engenheiros, com uma irmã e um irmão, carioca criada em Copacabana, Carolina passou para matemática na PUC-Rio. Fez a graduação com bolsa integral e, já no primeiro ano, passou a ser orientada de iniciação científica por Ricardo Sá Earp. Pesquisador de geometria diferencial, ele percebeu que a estudante gostava muito de álgebra e, segundo ela, sugeriu: “Por que você não dá uma olhada em geometria algébrica? Acho que você vai encontrar ali um caminho interessante.” 

Ele tinha razão, mas Carolina levou um tempo para se decidir. Encantou-se com lógica matemática durante um período de estudos nos Estados Unidos, parceria da PUC-Rio com a Universidade Berkeley. Fez três cursos sobre o assunto, um deles de doutorado, e ficou dividida entre seguir geometria algébrica ou lógica. 

Durante a temporada fora, mais uma vez, Sá Earp foi essencial ao indicá-la para David Hoffman, então do Mathematical Sciences Research Institute (MSRI). Uma vez por semana, ia ao renomado centro de pesquisa em Berkeley e, durante uma hora, conversava sobre superfícies mínimas com o pesquisador.

Ao retornar ao Brasil, Carolina estava endividada, por conta dos custos da temporada no exterior. Dava aula particular de matemática e monitoria na PUC Rio, mas precisava ainda completar os ganhos. Vivenciou, então, um episódio que descreve como curioso: por seis meses, estagiou durante em um banco de investimentos, na parte de backup. A experiência não deixou saudade.

A decisão pela geometria algébrica veio com as palestras do húngaro János Kóllar. “Ele é um expositor incrível. A maneira como ele vê a matemática, um olhar singular. Expõe as ideias de forma muito elegante. Tudo isso me inspirou muito”, diz Carolina, sobre seu orientador, um dos expoentes mundiais na área, durante o doutorado em Princeton.

Sobre a sua área de estudo, a pesquisadora gosta de citar uma frase do matemático britânico de origem libanesa Michael Atiyah (1929-2019).

“Ele dizia que perguntar se você deve ser um geômetra ou um algebrista é como perguntar se você prefere ser cego ou surdo. São dois sentidos diferentes, ambos necessários para ter uma melhor percepção do mundo”, explica a pesquisadora.

A geometria algébrica é a área da matemática que estuda objetos geométricos definidos por equações polinomiais (álgebra). Como essas equações são as mais simples com que matemáticos e cientistas trabalham, é muito comum encontrá-las em modelos que representam diversos fenômenos no mundo em que vivemos. “Elas têm muitas aplicações em diversas áreas das ciências e dentro da matemática também”, observa ela, explicando que é uma área muito ampla, com várias linhas e direções.

Carolina, no caso, conta que é guiada por uma intuição geométrica e domina as ferramentas algébricas para poder entender o fenômeno geométrico. “A álgebra é uma ferramenta poderosa para o estudo de objetos geométricos, resultado de uma abstração engenhosa. Às vezes é preciso de um tempo para absorvê-la e manipulá-la com traquejo”, explica, considerando que o ser humano tem o dom de criar estruturas e abstrações que vão ajudá-lo a perceber, entender e modelar o mundo. 

Em sua trajetória, que rendeu honrarias, como o Liftoff Fellow, do Clay Mathematics Institute (2004), o Prêmio L’Oréal para Mulheres na Ciência (2008), e o ICTP Simons Associateship (2015-2020), Carolina diz usar muito a intuição. 

Foi assim, de certa forma, que deu início à parceria com Stéphane Druel, em um momento que considera um dos mais importantes de sua carreira. Na época, de volta ao Brasil havia pouco tempo, após o doutorado, foi convidada para uma palestra na Coreia. O mote da conferência: projetos em andamento. Após 41 horas de viagem, observou que os conferencistas estavam falando sobre trabalhos já concluídos. 

“Havia entendido tudo errado, e a palestra seria no dia seguinte. Resolvi ir adiante com o que já havia preparado. Falei sobre a conjectura em que estava trabalhando, disse o que sabia fazer e o que não sabia e, ao fim da apresentação, uma surpresa: o Stéphane Druel veio conversar comigo e falou: ‘eu sei fazer essa parte que você não sabe e eu não sabia fazer a parte que você sabe’ ”, relatou, sobre o seu principal colaborador. Em mais de dez anos, foram seis artigos escritos em parceria. “Foi um risco que eu assumi, mas ouço muito a minha intuição.”

Naquela momento, Carolina já estava no IMPA. Ao retornar para o Brasil, após o doutorado em Princeton, o endereço Estrada Dona Castorina, 110, no Jardim Botânico, parecia um destino natural, após anos de aproximação. Mesmo durante a temporada nos Estados Unidos, nas férias de verão participava dos eventos acadêmicos na instituição, onde fez pós-doc logo ao chegar, em 2004. Dois anos depois, tornou-se pesquisadora titular.

Nos últimos três anos, às atividades como pesquisadora Carolina somou os cuidados com o filho, Iago, divididos com o companheiro, Sérgio, e atividades relacionadas à discussão de gênero na matemática, área com baixa representatividade feminina. Integrou o comitê organizador World Meeting for Women in Mathematics (WM)², evento satélite do Congresso Internacional de Matemáticos (ICM, na sigla em inglês), realizado no Rio de Janeiro em 2018 – ela foi uma das palestrantes convidadas, aliás. 

A rede que se formou para tocar a iniciativa se fortaleceu desde então, a ponto de um grupo realizar, em julho, o primeiro Encontro Brasileiro de Mulheres Matemáticas, no IMPA. Carolina coordenou a comissão organizadora.

“Não tenho formação em questões de gênero. Sou branca, tive o privilégio de ter sido criada em uma família de classe média alta, com pais engenheiros, ir para um bom colégio, uma boa universidade, não precisei trabalhar em boa parte da minha graduação e tive sorte de ter professores que me incentivaram e valorizavam. Tive que conversar com muitas mulheres, menos privilegiadas, para começar a entender como funcionam os mecanismos discriminatórios. O ponto de vista tem que sair do lugar do privilégio para que se possa enxergar algumas questões.”

Com a repercussão do Encontro no IMPA, o próximo já começa a se desenhar. A ideia é torná-lo itinerante e sediar a nova edição no Nordeste, região com bastante representada nas atividades científicas e debates realizados em julho. Defensora do conceito de liderança alternada, desta vez Carolina deve ocupar o lugar um lugar de menos exposição:

“Por ter organizado o (WM)², por estar no IMPA, senti que naquele momento poderia contribuir com essa liderança temporária. Apesar de estar ali, foi uma organização muito horizontal e muito participativa.”

O Encontro Brasileiro de Mulheres Matemáticas foi realizado entre duas temporadas do sabático que ela resolver tirar este ano após uma década sem se afastar do Impa por longos períodos. Passou os primeiros quatro meses do ano no MSRI, na Califórnia, onde deu os primeiros passos, ainda na graduação, e fez pós-doc em 2009. 

“Foi muito importante porque eles estavam com um programa exatamente na minha área. Pude experimentar o desenvolvimento do que está acontecendo na fronteira do conhecimento na minha área, enriquecer a minha visão de geometria algébrica, para onde ela está indo, quais são os problemas importantes, onde a minha pesquisa se insere ali”, diz ela.

Agora, está no International Centre for Theoretical Physics (ICTP), em Trieste, na Itália. Após um período de intensa troca e euforia para acompanhar tudo o que estava acontecendo em Berkeley, é hora de se aprofundar nas idéias que surgiram na primeira etapa do sabático. Depois da discussão e troca de ideias, chegou “o momento do mergulho”. 

A matemática não é para ser fácil, não é para ser rápida. A paciência e a persistência são qualidades muito preciosas para a matemática. Na verdade, para a vida. Mas na matemática, se você não tiver paciência, persistência, você cai”, avalia.

Paciente e persistente, Carolina partiu no fim de agosto para Trieste. Iago, o filho de três anos seguiu depois. “Expliquei para ele que eu viajaria primeiro e, 14 dias depois, ele iria encontrar comigo. Ele olhou para as mãozinhas, começou a contar e disse: mamãe, Iago não tem 14 dedinhos.” São os primeiros passos de um raciocínio que ele terá o privilégio de desenvolver com quem já sabe quão longe a matemática pode nos levar.

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