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23 de dezembro de 2019, 11:30h

Medalhista do Acre é primeira da família a entrar na universidade

Andressa e a mãe, Marilda

Primogênita dos Maciel Lima, de Cruzeiro do Sul, no interior do Acre, Andressa, 19 anos, dá uma resposta incomum ao ser perguntada sobre o momento mais memorável vivenciado com a OBMEP (Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas). Inesquecível, segundo ela, não foi a primeira, mas a última participação na competição.

“Foi como uma despedida para mim. Saber que era a última vez que eu estaria recebendo aquele prêmio, que a partir daquele momento já não faria mais aquela prova de todos os anos e não teria mais a satisfação de participar de algo que impulsionou a minha vida acadêmica por sete anos, me deixava muito triste. Não consegui conter as lágrimas”, conta a universitária.

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Andressa diz se sentir muito grata pela chance de ter participado da competição, oportunidade que ela aproveitou muito bem. Em todas as vezes em que fez a OBMEP, foi premiada por seu desempenho. Estreou aos 11 anos, no 6º ano do Ensino Fundamental, na Escola São José. Até concluir o Ensino Médio, cursado da Escola Dom Henrique Ruth, foram duas menções honrosas, quatro medalhas de bronze e uma de prata.

Ao ingressar na Universidade Federal do Acre (AC), Andressa acrescentou à história da família um capítulo inédito. O pai, Iraldo, interrompeu os estudos no Ensino Fundamental; e a mãe, Marilda, nem chegou a ser alfabetizada.

“Ela sempre gostou de matemática, mas a OBMEP foi um incentivo. Não fosse a olimpíada, infelizmente, o sonho dela de entrar na universidade teria sido interrompido. Não temos condições de pagar estudo”, enfatiza Iraldo, pai também de dois meninos, Anderson e Alderlan. O recurso para manter a família vem do trabalho como autônomo. Trabalha com frete e aluguel de brinquedos para festa infantil. “Não tenho uma renda fixa. São bicos”.

Assim como o pai, Andressa, atualmente no quarto semestre de Engenharia Civil, avalia que a olimpíada foi um fermento no interesse pela matemática. “Sempre foi apaixonada pela matéria, era algo que fazia por prazer, mas com o passar do tempo essa paixão só foi aumentando. Novos desafios, fórmulas, técnicas, descobertas. Tudo isso tornava interessante o ato de aprender.”

Por ter conquistado medalha da OBMEP, ela garantiu bolsa no Programa de Programa de Iniciação Científica (PIC Jr.). A oportunidade, segundo ela, foi fundamental para aprofundar os estudos nas disciplinas relacionadas à área de Exatas. “As aulas presenciais e virtuais contam com professores qualificados que nos motivam a seguir nossa paixão pela matemática, valorizando e reconhecendo nosso desempenho”, avalia.

Ao escolher Engenharia Civil, um curso que não é ofertado em Cruzeiro do Sul, Andressa já sabia da dificuldade que teria de enfrentar ao ser aprovada na UFAC. Teria de deixar a cidade natal, que fica a cerca de 10 horas de distância, de carro, de Rio Branco, capital do Acre.

Andressa na premiação regional da OBMEP 2013

Graças a sua trajetória, conseguiu uma bolsa Instituto TIM – OBMEP, uma parceria criada para apoiar financeiramente jovens talentosos recém-ingressos na universidade. As bolsas são ofertadas aos medalhistas da olimpíada que ingressaram em instituições públicas, em dez áreas do saber, entre eles, Engenharia.

A experiência na Universidade Federal do Acre ela descreve como “completamente diferente e incrível”. Apesar da rotina cansativa, Andressa já sabe que quer seguir carreira acadêmica.

Potencial ela tem, atesta José Ivan da Silva Ramos, professor titular da graduação e pós-graduação em Matemática da UFCA. Como coordenador regional da OBMEP, ele testemunhou o crescimento da estudante ao longo dos anos.

“Lembro bem da Andressa recebendo a medalha da olimpíada”, conta, sobre as cerimônias de premiação regionais realizadas no interior do Acre. “O projeto faz diferença. Transforma tudo.”

Por ser coordenador do PIC Jr., Ramos nunca perdeu o contato com Andressa, que acabou se tornando sua aluna na disciplina de Álgebra. Ele também é seu orientador na Bolsa TIM.

“Andressa é uma profissional. Ela vive praticamente dentro da universidade”, observa o professor, explicando que ela acabou de ingressar, como voluntária, de um projeto de pesquisa que pode tornar a vida de crianças e adolescentes do bairro Preventório mais divertida.

A parte prática do estudo prevê a construção de uma cobertura para uma área de lazer de educandário que acolhe crianças e adolescentes sob medida de proteção. Para isso, o grupo vai usar madeira apreendida na região e doada para a UFAC.

“A matemática me ensinou bem mais do que operações e contas. Ela me permitiu sonhar e acreditar no meu potencial. Ela me ensinou a importância do conhecimento e o quanto o mundo está aberto a novas possibilidades. Ela foi um instrumento de grande relevância no meu crescimento tanto pessoal, quanto acadêmico. Sou imensamente grata à OBMEP por tudo que conquistei até aqui e por ter me incentivado a continuar a seguir meus sonhos.”

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