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19 de dezembro de 2019, 10:49h

O balanço matemático das ondas de Felipe Linares

Luiza Barata

Matematicamente falando, Felipe Linares vê a movimentação da água do mar como objeto de estudo. “Quando você vai à praia, pode observar as ondas que chegam até a areia. De alguma maneira, elas vão se desfazendo… isso são ondas dispersivas e o que estamos interessados em saber é em como essas ondas se propagam, por exemplo. Queremos entender como elas se comportam depois de um certo tempo e como elas se originam.” 

O campo de estudos do matemático desemboca em rios do Norte do Brasil, onde o fenômeno da pororoca acontece. “Dependendo da maré de um rio, ele permite ou não que o outro permeie seu curso, daí se formam as pororocas, que examinamos por meio de equações matemáticas, mas inspirados por modelos físicos.” De maneira geral, a pesquisa está ligada à teoria de ondas e à ótica. 

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Pessoalmente, o pesquisador prefere mergulhar em ondas bem mais tranquilas. “Gosto de nadar, mas só em piscina… e só comecei a praticar depois de adulto”, confessa o venezuelano que está no IMPA desde 1993 e sabe de cor a nacionalidade dos alunos que orienta. “Acompanho estudantes do Nepal, França, Cuba, Colômbia, Equador e Irã, além de brasileiros. Somos um grupo realmente internacional”, frisa. “Nós fazemos um trabalho aqui no Brasil muito importante.”  

Felipe nasceu em Escuque, na Venezuela, onde viveu com os pais e os irmãos. “É um município muito pequeno, que não passa de dez mil habitantes. Brincamos que, quando chegamos a dez mil e uma pessoas, essa ‘uma’ deixa a cidade.” Foi no município que o matemático estudou até o final do Ensino Médio. “Como éramos sete filhos, acho que foi um alívio quando sai de casa”, brinca. 

Para fazer a graduação no início dos anos 1980, Felipe se mudou para a capital Caracas para estudar na Universidade Central da Venezuela. “Cheguei a pensar em fazer física porque um professor da época da escola havia me desencorajado a seguir a carreira  matemática.” Depois de contrariar tal conselho, ele resolveu acatar uma sugestão de outro professor, desta vez da universidade.“Ele me sugeriu estudar na Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, e fui. Até então, só conhecia países vizinhos à Venezuela.”

Aos chegar nos Estados Unidos, passou a primeira semana em Nova Iorque e, só em seguida, instalou-se na Pensilvânia. “O principal choque foi a queda de temperaturas. Cheguei em junho e em setembro já era o período do inverno. Você pergunta para as pessoas se é frio, e elas riem de você, pensando ‘coitado, não sabe o que vem pela frente’”, diverte-se. 

O pesquisador havia se mudado para os Estados Unidos sem prazo para voltar à Venezuela. Foi durante a pós-graduação que fez importante laço acadêmico com o orientador Gustavo Ponce, mas foi pego de surpresa com a crise. “No começo dos anos de 1990, o mercado para matemáticos nos EUA estava muito ruim. Em Louisiana, cheguei a ocupar um cargo de professor assistente, mas houve uma onda de cortes e cinco vagas foram suspensas. A minha era uma delas. Precisei ir em busca de um novo emprego e apliquei para todos os lados. Fiz várias entrevistas, mas nada dava certo.” 

Foi quando uma amiga brasileira, que tinha conhecido na Pensilvânia, falou sobre o IMPA. Felipe se inscreveu e foi aprovado na vaga de pesquisador associado do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) em 1993. “Quando cheguei ao Rio, não havia a Linha Vermelha. Lembro de passar pela Avenida Brasil e me coloquei em dúvida se havia feito a escolha certa. Atravessei o Rebouças, cheguei à Lagoa e já gostei mais do que vi. Quando cheguei, finalmente, ao IMPA, estava mais confiante sobre a vinda para a cidade.” 

Três anos depois, Felipe foi aprovado em uma vaga na Universidade Estadual de Campinas, mas não viajou até São Paulo. “Escolhi ficar como visitante no IMPA até a abertura de novos concursos.” O matemático lembra que à época, somente brasileiros podiam concorrer a cargos públicos, o que trouxe problemas para pessoas que já estavam instaladas no país. “Ou a pessoa se naturalizava ou acabava ficando na ilegalidade. Só fui fazer o concurso em 1999, quando já não existia mais esta lei.”

Mesmo sem a legislação em vigor, Felipe precisou ir ao Itamaraty para fazer o registro de vários documentos. “Nos meus papéis constava o título de ‘pesquisador excepcional’, o que chamou a atenção até dos funcionários de lá, que me perguntavam ‘mas o que é excepcional?’ Nem eu mesmo sabia explicar”, relembra. 

Para ele, a espera burocrática valeu a pena porque se sentia no “paraíso quando estava no IMPA”. Apesar de ter passado alguns períodos na Universidade de Universidade de Paris-Sud, na Universidade do Chile e na Universidade de Oklahoma, Felipe considera que a única diferença entre os cenários é a questão da tradição e investimento na pesquisa. “Na França, há conferências de três meses, onde pessoas incríveis se reúnem em escolas matemáticas que têm anos de tradição. Você fica perto dessas pessoas e fica encantado.” 

Desde 2018, o pesquisador passou a fazer parte da Academia Brasileira de Ciência (ABC), título acadêmico que considera uma motivação extra para realizar o trabalho em prol das novas gerações de matemáticos. As equações diferenciais parciais com que trabalha já renderam a Felipe um livro, que guarda na sala onde trabalha. 

“Pude escrever o livro ‘Introdução às Equações Não-Lineares’ junto ao professor Gustavo Ponce. A nossa ideia foi fazer uma parte básica, que são os três primeiros capítulos. Depois, fazemos alguns exercícios e, ao final, comentários sobre o percurso da pesquisa para tentar convidar a pessoa a estudar o tema.” 

A publicação teve origem com uma nota publicada por Gustavo, que foi se expandindo ao longo dos anos. “A ideia começou quando ele era estudante de doutorado, depois, aqui no Brasil, ele usou algumas notas de estudo e nós começamos a aprofundar os temas. Em 2002, quando fiquei em Santa Bárbara, nos Estados Unidos, decidimos escrever o livro. A primeira edição saiu pelo IMPA com 100 exemplares.” Em seguida, o conteúdo do livro foi enviado para a editora norte-americana, Springer, que também fez a publicação. “Foi um trabalho que fizemos com muito carinho”. 

Ao lado da estante onde ficam as três edições dos livros e uma infinidade de outros volumes, Felipe tem a foto do filho Emanuel, de 11 anos, fruto do casamento com a brasileira Rosa. “Gosto muito de caminhar. Então, no tempo livre que temos, vamos juntos ao Jardim Botânico, damos voltas na Lagoa, na Urca…aproveitamos passeios ao ar livre.”  

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