Navegar

17 de abril de 2020, 11:50h

Modelo matemático teria previsto quedas da bolsa antes da Covid-19

Foto: Agência Brasil.

A incerteza trazida pelo novo coronavírus afetou radicalmente os mercados globais. No mês de março, a bolsa brasileira acionou seis vezes o “circuit breaker”, mecanismo que interrompe negociações, e o Ibovespa caiu 30%, a maior queda mensal dos últimos 22 anos. Ainda que os efeitos da pandemia tenham impacto direto na retração econômica, os pesquisadores visitantes do IMPA Ana Cascon, do Brasil, e William Shadwick, do Canadá, afirmaram que grandes quedas já eram previstas em dezembro do ano passado.

Em “Accidents Waiting to Happen–The U.S. Equity Market”, publicado em janeiro, os especialistas em mercado financeiro advertiram que o S&P 500, índice que lista as maiores ações (por valor) cotadas nas bolsas americanas, poderia cair 21% em um período de 20 dias nos meses seguintes. Dois meses depois, com o agravamento da pandemia, o S&P 500 teve seu pior rebaixamento de 20 dias desde o crash da bolsa de 1929, registrando uma perda de 23% em 20 de março. 

Leia também: Na Folha, Viana fala sobre suas lembranças de John Conway
‘Isolar assintomáticos teria efeito de imunidade de rebanho’
‘Da pandemia ao pandemônio’: desafios por mães na ciência

“Todas as nossas previsões foram baseadas em dados diários de preços até o final de dezembro de 2019. Isso significa que a possibilidade do mercados de ações dos EUA sofrerem quedas desastrosas já era presente e identificável antes de qualquer impacto do coronavírus nos mercados. A probabilidade de sofrermos grandes perdas aumentou e parece improvável que a crise tenha terminado”, afirmam.

Ana Cascon e William Shadwick

Os matemáticos também afirmam ter concluído que a probabilidade de uma perda de mais de 13% no S&P, como aconteceu no final de 2018, era de uma vez a cada oito meses. Com o aumento dos impactos do coronavírus na economia, os dados atualizados de março apontam que estas perdas podem ser registradas em menor período, a cada 100 dias, representando uma vez a cada cinco meses.

Ana e William desenvolvem, desde 2001, ferramentas estatísticas baseadas na geometria para prever grandes quedas na bolsa de valores. A partir dessas análises de risco de mercado é possível fornecer medidas precisas de exposições downside nos horizontes de tempo diários, semanais, bissemanais e mensais. Com estas ferramentas, a dupla diz poder dar avisos antecipados de bolhas de preços de ativos e antibolhas, com estimativas acuradas de eventuais níveis de correção. A atual projeção para o S&P 500 é de uma queda ao nível de 1300 pontos nos próximos meses.

“Usamos novas ferramentas, a partir da perspectiva de que movimentos em finanças são reflexos do que já passou. Usamos métodos baseados em nossa pesquisa em Geometria de Probabilidades, que não precisam nem de calibração, nem de hipóteses. Como estamos em um período muito turbulento, em que novos acontecimentos trazem novos impactos, isso confere maior agilidade aos resultados que encontramos”, explica Ana.

Os pesquisadores se valem base de dados de até três anos sobre flutuações no mercado financeiro para dar respostas dentro do melhor timing. “Mas é como uma previsão do tempo. Conseguimos prever 90% de chances de chuva no Rio, mas não conseguimos dizer se, efetivamente, vai chover”, alerta o canadense.

Recentemente, a dupla usou o conjunto Omega Metrics® de indicadores de “macroestatística” para analisar o cenário que precedeu a grande depressão de 1929, formulando “previsões” para o para o Dow Jones Index (DJI), caso as ferramentas estivessem disponíveis à época. “Seria possível identificar uma expansão instável emergindo no terceiro trimestre de 1924, indicando que uma bolha de preço de ativos estava se formando. Acompanharíamos a crescente diferença entre o DJI e seu nível de correção.” 

As simulações também apontariam para um alerta de risco em agosto de 1929. “Embora não houvesse grandes quedas de 20 dias – parâmetro temporal de perdas usado pelo estudo – desde junho de 1921, no final de agosto de 1929, seria possível identificar que havia uma chance a cada sete meses de exceder essa perda. A média das quedas seria de 24% – pior do que o que aconteceu no pânico de 1907 e, de fato, uma perda maior do que já havia sido registrada no mercado de ações dos EUA. Dois meses depois, o mercado quebrou”, comentam.

Leia também: OBMEP 2020 bate recorde de municípios inscritos
Ricardo Castilho defende tese de doutorado por videoconferência