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21 de agosto de 2019, 13:48h

Miquel Ten defende tese sobre geometria de Poisson

Antes de chegar ao Brasil, há cinco anos, o espanhol Miquel Cueca Ten não esperava gostar tanto do país. A imagem difundida no exterior não era a das mais positivas. Mas, ao pisar em terras cariocas, percebeu que se tratava de um lugar especial. Sentiu-se em casa.

Aluno de doutorado do IMPA, Miquel começa, nesta quinta-feira (22), a se despedir do país que o acolheu. Na sala 232, defenderá a tese “Aplicações de variedades graduadas na geometria de Poisson”, às 14h.

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Um lar longe de casa

Nascido em Valência, na Espanha, Miquel encontrou nas belas praias do Rio de Janeiro a calorosa familiaridade da cidade natal. Com a infância vivida à beira do mar, acompanhando o trabalho dos pais, donos de um bar, o matemático cresceu deixando pegadas na areia.

O cenário com o qual está habituado está prestes a mudar. Após a defesa de tese, Miquel embarca para um pós-doutorado na Universidade de Göttingen, na Alemanha. “Vai ser um desafio. Vou estudar em uma cidade pequena e sem praia”, brinca.

Geômetra, Miquel define sua área de atuação como uma interseção da geometria diferencial com a física matemática. Com mestrado pela Universidade de Valência, uma das mais antigas e importantes da Espanha, o matemático conta que a trajetória que antecedeu a escolha de enveredar pela área da pesquisa foi marcada por incertezas.

“Escolhi a Matemática bem tarde. Sempre tive dúvidas sobre o que estudar, mas sabia que tinha que ser algo que me permitisse encarar perguntas difíceis. Por um momento, cogitei cursar História, mas, às vésperas do vestibular, acabei decidindo pela Matemática, por achar um pouco mais objetivo.”

Apesar dos bons professores e da curiosidade natural, Miquel diz não ter recebido influência direta para seguir na área. Foi no primeiro ano da faculdade que começou a realmente se empolgar.

“Naquela época, aconteceram duas coisas. Fui reprovado em análise e, ao mesmo tempo, tirei a maior nota da turma em álgebra. Então, pensei: ‘talvez eu não seja tão lerdo, talvez seja bom em Matemática’”, recorda.

No final do terceiro ano, começou a se envolver em um projeto de iniciação científica, desenvolvido com o professor Marco Zambon, no Instituto de Ciências Matemáticas (ICMAT), em Madri.

“Foi o professor Zambon que me apresentou ao estudo da geometria simplética. Ao final do curso, ele me recomendou perguntar ao pesquisador do IMPA Henrique Bursztyn, que trabalha na área, se estaria disposto a orientar mais estudantes no doutorado.”

Sob a orientação de Bursztyn, Miquel escreveu tese sobre geometria de Poisson. “Ele teve muita paciência comigo. Sou muito grato, aprendi muita coisa. O importante da geometria de Poisson é que, para além dos problemas internos da área, há conexões com muitos outros campos da Matemática. Para quem está iniciando, é muito difícil ter esta perspectiva global. Bursztyn sempre soube transmitir todas essas conexões e relações, trabalho que não é fácil”, agradece.

A geometria de Poisson é utilizada desde o início do século 19 para estudar a mecânica clássica e celeste, como o sistema solar. Com a revolução quântica, no século seguinte, a física atômica precisou lidar com dois tipos de partículas: bóson e férmion.

“Como a geometria de Poisson só pode lidar com bósons, surge uma nova geometria, a supergeometria, que engloba bósons e férmions, permitindo fazer mecânica clássica com partículas quânticas. O meu estudo é nesta interseção de problemas que, às vezes, vêm da Física”, explica.

Miquel cita o matemático russo Vladimir Arnold (1937-2010) para expor a importância dessa interseção. “Arnold dizia que ‘a Matemática é a parte da Física onde os experimentos são mais baratos’. O que me motiva é que, amplamente, os nossos projetos têm aplicações na Física e estamos trabalhando com uma aproximação da realidade.”

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