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19 de março de 2020, 14:46h

Furstenberg e Margulis compartilham o Abel Prize 2020

Conhecidos por terem desvendado o poder dos passeios aleatórios, o israelense Hillel Furstenberg e o russo-americano Gregory Margulis são os vencedores do Abel Prize 2020. Concedido pela Academia Norueguesa de Ciência e Letras, o prêmio é uma das mais cobiçadas honrarias da matemática e homenageia o norueguês Nils Henrik Abel (1802-29).

“Hillel Furstenberg e Gregory Margulis inventaram técnicas de passeio aleatório para investigar objetos matemáticos como grupos e grafos, e, ao fazê-lo, introduziram métodos probabilísticos para resolver muitos problemas abertos na teoria de grupos, teoria dos números, combinatória e teoria dos grafos”, informa o texto da premiação. 

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Ramo central da teoria da probabilidade, o passeio aleatório é um caminho que consiste em uma sucessão de passos aleatórios. Hans Munthe-Kaas, presidente do comitê do Abel  prize, ressaltou o uso engenhoso deste objeto matemático e dos métodos probabilísticos pela dupla.

Gregory Margulis/ Foto: Dan Rezetti

“Isso abriu uma série de novos resultados, como a existência de longas progressões aritméticas de números primos, entendendo as estruturas treliças em grupos de Lie e a construção de gráficos expansores com aplicativos  para tecnologia da comunicação e ciência da computação, para citar alguns exemplos.”

Devido à diferença de idade de dez anos e às restrições de viagens das autoridades soviéticas, os laureados não chegaram a colaborar formalmente, mas seus trabalhos influenciaram fortemente um ao outro. Além das barreiras do mundo físico, derrubaram também barreiras abstratas. “Furstenberg e Margulis demonstraram a eficácia do cruzamento entre disciplinas separadas da matemática e derrubaram o muro tradicional entre matemática pura e aplicada”, destacou Munthe-Kaas.

Hillel Furstenberg/ Foto: Yosef Adest

Criado em 2002, o Abel Prize é um reconhecimento da Academia Norueguesa de Ciências e Letras em nome do Ministério da Educação e Pesquisa da Noruega, aos matemáticos que deram contribuições de extraordinária profundidade e influência à área. A cerimônia física de entrega do prêmio de 834 mil dólares aconteceria em 19 de maio, mas foi cancelada devido à pandemia do coronavírus. Uma nova data será anunciada em breve pela organização. 

Hillel Furstenberg

Hillel Furstenberg nasceu em Berlim, em 1935. Sua família era judia e, em 1939, conseguiu fugir da Alemanha nazista para os Estados Unidos. Seu pai não sobreviveu à jornada e Furstenberg cresceu com a mãe e irmã em uma igreja ortodoxa da comunidade, em Nova York.

Quando publicou um de seus primeiros trabalhos, circulou um boato de que ele não era um indivíduo, mas um pseudônimo para um grupo de matemáticos. O artigo continha idéias de tantas áreas, que certamente não poderia ser o trabalho de um homem. Após uma carreira em matemática em várias universidades nos EUA, ele deixou o país em 1965 para a Universidade Hebraica de Jerusalém, onde ficou até sua aposentadoria, em 2003. 

Tendo passado a maior parte de sua carreira em Israel, ele ajudou a estabelecer o país como um centro mundial de matemática. Furstenberg ganhou o Prêmio Israel e o Prêmio Wolf.

Gregory Margulis

Nascido em Moscou, em 1946, Gregory Margulis mostrou desde cedo um talento único para a matemática. Ganhou a Medalha Fields com apenas 32 anos, em 1978. Como as autoridades soviéticas lhe negaram um visto, não pode comparecer à cerimônia em Helsinque.

Foi um dos melhores jovens matemáticos na União Soviética, mas não conseguiu encontrar emprego na Universidade de Moscou por causa da discriminação com sua origem judaica. No entanto, conseguiu trabalho no Institute for Problems in Information Transmission.

Ele só foi autorizado a viajar para o exterior em 1979, quando os acadêmicos soviéticos receberam mais liberdades pessoais. Durante a década de 1980, visitou instituições acadêmicas na Europa e nos Estados Unidos antes de se estabelecer em Yale em 1991, onde esteve desde então. Margulis é ganhador do Prêmio Lobachevsky e o Prêmio Wolf.

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