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29 de julho de 2019, 17:47h

Encontro propõe iniciativas em prol da diversidade

O Encontro Brasileiro de Mulheres Matemáticas chegou ao fim neste domingo (28), depois de apresentações técnicas e debates sobre diversidade. A última atividade foi a chamada Sessão Panorama que apresentou sete iniciativas que visam à inclusão de mulheres na Matemática.

“Foi muito difícil escolher as iniciativas porque há muitas acontecendo, mas esperamos que estas possam estabelecer um ponto focal e dialogar umas com as outras,” disse Carolina Araújo, coordenadora do evento e pesquisadora do IMPA. 

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Divididas em dois temas, as apresentações mostraram ações relacionadas às mesas redondas organizadas no Encontro, dedicadas a debater questões de diversidade na ciência, maternidade e carreira, e projetos voltados para a inclusão de meninas na área científica.

Manuela da Silva Souza, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), apresentou o projeto “Matemáticas Negras: quem são? Onde estão?”. Apesar de inicialmente ter o objetivo de mapear as pesquisadoras, o projeto ganhou a dimensão de acolher e articular essas mulheres. O critério utilizado na confecção do mapa é a autodeclaração racial. 

Até agora, 45 matemáticas negras já foram mapeadas. “Para nos articularmos precisamos nos conhecer e saber onde estão essas mulheres”, apontou Manuela, que, ao final da apresentação, convidou o público a contribuir com  o projeto. 

Manuela da Silva Souza, da Universidade Federal da Bahia (UFBA)

Mediadora da mesa redonda sobre maternidade e carreira, Maité Kulesza, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), falou sobre acolher a maternidade para incluir. A pesquisadora abordou os desafios da maternidade no decorrer da carreira científica, apontando questões relacionadas a redes de apoio e produtividade. 

Além de mostrar propostas de iniciativas, como licenças paternidades maiores e fomento de participação de mulheres em eventos, Maité também falou sobre as instituições que já estão executando iniciativas neste sentido, como o Instituto Serrapilheira, Capes e CNPQ. “Todos nós aqui nascemos de uma mãe, todos nós precisamos de cuidado para estarmos aqui, então não tem sentido não discutirmos isso na nossa vida porque faz parte do nosso existir”, declarou. 

O Serrapilheira, instituto privado de apoio à pesquisa e divulgação científica, também participou da Sessão Panorama. A diretora de pesquisa científica da instituição, Cristina Caldas, falou sobre a diversidade como condição para excelência na ciência. “O tipo de ciência que queremos apoiar não tem como ser feita se não for diversa. Temos a convicção de que ideias novas e criativas, que dão origem a grandes perguntas fundamentais nas quais queremos apostar e alimentam a pesquisa de excelência, são favorecidas por pontos de vista diversos,” disse.

Cristina destacou que desde sua primeira chamada pública, o Serrapilhera olha para a questão da maternidade ao estender o prazo de conclusão de doutorado em até dois anos para as candidatas que são mães. Ela também explicou o mecanismo de estímulo à diversidade na ciência que o instituto criou dentro do apoio dado aos pesquisadores: 30% do recurso, de R$ 1 milhão disponibilizado, é condicionado a integração e formação de equipe com pessoas de grupos sub-representados. 

“Depois que você olha para as questões de diversidade na ciência, não tem como voltar atrás, não tem como não tratar deste assunto. No Serrapilheira, é assim que encaramos”, sintetizou. 

Cristina Caldas, diretora de pesquisa científica do Instituto Serrapilheira

Josefa Itailma da Rocha, da Univerdade Federal de Campina Grande (UFCG), falou sobre o  Workshop de Mulheres na Matemática (WMM), que aconteceu em 21 e 22 de março. O evento contou com palestras, pôsteres e uma mesa redonda sobre os desafios de gênero na matemática.

Pioneiro na região Nordeste, o evento teve uma alta participação masculina. “Nós enxergamos isso de uma forma muito positiva porque, se queremos fazer a divulgação das pesquisas das mulheres, é importante que todos vejam”, apontou Josefa. A próxima edição do WMM está prevista para março 2020, na UFRPE. 

Outro assunto fundamental, que foi debatido em alguns momentos no Encontro Brasileiro de Mulheres Matemáticas, é o combate à violência de gênero na academia. Christina Brech, da Universidade de São Paulo (USP), apresentou dados do Instituto Avon, de 2015, mostraram que 58% das alunas de graduação e pós-graduação no Brasil dizem já ter sofrido assédio sexual de professores, estudantes e técnico-administrativos. Na USP, embora as violências não se restrinjam às mulheres, Christina apontou que elas sofrem cinco vezes mais violências sexuais e duas vezes mais abusos de professores.

Diante deste quadro, Christina apresentou duas iniciativas: a Comissão de Acolhimento da Mulher do IME-USP e a “Rede não Cala USP”, coletivo de professoras e pesquisadoras da universidade, formado em 2015. “O objetivo da rede é pautar politicamente a questão da violência de gênero e a falta de respostas da universidade”, explicou Christina. 

Christina Brech, da Universidade de São Paulo (USP)

A outra parte da Sessão Panorama foi dedicada aos projetos de inclusão de meninas na área científica. Anne Caroline Bronzi, do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC) da UNICAMP, falou sobre o projeto “Meninas SuperCientistas”, voltado para estudantes do Ensino Fundamental. A iniciativa, que nasceu de uma colaboração entre alunas e professoras da instituição e tem o objetivo de incentivar jovens meninas a se tornarem cientistas, recebeu 2.462 inscrições, de mais de 50 cidades para participar de oficinas, palestras e atividades práticas.

“Queremos mostrar que as meninas podem ter modelos reais de mulheres na área da ciência, podendo usá-los como inspiração e referências em suas próprias trajetórias”, explicou Anne. 

Com um escopo semelhante, Juliana Miranda apresentou o projeto “Caboclas Kirimbaua Auaeté na Ciência”, do grupo de professoras do Departamento de Matemática da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). “Na linguagem indígena, o termo significa ‘fortes e valentes’”, explicou Juliana. A iniciativa busca compreender o quadro escasso de meninas nas ciências e quebrar os obstáculos que as acompanham neste desinteresse pela área científica.

Além de realizar análises teóricas sobre o cenário das ciências da perspectiva feminina, o projeto tem uma vertente prática, na qual o grupo de professoras e alunas da universidade desenvolve atividades e oficinas para alunas de cinco escolas públicas de Manaus. 

Juliana Miranda, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM)

O último dia do Encontro teve ainda a sessão Tutoria, voltada para estudantes de graduação e pós, bem como pós-doutorandas. As pesquisadoras Jaqueline Godoy Mesquita, da Universidade de Brasília (UnB) e Valeria de Paiva, da Samsung Research America (EUA) e da University of Birmingham, (Reino Unido) conversaram com as jovens sobre os desafios da carreira em Matemática  e como enfrentá-los.

“Foi muito interessante. Não sabia que existiam tantas oportunidades. Isso tem que ser mais divulgado, assim como foi feito aqui”, disse Talia Correia Schultz, da Universidade Federal do Paraná (UFPR). 

O Encontro também foi palco do lançamento de dois livros: “A Matemática das mulheres: as marcas de gênero na trajetória profissional das professoras fundadoras do Instituto de Matemática e Física da Universidade da Bahia (1941 – 1980)”, escrito por Márcia Barbosa de Menezes, da UFBA, e “A História de Hipátia e de Muitas Outras Matemáticas”, das autoras Cecília de Souza Fernandez, Ana Maria Luz Fassarella do Amaral e Isabela Vasconcellos Viana, do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade Federal Fluminense (UFF).

No encerramento do evento, Carolina Araújo agradeceu a presença de todos os participantes e fez um convite: “Gostaria de agradecer a todas e todos pela presença, pelas trocas, empatia e sororidade e dizer que mobilizamos muita energia nesses dois dias. Sinto que estamos inspiradas e empoderadas e queria pedir para não deixarmos esta energia se dissipar porque ela é muito preciosa e se conseguirmos canalizar essa energia para uma mudança, para uma direção de inclusão, acho que será muito potente.”

E o trabalho continua. Um site será criado para mulheres matemáticas no Brasil divulgarem seus projetos e obterem informações sobre eventos e oportunidades. O nome foi escolhido no fim do evento: “Matemática: substantivo feminino”. 

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