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12 de dezembro de 2019, 10:42h

Augusto Teixeira: do livro didático ao blockchain

É de pé que Augusto Teixeira prefere mergulhar na matemática. Durante as oito horas por dia que passa de segunda a sexta-feira no IMPA, se debruçando sobre percolações e passeios aleatórios, só se senta na cadeira por breves minutos. Um suporte para o monitor do computador garante que ele possa trabalhar o dia inteiro com a postura ereta. “É muito melhor para a coluna, e depois de um tempo é fácil se acostumar”, garante o matemático. 

Esta perseverança se reflete na sua trajetória acadêmica. Aos 36 anos, o mineiro de Belo Horizonte já passou por instituições renomados de ensino como o Instituto Federal de Tecnologia de Zurique e pela Escola Normal Superior de Paris, onde fez pós-doutorado. No IMPA, atua como pesquisador desde 2011. 

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Filho de Aníbal Teixeira de Sousa, ministro do Planejamento no governo José Sarney, Augusto teve que nadar contra a maré para não ceder aos anseios do pai de construir uma carreira na política. Aos sete anos de idade, tal irreverência se revelou através de um pedido curioso: queria uma festa de aniversário com o tema “matemática”. O pedido foi  acatado. “Minha mãe achou estranho, mas no final tive a festa como queria”, relembra.

Com a chegada da juventude, também começou a despontar seu interesse pela computação e a física. “No fim da década de 90 a computação era considerada a ‘carreira do futuro’. Muitos primos e amigos meus seguiram para a área”, conta Augusto, que cresceu brincando com um computador do pai. 

No vestibular, abstraiu da preocupação com o mercado de trabalho para seguir um sonho antigo: estudar física. Depois de assistir a um curso de análise na reta durante a graduação na Universidade Federal de Belo Horizonte, percebeu que gostava de teoria e passou a puxar mais matérias de matemática.

Visitou o IMPA pela primeira vez na 24ª edição do Colóquio Brasileiro de Matemática, em 2003. “Achei o prédio e o ambiente maravilhoso. Não tinha ouvido falar muito do IMPA e ainda me era estranha a ideia de que podia existir um espaço de pesquisa em matemática. Neste sentido, vir aqui me passou uma certa confiança de que poderia seguir este caminho.”

A participação no Programa de Verão de 2005 selou sua vontade de ficar no instituto, conta o pesquisador, que iniciou o mestrado no IMPA no mesmo ano. “É um evento muito bacana, que vem gente de várias cidades do Brasil e de todas as idades. Dá uma rejuvenescida ao lugar”, diz Augusto, que vai ministrar o curso de Análise na Reta do Programa de Verão de 2020.

O pesquisador afirma ter escolhido a probabilidade como área de pesquisa por causa da sua ligação com a física, da qual permanece fã confesso. O objeto matemático dos passeios aleatórios, que descreve um caminho que consiste em uma sucessão de passos aleatórios, pode investigar o movimento de moléculas em líquidos e gases, por exemplo. Ele também foi aplicado no primeiro algoritmo de busca do Google, ressalta Augusto.

“Acho fascinante a simplicidade dos problemas de mecânica estatística. Eles podem aparecer em uma olimpíada de matemática do Ensino Médio que todo mundo vai entender. Mesmo assim, eles estão em aberto há décadas porque são simples, mas também muito difíceis de resolver. Gosto muito das ferramentas que já foram e estão sendo desenvolvidas para estudar estes problemas, como os grupos de renormalização.”

Livro Aberto de Matemática

Percebendo a rigidez dos materiais didáticos de ensino da matemática disponíveis no país para a educação básica, Augusto criou, junto ao colega e diretor da Escola de Matemática da Unirio, Fábio Simas, o “Livro Aberto de Matemática”. Lançado em 2018 pelo IMPA, o projeto é um esforço dos professores para produzir coleções de livros didáticos de Matemática para a Educação Básica de forma colaborativa e com licença aberta (Creative Commons).

Entusiasta da computação de software aberto, Augusto afirma que a iniciativa visa entregar uma obra aberta, criada a partir de contextos diversificados e de forma colaborativa, baseado em trabalhos de pesquisas das áreas de Ensino e Educação Matemática e na experiência dos professores que estão diariamente nas salas de aula da Educação Básica.

“É um cenário difícil o da educação básica no Brasil. Temos vários problemas: o alto custo de ensino no Brasil, a má-formação e remuneração dos professores que acabam ficando assoberbados. Por estas razões, a aula é muito mais ditada pelo material didático do que deveria. Além disso, o sistema de distribuição de material didático na rede pública é muito engessado. O pequeno autor não consegue oferecer o livro dele às instituições de ensino”, afirma o pesquisador do IMPA.

Os dois coordenadores do projeto agora se dedicam a reescrever a plataforma, para aprimorá-la, e criar mais material. “Já concluímos 50% do material do Ensino Médio, estamos com mais 25% em andamento e pretendemos finalizar tudo no final do ano que vem”. Augusto e Simas também organizam oficinas com grupos de 50 professores da rede pública de ensino para instruí-los a usar a ferramenta. “Mesmo assim, quem elabora livro didático sabe que ele não está pronto até ir à sala de aula”, afirma Augusto.

CARTESI

Enquanto desenvolve da pesquisa em mecânica estatística, orienta mestrandos e doutorandos e coordena projetos de ensino, o mineiro ainda arranjou tempo para se aventurar em mais uma atividade, assumindo o cargo de diretor científico do CARTESI, plataforma para o desenvolvimento e implantação de aplicativos descentralizados compostos por blockchain e off-chain.

Criada em 2017, a CARTESI, na qual atuam também os pesquisadores do IMPA Diego Nehab e Luiz Henrique de Figueiredo, surgiu em um momento em que havia muita expectativa em torno da tecnologia blockchain. “O bitcoin, por exemplo, estava supervalorizado, e as pessoas se perguntavam se surgiria uma nova internet, sem a presença de um órgão regulador central”, pontua.

Buscando solucionar alguns dos entraves para o desenvolvimento de novas tecnologias nesta área, a comunidade de computação passou a desenvolver projetos de alto investimento. Augusto explica que uma das maiores dificuldades da CARTESI é é oferecer bibliotecas de desenvolvimento para a plataforma. “Em um aplicativo de reconhecimento de rótulos de vinho, por exemplo, existem diversas bibliotecas de desenvolvimento por trás. No blockchain ainda não foram disponibilizadas tais bibliotecas, o que torna mais difícil programar.”

Atualmente, a empresa está finalizando um jogo em blockchain. A exigência de uma assinatura digital é uma barreira a ser vencida. “Esperamos que estes projetos milionários resolvam alguns destes problemas. Na maioria das vezes, são problemas que só podem ser solucionados a longo prazo e que exigem um alto investimento financeiro. Mas acreditamos na possibilidade de uma internet sem regulamentação sem censura, espionagem e todo o resto.”

Quando não está mergulhado nestes problemas, Augusto se dedica aos cuidados do pequeno Caetano, de dois anos e meio. “Com filho pequeno não sobra mais tempo para nada”, afirma o pesquisador que já trouxe a criança para visitar o IMPA várias ocasiões. Colegas de Belo Horizonte também foram convidados a visitar a sala da qual tem enorme orgulho da vista. “Quando cheguei aqui e olhei para esta vista pensei: nunca mais fecho esta janela”, brinca. Depois de passar o último ano em período sabático com Caetano e a esposa, Maria, em Genebra e na capital mineira, o pesquisador planeja contemplá-la por mais um bom tempo.

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