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5 de março de 2020, 10:55h

Para Simon Thalabard, a melhor publicação é ‘a que está por vir’

Luiza Barata

Simon Thalabard cresceu perto da “tranquila Lyon”, onde viveu com os pais e três irmãos mais velhos. “Meu pai é médico e minha mãe, professora de literatura francesa. Quando era criança, pensava em ser astronauta ou padeiro. Não chegava a ser um sonho, mas era algo que imaginava ser. Me saia bem em matemática desde a época da escola, mas, definitivamente, não esperava me tornar um matemático”, confessa o pós-doutorando de excelência no IMPA. 

O francês chegou ao Brasil, mais especificamente ao Rio de Janeiro, há quase dois anos em uma das “viagens de aventura” que gosta de fazer. “Vim sem conhecer nada e sem ter planos nem para ficar, nem de retornar à Europa. Viajei sem ter qualquer intenção. Hoje, estou muito feliz de estar aqui, mas continuo com a ideia de seguir viajando pelo mundo para fazer pesquisa acadêmica.” Hábito que cultiva desde o pós-doutorado que fez nos Estados Unidos, na Universidade de Massachusetts. 

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Simon gosta de morar em Botafogo, bairro da Zona Sul do Rio, costuma escalar no tempo livre e curtir a vida boêmia da cidade. “Aqui tem muitas montanhas, o que acho ótimo. Também vou a muitos ‘botecos’ e à Pedra do Sal com pesquisadores franceses, sempre às segundas-feiras. Gosto mais de ouvir os sambas clássicos.” 

A carreira na área matemática teve início depois de uma longa especialização em física. “Acho que acabei optando pela matemática por conta da ideia de liberdade. Dentro da área, é possível escolher contra quais problemas você quer lutar”, o que acredita ser um ideal a ser buscado também em outras áreas da vida. 

Quem o vê falar com tamanha certeza sobre a profissão, talvez não diga que, antes de entrar para universidade, Simon chegou a pensar em se tornar um cientista e fez até curso preparatório para ser engenheiro. “Na França, existe um curso em nível universitário para concursos das escolas francesas de engenharia. Dependendo da sua classificação no ranking final, você decide pela área que vai seguir. Só que, durante a minha trajetória de três anos neste preparatório, descobri que não era aquilo que queria fazer.” 

De 2006 a 2009, o francês esteve focado em concluir a graduação e mestrado pela Escola Normal Superior de Lyon (ENS Lyon). “Foi neste período que tive contato com sistemas complexos, um campo da matemática aplicada que consiste em descrever como as coisas são organizadas, seja em pequenas ou em grandes escalas.” 

Antes de migrar definitivamente para a matemática, Simon garantiu mais um  título em física: o doutorado, pelo Serviço de Física do Estado Condensado da CEA Saclay, na França. Quando, finalmente, aterrissou no campo matemático e decolou para outros voos. Em três anos, Simon defendeu duas teses de pós-doutorado. A primeira delas pelo Departamento de Matemática e Estatísticas de Massachusetts e a segunda, pelo Observatório de Nice. 

“Meus pós-doutorados sucessivos me levaram aos Estados Unidos, depois de volta à França e, agora, ao Rio de Janeiro.” Quando chegou à cidade, o francês se entusiasmou com o tipo de pesquisa feito no IMPA a partir da pesquisa de Alexei Mailybaev, especialista em dinâmica dos fluidos. “Soube que havia novas perspectivas no campo e me interessei pelo trabalho. O tipo de interação que temos aqui entre os pesquisadores é maravilhosa. É um grande diferencial do instituto”, observa.  

Atualmente, Simon se concentra em questões ligadas à exploração das conexões, do ponto de vista físico, entre noções de soluções para as equações de Euler e algumas das propriedades de turbulência que não são de equilíbrio. 

“O que queremos saber sobre fluidos é como eles se movem, como produzi-los e como descrevê-los, essencialmente.” E para o futuro, seja no IMPA ou em outro centro de pesquisa matemática, Simon garante que não tem muitos planos definidos, mas tem a certeza de que a melhor publicação acadêmica que vai escrever “é sempre aquela que ainda está por vir”.

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