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1 de abril de 2019, 11:00h

Meninas Olímpicas do IMPA se reúnem em centro de inovação

A turma reunida no topo da Casa Firjan, em Botafogo

Um grupo de meninas, estudantes de escolas públicas, descobriu em visita à Casa Firjan como os grandes fundadores da indústria nacional foram visionários e ousados. Elas não encontraram sequer uma mulher entre os pioneiros do empreendedorismo, mas como participantes de uma iniciativa que visa ampliar a presença feminina na área de Exatas, torcem para que essa ausência esteja restrita ao passado.

Reunidas pela primeira vez na tarde desta quinta-feira (28), elas integram o Programa Meninas Olímpicas do IMPA, apoiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A mais recente iniciativa do instituto para aumentar a participação das mulheres no cenário científico, por meio de atividades ligadas à Matemática, foi criada este ano. Cinco escolas públicas do Rio de Janeiro e de Niterói participam do projeto.

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O encontro reuniu cerca de 30 pessoas, entre integrantes dos grupos de trabalho – formados, em cada escola, por um coordenador ou coordenadora, uma aluna de licenciatura em Matemática e alunas do Ensino Fundamental ou Médio -, o diretor-geral do IMPA, Marcelo Viana, e a coordenadora do Meninas Olímpicas, Letícia Rangel, aposentada do Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro  (UFRJ).

No espaço da Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro) inaugurado em Botafogo em agosto de 2018, que reúne um prédio moderno e o Palacete que pertenceu às famílias Guinle e Linneo de Paula Machado,  o grupo conheceu os laboratórios de fabricação digital e cocriação, onde se surpreenderam com os objetos nascidos de robustas impressoras 3D e souberam que é possível aprender mais sobre o assunto participando da vasta programação da casa, que realiza palestras, workshops e cursos de curta duração. 

Surpresas com o material impresso em 3D

Durante a visita, também foi possível ver como a Matemática e a arte podem caminhar juntas, como na mostra “Visões de Futuros Possíveis”, uma experiência imersiva que apresenta situações entre a realidade e a ficção, guiada pela Teoria do Cone de Futuros, de Ray Amara.  Após conhecerem a exposição “Pioneiros”, sobre empreendedores de destaque no país, divertiram-se na Arena Firjan Sesi Matemática.

Para Lavínia Vasconcelos, 17 anos, aluna do 3º ano do Colégio Pedro II, campus Humaitá, na zona sul do Rio, a arena foi a melhor parte da visita. “Deu para ver a Matemática de uma forma mais lúdica, assim como na OBMEP. Curti bastante”, observou ela, que vê nos encontros semanais do projeto uma oportunidade para se aprofundar nos estudos em Matemática e um estímulo para seguir carreira nas Exatas.

Segundo Daniella da Silva, estudante do 7º semestre de Licenciatura em Matemática, na UniRio, o Meninas Olímpicas do IMPA pode ser um grande incentivo para as adolescentes. “Dou aula no Programa de Iniciação Científica, o PIC, da OBMEP, e vejo muito essa diferença de gênero. Às vezes, é só uma questão de motivação”, disse ela, que faz parte do grupo da Escola Municipal Francis Hime, em Jacarepaguá, na zona oeste do Rio.

Para a coordenadora do Meninas Olímpicas, o projeto, na verdade, também é uma oportunidade também para graduandas como Daniella: “Elas estão podendo refletir sobre a responsabilidade da profissão que escolheram para além do quadro,  giz, problemas e fórmulas. Isso é incrível e raro. Acredito que o projeto está fazendo uma diferença importante na formação delas, que são as reais agentes do necessário processo de mudança cultural que a questão exige”, considerou Letícia.
 

Grupo do Pedro II, campus Humaitá, na Arena de Matemática

Estímulo necessário 

Entre uma conversa e outra durante o passeio, Cícero Avelino, coordenador de Matemática no Colégio Estadual Matemático Joaquim Gomes de Sousa-Intercultural Brasil China, em Charitas, Niterói, destacou a importância da iniciativa: “Há uma redução gritante das meninas em atividades e olimpíadas de Matemática conforme elas vão passando de ano, em direção ao Ensino Médio.”

Estudante do 8º ano do Colégio Militar do Rio de Janeiro, Sofia Monteiro, 14 anos, não vê esse fenômeno como falta de interesse, mas de estímulo. “Nesse sentido, o projeto tem muito mérito porque vai pegar aquela garota que está interessada, mas está meio perdida e vai falar olha isso é para você, essa área também é sua”, disse.

A baixa representatividade, enfatizou Sofia, também é vista na docência. Que o diga Deivison Albuquerque Cunha, coordenador do Meninas Olímpicas na Escola Municipal José Alberto Sampaio, na Pavuna. Lá, não há mulheres entre os professores de Matemática.

Durante a visita, o grupo recebeu um exemplar da revista Eureka!, que traz desafios da Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM) e, no fim da tarde, participou de um lanche coletivo no jardim da Casa Firjan.

“Foi uma oportunidade encantadora para dar início aos trabalhos, fazer com que toda a equipe se conheça. Foi muito gratificante ver a satisfação com que professores e alunos participaram das atividades”, observou Marcelo Viana.

Em frente ao palacete, Marcelo, Letícia e a turma do Brasil-China

Após o primeiro encontro, as escolas participantes seguem com reuniões semanais, nas quais serão realizadas preparações para olimpíadas escolares, com atividades motivadoras e educativas. Ao longo do ano, outras atividades externas, como a visita desta quinta-feira (29), serão realizadas.

“O grupo que atua no projeto tem como objetivo inspirar as meninas a seguirem carreiras nas Exatas, mudar a realidade delas, acreditando que esse é um caminho. Diferentemente de outros projetos, que inspiram pela dança, pela música, esse quer inspirar pela Matemática. Queremos contribuir para uma mudança cultural, visando incentivar, ampliar e legitimar a presença das mulheres nessa área”, disse Letícia. Pelos comentários entreouvidos na Casa Firjan, o primeiro encontro foi inspirador. 

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