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13/05/2022

Internacionalização é traço marcante dos 70 anos do IMPA

Maurício Peixoto, Stephen Smale e Jacob Palis

Russo, Persa, Chinês, Inglês, Espanhol… A variedade de idiomas e nacionalidades concentradas nos corredores do IMPA reflete um traço presente desde os primeiros anos do instituto: a internacionalização. A interação com a pesquisa estrangeira de alto nível começou com visitas de matemáticos ilustres à casa, como a do medalha Fields Stephen Smale, hoje pesquisador honorário do IMPA, que passou uma temporada de seis meses como pós-doutorando no instituto, em 1959, após um convite de Elon Lages Lima (1929-2017).

À época, a beleza da praia de Copacabana deu inspiração para que o pesquisador norte-americano desenvolvesse um de seus principais trabalhos científicos, a “Ferradura de Smale”, um objeto matemático que está na base da teoria moderna dos sistemas dinâmicos, ou teoria do caos. Após a vinda de Smale, muitos outros matemáticos estrangeiros de renome embarcaram no Rio de Janeiro atraídos pelo prestígio do IMPA.

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Franceses como o vencedor do prêmio de Disseminação do Conhecimento Matemático do Instituto Clay Étienne Ghys e o medalha Fields Jean-Christophe Yoccoz (1957-2016), hoje pesquisadores honorários do instituto brasileiro; e Christian Bonatti, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS, na sigla em francês), também passaram temporadas no IMPA, beneficiados por uma estrutura especial que o governo francês oferecia à população. Através do acordo de “Coopération”, um serviço civil prestado por acadêmicos em centros de pesquisa no exterior que substituía o serviço militar obrigatório no país.

Aos 24 anos, dividido entre ensinar matemática para alunos oficiais das escolas militares do exército francês ou ir para o exterior, Yoccoz escolheu a segunda opção. “Inicialmente, isto significava para a maior parte das pessoas ir lecionar em escolas – ou trabalhar como engenheiro ou médico – na África. Com o fim do império colonial francês, as pessoas começaram a diversificar: tenho amigos que foram para a China, para a Inglaterra, para o Canadá, para os Estados Unidos; dos meus irmãos, um foi para a Malásia e outro para a Noruega – só para vocês terem uma ideia da amplitude”, contextualizou o matemático em seu depoimento ao livro “IMPA 50 anos”.

O pesquisador chegou ao instituto brasileiro em 1981. “Havia um acordo entre o IMPA e o governo francês que nos permitia trabalhar nesse esquema. Em geral, havia sempre um ou dois matemáticos franceses aqui, nunca mais do que dois nesse programa ao mesmo tempo. Quando cheguei, um deles já estava saindo e outro sairia dali a alguns meses; eram Jean-Pierre Françoise e Étienne Ghys (…)”, contou.

Jacob Palis, Jean-Christophe Yoccoz, Yacob Sinai e Wellington de Melo

Primeiro grande evento internacional realizado pelo IMPA, em conjunto com a Academia Brasileira de Ciências (ABC), o Simpósio Internacional de Sistemas Dinâmicos reuniu 40 pesquisadores estrangeiros – da Argentina, Colômbia, Estados Unidos, México, Peru, Uruguai, França, Holanda e Inglaterra – e nacionais na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador, em 1971. 

A ocasião foi importante para a construção de laços entre os acadêmicos brasileiros e internacionais. “Sempre tivemos essa tradição. Mas, por volta da década de 70, vários colegas passaram a enxergar a cooperação científica nacional e internacional como algo fundamental não apenas para o desenvolvimento do IMPA mas da matemática e ciência brasileira. Essa interação, seja através de viagens, projetos, acordos ou eventos, criou no IMPA um ambiente agradável, estimulante e de muita criatividade científica, que dá ao seu corpo de pesquisa não só gosto, mas verdadeira paixão pelo trabalho”, comentou Jacob Palis, pesquisador emérito e ex-diretor-geral do IMPA.

Internacionalização consolidou-se através das décadas, com programas e convênios

O que já era tradição começou a se formalizar durante a gestão de Palis, que assumiu a direção do instituto de 1993 a 2003. No período, o matemático foi também secretário-geral (1991-1998) da União Matemática Internacional (IMU, na sigla em inglês). Com o cargo, o IMPA passou a sediar a organização, o que resultou em um aumento expressivo no número de pesquisadores visitantes. Poucos anos depois, de 1999 a 2002, Palis exerceu a presidência da IMU, ocupando um lugar de destaque no cenário mundial. 

“Quando fiz parte do comitê executivo da IMU, buscamos ampliar a  sua relação com outras ciências, tendo como foco levar o desenvolvimento matemático a todas as partes do mundo, com ênfase especial nos países em desenvolvimento. Nesse sentido, acredito que isso possibilitou uma abertura maior da internacionalização do IMPA, pois entre 1991 a 1998, período no qual fui secretário geral da entidade, o IMPA foi sede da secretaria da IMU”, relembrou o pesquisador.

Com o objetivo de formalizar e facilitar a antiga cooperação entre o instituto e a França, Palis criou, em 2000, a Rede Franco-Brasileira de Matemática, estrutura que conta com um programa de mobilidade bilateral e workshops intensivos para jovens pesquisadores. Uma das atividades recentes promovidas pelo programa foi o “1st Joint Meeting Brazil-France in Mathematics”, evento que reuniu destacados pesquisadores dos dois países para discutir temas de ponta em matemática, em julho de 2019, na sede do instituto.

Confraternização de participantes do 1st Joint Meeting Brazil-France in Mathematics, em julho de 2019

Em 2006, a criação da Unidade Mista Internacional UMI/IMPA através de um acordo entre o instituto e o CNRS fortaleceu ainda mais a parceria. Renomeado posteriormente para International Research Laboratory J-C Yoccoz, o acordo permite aos matemáticos do CNRS ou de qualquer universidade francesa visitar o IMPA por um período de um ano e colaborar com colegas brasileiros, com todos os custos cobertos pelo CNRS e suas instituições.

Mas a cooperação científica internacional não se estendeu somente à França. A criação da União Matemática da América Latina e do Caribe  (UMALCA), que aconteceu após reunião sediada no IMPA também durante a gestão de Palis, em 1995, facilitou consideravelmente o diálogo dos matemáticos destas regiões. 

Esforço por interlocução internacional permitiu grandes avanços ao IMPA

As diversas iniciativas e programas que o instituto construiu ao longo de suas quase sete décadas de existência resultaram em um ambiente dinâmico, de forte interação e troca com os principais centros de pesquisa em matemática do mundo. E o instituto não ficou para trás. 

“O esforço feito pelas instituições brasileiras, particularmente o IMPA, no sentido de se inserirem plenamente no cenário internacional de pesquisa em matemática possibilitou o robusto desenvolvimento da área no país, que está na base de conquistas como a promoção do Brasil ao Grupo 5 da União Matemática Internacional e a realização do ICM 2018 no Rio de Janeiro”, frisou o diretor-geral do IMPA, Marcelo Viana. 

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