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30 de maio de 2018, 14:47h

Pesquisadora usa Matemática no combate ao câncer

 

Mesmo antes de nascer, os números já se intrometiam na vida de Tatiana Rocha de Souza. Por um erro de cálculo da mãe, que acreditava estar com sete meses quando viajou de Iraquara (BA) para fazer um curso em Mossoró (RN), a matemática nasceu longe de casa. Mas os 1.170 km de distância não foram suficientes para evitar que Tatiana se considerasse baiana. Hoje, os números intrometidos que tentaram mudar seu destino ganharam uma nova função: são parceiros na luta contra o câncer.

Aos 36 anos, a pesquisadora defendeu, em 18 de maio, a tese de doutorado “Dinâmica tumoral e a noética”, pelo Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A motivação para a escolha do tema foi pessoal. Em 2011, Tatiana descobriu um câncer colorretal com metástase hepática. Ao encerrar o primeiro tratamento, no ano seguinte, decidiu que queria ajudar de alguma forma o paciente oncológico.

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Em fevereiro de 2014, foi aprovada no programa de Matemática da Unicamp. Professora concursada na Universidade Estadual da Paraíba, conseguiu o afastamento para o doutorado, mas o momento de comemoração se tornou delicado em um piscar de olhos: o câncer tinha voltado.

Sozinha em São Paulo, Tatiana pensou em voltar à Bahia para seguir com o tratamento junto à família. Mas os pais, Teresa e Ronaldo, e as irmãs mais novas, Thais e Thisciana, abraçaram o sonho do doutorado. Com a vinda da mãe para Campinas, a matemática conseguiu o apoio que precisava para se dedicar à pesquisa.

Em linhas gerais, a tese trata de modelagens e simulações do comportamento tumoral sem e com tratamento quimioterápico. O grande diferencial está na consideração das intervenções integrativas, como Reiki, acupuntura e terapia craniossacral, além das intervenções padrão.

“A ideia de incluir a medicina integrativa na pesquisa veio do meu próprio tratamento, quando comecei a perceber uma melhora significativa na minha qualidade de vida”, explica Tatiana.

Já as ciências noéticas compreendem um estudo interdisciplinar da mente, da consciência e de vários modos de conhecimento, com foco especial nos campos da ciência, saúde mente-corpo e psicologia, entre outros.

“Estudos têm comprovado que o ser humano é capaz de estimular as próprias células a identificar e combater as células tumorais”, afirma a matemática. Na grande maioria dos casos oncológicos, o fim do tratamento significa apenas o “desaparecimento das células tumorais visíveis ao olho humano”. A cura é efetivada com a colaboração do sistema imunológico ao combate dessas células.

O caminho até a defesa não foi fácil. Durante o doutorado, Tatiana encarou quatro cirurgias, 57 quimioterapias, vários exames e consultas. “Minha família, amigos, colegas de curso e meu orientador, Rodney Carlos Bassanezi, foram essenciais para a decisão de continuar meu doutorado, além de todas as terapias”, agradece.

Apesar do crescimento do número de estudos sobre a colaboração da medicina oncológica integrativa, a prática ainda é muito recente no Brasil. Neste aspecto, a maior contribuição do trabalho de Tatiana é propagar este tratamento complementar em benefício do paciente.

Matemática: uma paixão antiga

O amor pelos cálculos foi cultivado desde a infância, quando Tatiana cogitou seguir a carreira de engenheira civil, como a mãe. A ideia de cursar Matemática só amadureceu no Ensino Médio, por sempre se destacar na disciplina. A confirmação de que havia feito a escolha certa veio na graduação, quando o professor Daniel M. Pellegrino a incentivou a fazer iniciação científica.

Com bacharelado e mestrado em Matemática Pura pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), na Paraíba, o processo natural seria fazer o doutorado em Equações Diferenciais Parciais Elípticas, sua linha de pesquisa. “Só depois da doença decidi estudar a Matemática aplicada ao câncer”, admite Tatiana.

Ao longo da luta contra a doença, ela se deparou muitas vezes com as dificuldades de pacientes que se tratam pelo Sistema Único de Saúde. “Descobri que sempre existirá alguém numa situação pior que a sua, e por isso não me permito vitimizar pelo que passo. Existem muitos que lutam para a descoberta da cura, mas muitos outros insistem nos seus próprios benefícios diante da comodidade de não mudar”, observa.

Recentemente, a luta de Tatiana se intensificou. Ano passado, a irmã Thais descobriu um câncer de mama. “O resultado da biópsia chegou no dia do meu aniversário. Foi mais difícil do que quando descobri meu próprio câncer”, recorda a matemática, que tem múltiplos nódulos nos pulmões.

“Somos confidentes e nos damos força. Também compartilhamos nossas dores e reações, fazendo destes desabafos momentos de descontração. Sempre procuramos ver um lado bom ou, se não conseguimos, buscamos sorrir do sofrimento também.” Juntas, as irmãs criaram uma conta no Instagram para contar como é lutar contra a doença.

Com a conclusão do doutorado, o plano de Tatiana é dar continuidade ao estudo sobre o tema. “Pretendo me envolver em projetos que ajudem o paciente oncológico, palestrar sobre o que estudei, escrever, quem sabe, um livro sobre minha história”, compartilha.

Tatiana pretende intensificar os tratamentos complementares, buscando melhor qualidade de vida para que possa fazer o que mais gosta. Viajar, descobrir novos lugares, comidas e pessoas. Ler um livro e observar o pôr do sol, enquanto degusta um vinho, moderadamente.

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