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27 de novembro de 2017, 16:21h

Documentário sobre a OBMEP abre festival de cinema

Matemática “dá uma trabalheira”, define o estudante Evandro Firmiano da Silva, de 18 anos, morador da área rural da bucólica Dores do Turvo, cidade com menos de 5 mil habitantes na Zona da Mata mineira. Multimedalhista da OBMEP, o rapaz expressa, de modo peculiar, algo que o pesquisador do IMPA Elon Lages Lima também trazia no peito: “A Matemática é uma luta perene pela busca da verdade.”

De gerações diversas e separados por cerca de 300 km, Evandro e Elon estão ligados pela Matemática e são protagonistas do documentário “Derivadas”, realizado pelo IMPA em 2015, com roteiro e direção da equatoriana María Campaña Ramía.

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A partir das histórias de vida de dois adolescentes – Evandro e Dávila de Carvalho Meireles, também multimedalhista – e do experiente matemático do IMPA, que morreu em maio passado, aos 87 anos, o filme busca mostrar o significado da OBMEP.

“Derivadas”, que já participou de festivais de cinema nos Estados Unidos, Equador e França, será exibido na cerimônia de abertura do Festival de Cinema e Vídeo Científico do Mercosul (CineCien), nesta terça-feira (28), em Buenos Aires, e, mais uma vez, na sexta-feira (1), na programação de curtas no Centro Cultural de La Ciencia.

“Foi algo inesperado porque o documentário é de 2015, já passou por festivais. E me deixou muito contente porque está em uma programação de filmes de autores de que realmente gosto muito. Além de falar sobre ciência, são documentários muito interessantes como cinema”, diz María, que fez “Derivadas” ao ser convidada pelo IMPA, em 2013, para dirigir um filme sobre a OBMEP.

Na ocasião, ela recebeu a sugestão de conhecer Dores do Turvo, onde a única escola da cidade acumulava medalhas na Olimpíada de Matemática. Foi até lá, conversou com alunos, professores, percorreu o longo trajeto que separa a instituição das casas de Evandro e Dávila. Até que, em novembro do ano seguinte, retornou para iniciar a filmagem.

“Durante esse processo, fui entendendo que queria fazer um filme que falasse da OBMEP, mas principalmente sobre a descoberta da paixão pela Matemática, através da Olimpíada. Queria, logicamente, falar da beleza da Matemática, do que significa ser matemático e estar em contato constante com números, ideias, conceitos”, detalha a cineasta.

Segundo diz, tal condição era algo ao mesmo tempo próximo e distante. Embora não seja da área, é casada com o matemático Misha Belolipetsky, pesquisador do IMPA, que deu uma sugestão considerada por ela fundamental para o filme: inserir alguém experiente para expressar a força da Matemática, algo que os dois estudantes ainda estavam começando a descobrir.

Assim, foi conversar com Elon Lages Lima, pesquisador que ajudou a formar gerações de matemáticos no IMPA, tanto como professor da instituição como autor de livros da área.

“A experiência dele dá certa complexidade ao filme. Serve como uma pontuação na narrativa, estabelece um diálogo com os meninos. Revela também a dualidade entre o IMPA e a escola, duas fontes de saber tão distantes uma da outra, mas onde se gesta um amor pela descoberta, pela ciência. Para mim, esse paralelo era muito importante”, enfatiza a diretora.

No documentário, disponível no site da OBMEP, a câmera percorre os corredores do IMPA e dialoga com Elon. Depois, segue a estrada de barro que separa a sede de Dores do Turvo da área rural, dentro de um ônibus repleto de estudantes. Revela a rotina na Escola Terezinha Pereira, as aulas do professor Geraldo Amintas e mostra a vida e os significados da Matemática para Evandro e Dávila.

Desde 2011, Evandro e Dávila conquistam medalhas na OBMEP. Este ano, os dois concluem o Ensino Médio e se despedem da Olimpíada de Matemática – o resultado dos vencedores de 2017 foi divulgado na semana passada e ambos garantiram mais uma para a coleção. O vínculo com a disciplina, porém, está mantido. E pode se estreitar na universidade, pois, como medalhistas, eles podem ingressar no PICME, o Programa de Iniciação Científica destinado a estudantes do Ensino Superior.

“Quando os conheci, tinham 14 anos. Agora têm 18. Imagino que a OBMEP abriu para muitas portas para eles. Agora está na mão deles saber aproveitá-las”, finaliza María.

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