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27 de junho de 2018, 12:04h

IMPA e IMS firmam parceria com foco em acervo fotográfico

Rua do Ouvidor, em 1890. Foto de Marc Ferrez 

Karine Rodrigues

Imagine passear por uma rua do Ouvidor repleta de perfumarias, vitrines com a última moda em Paris, cafés e confeitarias, em um vai e vem sem esbarrões, entre cartolas e coques adornados, como a registrada por Marc Ferrez em 1890. Graças a uma parceria com o IMPA, novas formas de fruição do inestimável acervo fotográfico do Instituto Moreira Salles (IMS) surgirão, como, quem sabe, experiências imersivas em espaços icônicos da história do Rio de Janeiro.

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Prestigiados nas áreas em que atuam, IMPA e IMS assinaram, nesta segunda-feira (25), um termo de colaboração para pesquisas, passo promissor que há de mostrar o quão produtiva e valiosa pode ser a intersecção entre institutos que se dedicam à Matemática e à cultura.

No IMPA: Bruno Buccalon, Julia Giannella, Luiz Velho, Marcelo Viana, Flávio Pinheiro e Sergio Burgi

A colaboração acontecerá por meio do Visgraf, Laboratório de Computação Gráfica do IMPA – criado em 1989, com ampla expertise na área e uma série parcerias nacionais e internacionais com renomadas instituições -, e a Coordenação de Fotografia do IMS.

Com 2 milhões de imagens,o acervo reúne uma das mais importantes coleções do século 19 no Brasil, incluindo a do pioneiro Marc Ferrez (1843-1923), principal fotógrafo do período. Possui, ainda, relevantes arquivos de quase todo o século 20 e a prioridade de incorporar registros do século atual.

Praia de Ipanema em 1895. Foto de Marc Ferrez

Diretor-geral do IMPA, Marcelo Viana louvou a convergência entre as duas instituições. O coordenador do Visgraf, Luiz Velho, considerou a parceria um caminho para validar e transferir à sociedade o trabalho desenvolvido no IMPA. “É uma forma de potencializar a cultura do Brasil. A coleção do IMS é inestimável e, sinceramente, a gente pode fazer coisas sem precedentes”, disse, estimando que o acordo de colaboração há de ser de longo prazo.

O superintende executivo do IMS, Flávio Pinheiro, observou que, diante do volumoso acervo da instituição, é inexorável pensar no impacto causado pelas novas tecnologias. “É um trabalho imenso e um caminho que a gente precisava desbravar. Acho que o georreferenciamento é um começo, algo importante, mas há coisas insuspeitadas pela frente, como o que a inteligência artificial e machine learning podem fazer com as imagens.”

Armazém Caravella, na rua Catumbi, em 1922. Foto de Augusto Malta

Plataforma permite experiência imersiva

Dedicado à Matemática computacional aplicada à mídia, área marcada pela integração, o Visgraf realiza pesquisas em campos diversos, como visualização e processamento de imagem, animação e multimídia e realidade virtual e aumentada, com projetos que passam pela elaboração de narrativas audiovisuais, sistemas de realidade virtual, plataformas de monitoramento e visualização de dados, entre outros.

Para quem ainda estranha a ligação entre a Matemática e a fotografia, vale saber que algoritmos podem ser desenvolvidos, por exemplo, para se extrair informações a partir de imagens. Técnicas podem permitir que computadores reconheçam faces ou objetos em bancos de dados de grandes dimensões, como o do IMS.

“Essencialmente, você tem um modelo matemático que é uma abstração de representações de algum tipo, e tudo gira em torno disso. A área em que a gente trabalha no Visgraf vai desde coisas muito técnicas, como essa parte de super-resolução, pegar uma imagem e conseguir ampliá-la além do limite que a foto foi captada pelo equipamento, até analisar a imagem e entender como articulá-la em outros contextos. Uma foto tem metadados que podem ser referenciados”, observou Velho.

Avenida Central, atual Rio Branco, em 1906. Foto de Marc Ferrez 

Pelo acordo, o IMPA cedeu em comodato ao IMS um equipamento único no Brasil, desenvolvido pelo Google, que combina vários aplicativos para visualização de conteúdo. O Liquid Galaxy é uma plataforma constituída de telas com ângulo de cerca de 180 graus que permitem uma visão panorâmica de vídeos e fotos, possibilitando tours interativos, em um ambiente imersivo em 3D. Ele será usado em pesquisas e demonstrações, adiantou Velho, a respeito da inovação doada ao IMPA pela empresa americana End Point e já transferida à Reserva Técnica Fotográfica do IMS, na Gávea, zona sul carioca.

Sobre o equipamento, Sergio Burgi, coordenador de fotografia do IMS, destacou o enorme potencial de interação quando se reúne, em uma plataforma comum, várias bases de dados, como fotografias e cartografias, entre outras. “São muitas as possibilidades ainda não são efetivas nos acervos. É um desafio absurdamente novo no campo do processamento da informação conciliar metadados intelectuais e técnicos”, enfatizou.

Gradil do viaduto Santa Ifigênia, São Paulo, em 1945. Foto de Thomaz Farkas

A gestão da parceria será acompanhada pela pesquisadora assistente do Visgraf, Julia Giannella, e pelo assistente técnico da Coordenação de Fotografia do IMS, Bruno Buccalon. Com o acervo notável do IMS e os recursos do IMPA,  a colaboração há de ser longa e produtiva, estima Velho.

“Vai funcionar muito bem e com rigor científico. Acho que estamos em um momento holístico da humanidade, de junção das ciências, exatas e sociais. Este tipo de parceria que estamos fazendo aqui é inovadora. O céu é o limite”, concluiu, animado, o coordenador do Visgraf, sobre os resultados do acordo.

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