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20 de outubro de 2017, 08:36h

Revista 'Crescer': Seu filho não gosta de matemática?

Crédito: Bruno Marçal/Editora Globo

 
Reprodução da revista Crescer
 
Álgebra. Raiz quadrada. Logaritmos. Trigonometria. Se você se arrepia só de ouvir esses nomes, provavelmente não tem boas lembranças das aulas de Matemática. E agora, que chegou a vez do seu filho enfrentar as mesmas lições e provas, lá no fundo você teme que ele passe pelo mesmo aperto, não é? Se esse é o seu caso, você não está só. A cozinheira Mariana Tavares Rufino, 37 anos, mãe de Maria Isabel, 7, tem péssimas memórias da matemática. “Me formei em Direito só para fugir dos números. Desde pequena tenho trauma, por isso minha mãe já contratava um professor particular logo no começo do ano”, lembra. Hoje, ela se esforça para não passar a má experiência para a filha. “Esses dias Maria Isabel chegou com uma nota baixa em matemática e eu tentei ficar calma, percebi que ela errou por pura falta de atenção. Nunca falei que eu ia mal, tento não demonstrar a minha ansiedade”, completa.
 
Sim, a aflição dos pais pode pesar sobre as crianças. Por esse motivo, frases como: “Eu nunca aprendi” ou “Você vai ver como é difícil”  não vão ajudar seu filho em nada. Do mesmo modo, se você foi uma criança que “a-ma-va” matemática e ia bem sem muito esforço, se gabar ou subestimar as dificuldades do seu filho pode atrapalhar. “Se o pai pensar que a criança é igual a ele na dificuldade, não vai permitir que ela avance. E se achar que vai ter a mesma facilidade, ficará extremamente exigente”, explica a professora Neide Noffs, diretora da faculdade de Educação da PUC (SP).
 
Surpreendentemente, não importa qual seja o histórico dos pais com a matemática, as crianças não têm uma predisposição negativa em relação à disciplina quando vão para a escola. Na verdade, até os 9 ou 10 anos, os pequenos normalmente não mostram temor algum em relação aos números. Muito pelo contrário. “No primeiro ciclo do ensino básico, as crianças são bastante receptivas à matemática. Elas se encantam com o processo de contagem, com a maravilha de descobrir que os números são infinitos, aprendem com alegria a fazer somar”,  explica Marcelo Viana, diretor geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa). As dificuldades começam a aparecer por conta de dois fatores concomitantes. Ao mesmo tempo que assuntos mais complexos entram em pauta, especialmente a partir do terceiro ano, como frações, números com vírgula, multiplicação e divisão, os conteúdos vão ficando completamente deslocados do dia a dia. E isso torna a aprendizagem desestimulante.
 
Pense só: é fácil ensinar uma criança a contar. “Quantos brinquedos há naquela caixa?” “Quantas pessoas aparecem nessa foto?” Há várias oportunidades de trabalhar o conceito no dia a dia. Mas não é tão simples encontrar formas de abordar frações, por exemplo. E mais adiante a situação piora: tem matrizes, raiz quadrada, equação de terceiro grau. É difícil encontrar sentido em assuntos tão alheios à vivência das crianças. “É um grande desafio manter o vínculo entre o que é ensinado e o tipo de experiência das crianças na vida real. Esse esforço de tornar a matemática concreta é enorme e, de um modo geral, nós, professores, às vezes fracassamos”, diz Viana. E isso se reflete na performance dos alunos. Uma pesquisa feita pela Fundação Lemann com dados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) revelou que os estudantes de escolas de elite no Brasil têm desempenho em matemática inferior em relação aos alunos de nível socioeconômico médio de nações desenvolvidas. A defasagem equivale a um ano de estudos.
 
Buscando caminhos
 
Por isso, escolas têm buscado formas de abordar o conteúdo que despertem o interesse das crianças. Em São Paulo, a professora de música Alessandra Nuñez, do Colégio Santa Maria (SP), propôs que cada sala compusesse uma música sobre a tabuada. Cada turma ficou com um número (do dois ao nove) e ela sorteou um ritmo musical para a canção. “Pesquiso sobre princípios da neurociência e vi vários trabalhos que aliaram a memorização à música”, explica. As crianças gravaram as canções no estúdio da escola e levaram para casa um CD. Alessandra relata que, durante as provas, alguns professores contaram que os alunos recorreram às canções para lembrar das multiplicações. Bom exemplo de como tornar a matemática mais divertida.
Além disso, há vários estudos sobre processos de aprendizagem que abrem novos caminhos para domar os números. Uma pesquisa da Universidade de Copenhagen (Suíça) comprovou que as crianças aprendem melhor a matemática quando estão em movimento. Participaram do estudo 165 alunos do primeiro ano de três escolas diferentes. Um grupo usou o corpo todo durante as aulas, reproduzindo o formato dos números com o próprio torso. Outro grupo, mais sedentário, usou blocos de montar para ajudar com as operações. E um terceiro foi pelo caminho mais tradicional, com papel e lápis para as contas. As crianças do primeiro grupo se saíram melhor nos testes que as do segundo que, por sua vez, se saíram melhor que as do terceiro, o que mostra como o corpo pode ser ferramenta para aprender.
 
Para a professora Kátia Smole, coordenadora do Mathema, instituição que  desenvolve métodos pedagógicos para melhorar o ensino da matemática, usar o corpo é importante principalmente para as crianças pequenas, que não conseguem ficar muito tempo paradas, mas pode trazer benefícios também aos mais velhos. “Estudos mostram que as crianças aprendem com todos os sentidos, inclusive o tato. Se movimentar facilita o entendimento de conceitos como ângulos, noções de grandezas de medidas, espaço, tempo, ritmo”, explica Kátia.
 
É claro que para se sair bem nos exercícios é preciso primeiro entender o enunciado. Mas ter um nível adequado de compreensão de texto nem sempre basta. Kátia se lembra de uma aluna que empacou em uma questão da prova que pedia para encontrar a diferença entre 238 e 225. Quando a professora perguntou o que estava acontecendo, ela disse que precisava saber se o número cinco era par ou ímpar e a mestra não entendeu nada: não era isso que o enunciado pedia. Mas quando se aproximou, viu que a menina tinha levado a palavra diferença ao pé da letra: estava listando o que havia de igual e de destoante entre os dois números. Ela escreveu, por exemplo, que ambos começavam com dois, mas que um tinha 20 e outro 30. Assim, precisava saber se os dois eram pares ou não. “Diferença é tudo: olhar um para o outro, listar o que é parecido com o que não é parecido. Só na matemática ‘diferença’ significa subtração. Por isso, saber ler o texto é condição, mas não é suficiente”, diz Kátia. Para ela, não basta saber o português: as crianças precisam ser matematicamente alfabetizadas.
 
É preciso ampliar a visão que se tem da matemática. Ela não se limita às equações que fazem as crianças – e os adultos – quebrarem a cabeça. Desenvolver o raciocínio matemático é ter lógica. É estabelecer relações entre objetos que aparentemente não estão ligados, é reconhecer e planejar as etapas de um processo, é ter noção de quantidade na hora de fazer as compras do supermercado, é saber lidar com dinheiro. “A matemática tem que aparecer uma parte da nossa vida”, completa Kátia.
PRECISA DECORAR?
Muitos pais – e às vezes até as crianças – questionam a necessidade de saber de cor a bendita tabuada. Com o celular na palma da mão – que tem calculadora – aparentemente não faz sentido ter que guardar quanto é 6 x 8 ou 9 x 3. No entanto, a memorização tem outros objetivos. “Nossa maneira de raciocinar como seres inteligentes é uma combinação de pensamentos elevados, criativos, com processos mecânicos. Esses raciocínios automáticos liberam o cérebro para se dedicar a outras atividades mais complexas”, explica Viana. Em outras palavras: quando se é capaz de resolver operações simples como as multiplicações da tabuada, sobra mais espaço para o cérebro se dedicar a questões mais difíceis.
 
Contar nos dedos pode?
 
Embora alguns professores desencorajem a prática, uma pesquisa da Universidade Sheffield Hallam (Reino Unido) comprovou que usar os dedos durante os exercícios pode contribuir positivamente com a aprendizagem. O estudo, que acompanhou 137 alunos entre 6 e 7 anos, constatou que aqueles que aprenderam por meio de brincadeiras baseadas em símbolos numéricos, como dominó, ou que usaram os dedos para contar durante as atividades se saíram melhor do que as crianças que seguiram o script tradicional da sala de aula. Mas não é só: aquelas que tiveram a oportunidade de participar das atividades numéricas e também de contar nos dedos tiveram um desempenho superior a todas outras. “Nosso sistema de numeração é decimal porque temos 10 dedos. Em quase todas as civilizações do mundo, o número 1 lembra um dedo. Portanto, é mais do que natural usar os dedos para contar”, explica Kátia.
 
O papel dos pais
 
Não cabe à família tomar o lugar dos professores, tentando ensinar a criança o que está nos livros. Mas, sim, mostrar como os números fazem parte do dia a dia. Veja como fazer isso:
 
– Na padaria: Peça para seu filho ajudar a calcular quantos pães é preciso comprar. Quantas pessoas são?
 
Quantos pães cada uma vai comer?
 
– No prédio: Se for de escada, exercite as multiplicações. Quantos degraus há em cada lance? São quantos lances por andar? E quantos andares têm o prédio? Se for de elevador, vale fazer contas com os andares.
 
– Na pizzaria: Essa é clássica. Quantas fatias têm a pizza? Se você comeu dois pedaços, qual é a fração correspondente? E meia fatia, qual fração da pizza representa?
 
– Na loja: Peça ajuda ao seu filho para calcular o troco das compras. É uma boa chance tanto de treinar adições e subtrações quanto de trabalhar números com vírgulas.
 
– Na cozinha: Preparar receitas é uma boa forma de acostumar seu filho a trabalhar conceitos de medida. Uma xícara de leite, meia de farinha, três quartos de um tablete de manteiga. Quer aplicação mais prática – e deliciosa – para as  frações do que essa?
 
Reportagem de Naíma Saleh