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12 de abril de 2017, 20:27h

Matemática na ponta dos dedos

Alunos cegos do Instituto Benjamin Constant participam da OBMEP e estreitam laços com a ciência dos números por recursos táteis

O burburinho típico de ambiente escolar, no Instituto Benjamin Constant (IBC), na Urca, vem acompanhado de uma imagem predominante: estudantes de mãos dadas ou abraçados circulando no pátio, corredores e salas de aula. O tato, que aproxima e favorece as conversas e brincadeiras, ali é também o principal acesso à Matemática. Presente em qualquer instituição de ensino básico, a disciplina adquire uma feição peculiar em um centro de referência nacional em deficiência visual: é compreendida, especialmente, pelas pontas dos dedos.

É por meio do tato que os estudantes do IBC – cegos, com baixa visão ou deficiência múltipla que afeta a visão – percebem as grandezas e as formas das figuras planas e geométricas e despertam para o desafiador mundo da Matemática. Criado em 1854, o instituto adotou uma nova forma de estreitar os laços dos alunos com a ciência dos números, figuras e funções a partir de 2005. Foi quando se engajou na então recém-criada Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), organizada pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA). De lá para cá, em todo o Brasil, cerca de 20 mil estudantes com deficiência visual – cegos ou com baixa visão –, em média, se inscreveram na OBMEP.

O percurso trilhado desde a primeira edição do torneio, em 2005, Paula Márcia Barbosa conhece muito bem. Professora do Instituto Benjamin Constant até 2010 e, desde então, responsável pela coordenação do Setor de Adaptação de Livros Didáticos e Paradidáticos da instituição, ela assumiu, juntamente com integrantes do comitê de provas da OBMEP, a tarefa de transformar as questões em tinta em combinações dos seis pontos em relevo do sistema braille. Desde então, anualmente, ela vai a São Paulo e, por três dias, acompanha a materialização dos testes na Fundação Carlos Chagas, responsável pelo serviço de impressão.

Além da versão em braille, o exame é produzido em tinta. Desta forma, os deficientes visuais podem solicitar o acompanhamento do “ledor”, para facilitar a compreensão do que é pedido no teste. No caso dos alunos com baixa visão, as folhas são impressas com caracteres ampliados, facilitando, assim, a leitura. “Há um processo de adaptação. É preciso ser claro, para permitir a compreensão do que está sendo pedido, mas sem dar ‘cola’”, explica Paula.

Fácil não é, dizem estudantes do Instituto Benjamin Constant que já participaram da OBMEP, mas pode ser um estímulo para aprofundar os conhecimentos em Matemática.  Gabrielle Bazet Caetano, 15 anos, que nasceu com baixa visão e ficou cega após cair de bicicleta, conta que a dificuldade é maior em questões com figuras geométricas: “Fica mais complicado, porque precisamos imaginar a figura, o desenho”, explica. Cego em razão do nascimento prematuro, Rafael Dias Antunes, 15 anos, já participou de oficinas no IBC para se preparar melhor para a OBMEP: “A prova exige bastante, mas é bom ser desafiado. E eu gosto de Matemática.”

Davi Silas, 21 anos, também do 8º ano, tem predileção por música, mas nem por isso é daqueles que curtem arte e tem aversão às disciplinas mais focadas em números. “Sou tecladista, toco de ouvido. Mas também gosto de Matemática. Acho até que há uma ligação entre as duas áreas”, diz ele, morador de Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Depois da aula, tem de “voar” para chegar no horário na Dataprev, onde trabalha como jovem aprendiz.

Por mais de 30 anos, esses recursos táteis fizeram parte do dia a dia de Paula Márcia. Até hoje, ela guarda, em um armário repleto de apostilas em braille – fruto de um grupo de pesquisa em Matemática,  da UFRJ –, uma série de objetos que auxiliam os alunos do IBC:  triângulos e retângulos de papelão, esferas de isopor, cones e objetos educacionais que facilitam a compreensão, como o soroban, ábaco adaptado para cegos, com o qual é possível fazer o cálculo das operações fundamentais da Matemática, e o geoplano, placa de madeira com pregos, usada para ensinar geometria plana. 

Percepção aguçada

“É impressionante como eles manuseiam o soroban com rapidez”, conta Paula, enquanto remexe em outra caixa com material de aulas passadas. Um deles, um boneco de papel usado para explicar o conceito de simetria, que a fez relembrar de um episódio em sala de aula: “Um dia, ao dobrar a figura ao meio e passar para cada aluno, para que percebessem como as duas partes do corpo eram exatamente iguais, um menino retrucou: não são iguais, professora: o lado direito não tem coração, como o lado esquerdo”, relata, exemplificando como, às vezes, eles “veem” mais longe.

Os objetos, aliás, deveriam ser usados mais frequentemente em aulas de Matemática ministradas em escolas de ensino regular, opina o professor Edney Dantas de Oliveira, no IBC desde 2014. Segundo ele – que divide seu tempo com aulas em escola privada e da rede municipal –, esse tipo de recurso torna a disciplina menos abstrata e mais próxima do cotidiano, algo importante para ajudar a reduzir o mito de que a Matemática é um “bicho de sete cabeças”.

“Quando terminei a graduação em Matemática, em 1998, batia-se muito na tecla da importância do uso de material concreto, que aproxima o conceito da realidade do aluno, seja cego ou não”, recorda. Edney integrou a primeira turma do Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional (Profmat), do IMPA.

Para Fábio Garcia Bernardo, coordenador de Matemática do IBC, os alunos da instituição são um exemplo de superação e a participação deles na OBMEP contribui para a integração social. “Apesar das limitações de visão e das dificuldades que vão além da questão visual, muitos querem participar da prova, porque assim se sentem incluídos. Tem gente que não tem uma vida fácil, mora longe, sai muito cedo de casa para vir às aulas”, observa.

Segundo ele, todos os 84 alunos do Instituto Benjamin Constant do 6º ano ao 9º ano já estão inscritos na OBMEP 2017, cuja primeira fase será em 6 de junho. “Do total, 46 farão a prova em braille, porque são cegos, e 38, com baixa visão, usarão a versão de texto ampliado”, detalha Fábio, que diz fazer o possível para promover a aproximação dos alunos com a Matemática. Com a experiência de quem já atuou em escolas públicas e privadas e, desde 2013, se dedica ao Benjamin Constant e ao doutorado em Matemática na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ele investe em recursos para facilitar a apreensão dos conceitos, como materiais em alto relevo.

“O importante, seja em escola regular ou escola especial, é a criatividade”, resume Edney.