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21 de julho de 2017, 13:42h

IMO é palco de discussão sobre diversidade na Matemática

O dado é chocante: nas grandes empresas americanas, há mais CEOs chamados John do que mulheres que ocupam o mesmo cargo. A informação integra uma lista de números que revelam a desigualdade de gênero citada pela linguista Branca Vianna, moderadora da mesa-redonda “Expanding diversity in math and science: what it is and how to go about it”, realizada nesta quinta-feira (20), para participantes da Olimpíada Internacional de Matemática (IMO, na sigla em inglês), no Rio.

“É impressionante existir, em uma função, mais Johns do que todas as mulheres juntas no mesmo cargo, não importa qual seja o nome delas”, disse Branca para a plateia formada por cerca de 200 competidores da IMO, de várias partes do mundo. O evento teve cinco debatedoras, apresentadas como exemplos de pioneirismo em suas áreas: Carolina Araújo, pesquisadora do IMPA; Tábata Amaral, confundadora do Movimento Mapa Educação; Larissa de Lima e Deborah Alves, medalhistas da IMO e graduadas na Universidade Harvard; e Elaine Lizeo, presidente regional do Conselho Educacional do MIT (Massachusetts Institute of Technology).

Branca enfatizou que a Matemática é, entre as Ciências, a área na qual a participação feminina é menor. Citando dados da American Mathematical Society (AMS), ela ressaltou que a proporção é de apenas 15% e pouco tem mudado ao longo da última década. Na IMO 2017, apenas 65 dos 623 competidores são mulheres.  “Mas essa desigualdade não existe apenas na Ciências. No Congresso americano, por exemplo, apenas 20% das representantes são mulheres. E, no Brasil, é ainda pior: 10%”. 

Pesquisadora e professora do IMPA, Carolina Araújo disse já ter vivenciado situações nas quais se deparou com barreiras, pelo simples fato de ser mulher. “Ela existe. Às vezes, é transparente, você não vê, mas ela está lá”, afirmou a professora, que faz parte da organização do Encontro de Mulheres Matemáticas, a ser realizado, no ano que vem, no Rio, durante o Congresso Internacional de Matemáticos.

Assim como Carolina, a paulista Tábata Amaral sabe muito bem como esse tipo de barreira pode interferir no sucesso de uma pessoa. Ela já foi questionada várias vezes se era boa o suficiente pelo fato de ser mulher. Por isso, valoriza ainda mais o apoio recebido para continuar adiante, apesar de ser mulher. Medalhista da Obmep (Olimpíada Brasileira de Matemática de Escolas Públicas), ela saiu da periferia de São Paulo, fez graduação em Harvard e, de volta ao Brasil, ajudou a fundar o Movimento Mapa Educação.

Segundo ela, as mulheres têm oportunidades, como participar de olimpíadas de conhecimento como a IMO e entrar em universidades renomadas, mas esbarra na falta estímulo. “Às vezes, elas têm acesso, mas não se sentem no direito porque tem a sociedade inteira falando que você não é boa o suficiente”, diz.

Apesar de amar matemática desde a época de escola, a cearense Larissa de Lima, que integrou a equipe brasileira em duas edições da IMO e trouxe uma medalha de prata em 2002, contou que, muitas vezes, se sentia um peixe fora d’água naquele universo predominante masculino. Segundo ela, para mudar esse cenário, precisamos imaginar que é possível, sim, construirmos uma outra realidade

“Ter ambientes onde você está rodeada de outras mulheres ajuda na imaginação. Você achar que é algo que você pode fazer e pode ser bem-sucedida. Você cria esses espaços, você tem mais mulheres participando e eu acredito que elas vão ter resultados”, declarou, concluindo que a desigualdade é uma barreira cultural e existe também, por exemplo, em questões relacionadas à raça. “Você tem que imaginar que é possível. Tanto a pessoa quanto a própria sociedade”.

Para estimular o aumento da participação feminina, o Impa sugeriu à IMO a criação do troféu IMPA Meninas Olímpicas, que será entregue a cinco participantes do sexo feminino que mais contribuírem para a pontuação de suas equipes. O prêmio será incorporado à competição e, este ano, será dado em homenagem à matemática iraniana Maryam Mirzakhani, única mulher a receber a Medalha Fields, que morreu sexta-feira (14), aos 40 anos, de câncer.