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8 de janeiro de 2018, 09:50h

História inspiradora: Gerson Tavares, São Paulo (SP)

Primeiro tetracampeão da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas, Gerson Tavares, hoje com 27 anos, morou até o ano passado com a família em Vila Rica, Zona Leste de São Paulo, na casa que o pai construiu e, anos depois, ampliou com a ajuda dos filhos. Medalhista de ouro na OBMEP entre 2005 e 2008, Gerson agora vive sozinho na Vila Prudente, também na Zona Leste.
Formado em Engenharia Elétrica pela Universidade de São Paulo (USP), ele recebeu este ano a convocação de um concurso público prestado em 2014. “Agora sou engenheiro na SABESP. Estou no período de experiência ainda, mas estou gostando. Trabalho com a automação dos processos de tratamento de esgoto”, diz.

Gerson também participou do Projeto Espacial Brasileiro, programando sistemas de lançamento. Estudante da rede pública ao longo de toda a vida escolar, ele credita o sucesso de sua carreira à OBMEP. “Para chegar aqui, o primeiro passo foi dado na minha inscrição na Olimpíada, em sua primeira edição.”
A história do jovem paulistano na OBMEP começou aos 15 anos, em 2005, na primeira edição da competição. Ele estudava na Escola Estadual Deputado Norberto Mayer Filho, também na Zona Leste, e estava na 8ª série, atual 9º ano do Ensino Fundamental. Longe de se destacar na sua turma, não era do tipo sabe-tudo. Por isso tomou um susto ao ver seu nome no topo da lista de resultados da primeira fase: “Foi uma grande surpresa ter tirado a maior nota da escola, nunca tinha sido destaque em sala”.
A preparação para a prova foi praticamente nenhuma. Gerson não tinha acesso à internet nem podia passar o tempo livre na biblioteca do colégio. “Fui com a cara e a coragem”. Ele se interessou pelas questões da prova por serem desafiadoras e diferentes. “Os problemas da olimpíada faziam a gente pensar. Não era só aplicação de fórmulas – você tinha que dar um passo além. Essa foi a parte mais interessante”.

Surpresa com a medalha de ouro

Foi a OBMEP que despertou o interesse pela Matemática e o levou a buscar conteúdos mais avançados. A novidade, aliada ao desafio, foram a chave do estímulo de Gerson, que passou para a segunda fase. Desta vez, a prova foi feita em outra escola, o que para o então adolescente do subúrbio foi um convite ao passeio pela cidade e a sair da rotina. “Nunca tinha feito nada fora do que era cobrado em sala, nem ido a outra escola”, lembra. Entre a primeira e a segunda fases da Olimpíada, procurou livros didáticos de anos mais avançados, em busca de reforço. Como esta era a primeira edição, não havia histórico de provas anteriores para basear os estudos. Tateava no escuro em busca de informação.

“DEI MEU MELHOR, MAS NUNCA TIVE ESPERANÇAS DE QUE CONSEGUIRIA ALGO. SIMPLESMENTE NÃO TINHA EXPECTATIVAS”

Chegado o dia, Gerson se deparou com questões dissertativas em que deveria explicar a ordem do pensamento, algo que nunca tinha visto em um teste de matemática. Com a confiança abalada, saiu da prova achando que esta tinha sido sua última participação: “Dei meu melhor, mas nunca tive esperanças de que conseguiria algo. Simplesmente não tinha expectativas.” No entanto, novamente apareceu no topo do ranking, desta vez com a palavra mágica ao lado de seu nome: “ouro”. “Pensei: isso está errado, não é possível! Só aceitei quando vi que eram 100 medalhas de ouro”, lembra.
A medalha da OBMEP é uma porta de entrada para o Programa de Iniciação Científica (PIC). Nele, os estudantes conhecem um novo tipo de matemática, que estimula a criatividade, o raciocínio, o poder de iniciativa e a troca de conhecimentos. A professora Ana Catarina Hellmeister, membro do comitê gestor do programa, acompanha a vida de Gerson desde sua primeira medalha, e o chama de “talento excepcional” e “menino de ouro”. Para ela, o PIC é o “maior prêmio que a OBMEP oferece” aos 6,5 mil alunos premiados com medalhas. Organizados em salas virtuais, os alunos debatem em fóruns a resolução de problemas e, em encontros presenciais, são reunidos e avaliados.
A medalha de 2005 foi apenas a primeira das quatro recebi-
das pelo paulistano. A partir dela, Gerson fez questão de sempre participar da Olimpíada, mas sem que nenhum colega de turma soubesse. “Não contava para ninguém que tinha conseguido as medalhas, porque não queria despertar ciúme nem bullying. Mas logo o diretor descobriu e contou para todo mundo, e a recepção dos colegas foi melhor do que eu pensava”, lembra Gerson. No entanto, ele admite que os “melhores amigos” saíram dos anos em que fez parte do PIC.
Com um conteúdo avançado em relação ao da escola, a iniciação científica da OBMEP se transformou em sua preparação para as edições seguintes. Sempre inseguro, a cada nova Olimpíada Gerson achava que seria sua última. “Lembrava que havia alunos mais velhos e sempre pensava em como o Brasil era grande. Era muita gente competindo comigo.” Ao mesmo tempo, fazia as provas cada vez com mais afinco.

“SOU MUITO GRATO A TUDO QUE A OBMEP ME RENDEU, E QUERO, SEMPRE QUE POSSÍVEL, RETRIBUIR”

Tríplice jornada
No ano seguinte à estreia na competição, trocou de colégio e começou a frequentar o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), onde fazia curso técnico em eletrônica na parte da tarde. O restante do dia era dividido entre o Ensino Médio, em uma escola estadual à noite, e um estágio de manhã – o que dificultava seus treinos olímpicos.
Enquanto crescia na matemática, Gerson também via aumentar o interesse por engenharia. O curso técnico e o estágio lhe davam a noção prática das contas que tanto amava. Ao mesmo tempo, exigiam muito de outro tipo de cálculo: o do tempo. Foram três anos de uma rotina que começava às 5h e só acabava às 23h .
No PIC, Gerson também tomou conhecimento das competições regionais e passou a ser um “atleta da matemática”. Em 2007, participou das olimpíadas paulistas e, mais uma vez, ganhou ouro. Chamou a atenção de diretores de colégios particulares da capital paulistana, mas rejeitou convites e bolsas – queria se manter em escola pública para poder continuar participando da OBMEP. Aceitou apenas participar das aulas de preparação para competições matemáticas. Nas noites de sexta ainda tinha energia para, depois da rotina semanal pesada, participar das aulas intensivas, que pôde frequentar gratuitamente graças ao desempenho na OBMEP.
O esforço foi recompensado em 2008, quando se formou no ensino técnico foi efetivado na empresa onde estagiava e recebeu a quarta medalha de ouro da OBMEP, tornando-se o primeiro tetracampeão da competição. “Foi uma tensão danada, porque sabíamos que seria um recorde na olimpíada”, lembra Ana Catarina Hellmeister, que vibrou quando soube do resultado.

Retribuição
Após concluir o Ensino Médio, Gerson passou para o curso de Engenharia Eletrônica na USP, onde se formou “com louvor” em 2014. Mas não se desvinculou da OBMEP. Foi monitor do PIC e do Projeto de Melhoria do Ensino de Matemática, da USP, até 2014.
Desde 2011, ele ajuda Ana Catarina a organizar a 2ª fase da OBMEP em São Paulo, como segundo apoio secretarial. “É algo que gosto muito de fazer. Saber que as provas passam por minhas mãos me ajuda a matar um pouco da saudade da Olimpíada, não só das questões, mas de tudo e de todos que conheci. Sou muito grato a tudo que a OBMEP me rendeu, e quero retribuir.”