Navegar

22 de janeiro de 2018, 12:19h

História inspiradora: Alessandra e Marcos Paulo, Ceilândia (DF)

Amor, substantivo masculino singular. No Aurélio, afeição viva por alguém ou por alguma coisa. Para os professores Alessandra Lisboa e Marcos Paulo Barbosa, do Centro de Ensino Médio (CEM) 09 de Ceilândia, a definição é perfeita. O amor – e a admiração – de um pelo outro salta aos olhos. E a afeição deles pelos números também. O que a matemática uniu obstáculo nenhum separa. Em bom português, eles estão mudando a vida de centenas de jovens de uma região carente da capital federal.

“Não temos patrocínio, nosso trabalho é voluntário.” O colégio cede uma sala, já que o projeto conta com todo o apoio do diretor do CEM 09, professor José Gadelha Loureiro. O resto é a dedicação dos alunos – conta Alessandra, criadora do projeto Matemática Todo Dia, que, na OBMEP 2015, teve 30 alunos entre os 43 classificados para a 2ª fase da Olimpíada. 

O resultado do Matemática Todo Dia fez do CEM 09 um campeão na Olimpíada. Dos 380 participantes, entre 2007 e 2015, 145 foram premiados na OBMEP. No ano passado, 14 conquistaram uma vaga no Programa de Iniciação Científica (PIC). O trabalho de Alessandra e Marcos Paulo contabiliza ainda 91 jovens aprovados em universidades públicas – 86 na Universidade de Brasília, quatro na Escola Superior de Ciências da Saúde e um no Instituto Federal de Brasília.

E outros 70 estudantes obtiveram bolsa integral do ProUni para fazer curso superior em faculdades particulares. Um dos estudantes conseguiu bolsa integral para medicina.
Ex-alunos do CEM 09, Alessandra e Marcos Paulo resolveram estimular a participação na OBMEP em 2007. Na época, ela era supervisora administrativa e ele dava aulas no Colégio Militar Dom Pedro II, do Corpo de Bombeiros de Brasília.
Alessandra queria fazer algo pelo colégio em que estudou. Marcos Paulo, outro ex-aluno, topou ser voluntário. Em 2007 e 2008, os estudantes conseguiram 14 menções honrosas. Em 2009, a primeira medalha, de bronze. Mas contabilizar o resultado em medalhas ou menções não é a prioridade do Matemática Todo Dia.
“Esses jovens ganharam uma chance que jamais teriam. Antes, pensavam em fazer o vestibular, passar – quem sabe – para alguma faculdade particular e arrumar financiamento para pagar. Agora, já sabem que podem ir para a Universidade de Brasília (UnB) ou outra universidade pública”, orgulha-se o professor.

“ESSES JOVENS GANHARAM UMA CHANCE QUE JAMAIS TERIAM”

Não é conto de fadas. Aos 19 anos, Paulo Victor Reis Moreira já cursa o 6º semestre de matemática na UnB. Medalhista de bronze na OBMEP 2012, obteve pontuação para a universidade antes mesmo de completar o Ensino Médio. Agora, quer retribuir. Mesmo sabendo que seu talento para as ciências exatas poderia levá-lo a uma remuneração melhor, planeja se formar e virar professor.


“Não adianta termos engenheiros, médicos e advogados se não temos bons professores. A base de tudo é a educação. Por isso, quero me dedicar ao magistério”, diz o rapaz.
“Como medir a nossa alegria quando escutamos uma história dessas? É a certeza de que fizemos tudo certo”, diz Alessandra, enxugando as lágrimas ao contar as histórias dos pupilos, que se orgulham de dizer que estudam na “Escola de Talentos”.

Na prática, Alessandra e Marcos Paulo levaram para a matemática os ensinamentos do educador Paulo Freire. Usam elementos do cotidiano dos alunos para transmitir as lições. Criaram jogos específicos para o estudo dos números. Assim, aprender geometria, por exemplo, um bicho-papão para gerações de estudantes, é quase coisa de criança. Um tabuleiro representando uma cidade fictícia, carrinhos de brinquedo, dados e lá estão as noções de espaço que muitos quebram a cabeça para entender.
“Os jogos servem para transformar a realidade social e cultural do aluno em aprendizado. É uma forma lúdica de desenvolver o raciocínio lógico e espacial”, explica Marcos Paulo.
Alessandra acrescenta que a metodologia do projeto alia os jogos aos materiais da OBMEP, como bancos de questões e as provas de anos anteriores.


“Usamos os materiais da OBMEP em sala de aula e incentivamos os alunos a assistir em casa aos vídeos postados no site da Olimpíada com a resolução de problemas. Dessa forma, despertamos cada vez mais o interesse pela matemática, revelando talentos e realizando o sonho de muitos de entrar na universidade.”
No Matemática Todo Dia, alunos das três séries do Ensino Médio trabalham juntos, em um esquema de aprendizagem colaborativa. Quem tem mais facilidade na disciplina senta com o colega que aprende mais devagar. Não é à toa que muitos descobrem ainda uma vocação que desconheciam para o magistério.
“Estamos recebendo alunos que não estudam no CEM 09, mas querem participar do projeto. Não dá para recusar. São irmãos dos nossos jovens e também vão ser preparados”, orgulha-se Alessandra.
Talvez o que mova o casal seja o pensamento de que a trajetória dos dois foi uma exceção. O CEM 09 atende a uma clientela de classe média baixa, e muitos alunos moram em áreas de risco. Marcos Paulo, que repetiu o 7º ano do Ensino Fundamental, ao terminar o Ensino Médio serviu à Aeronáutica e entrou para o Corpo de Bombeiros – só então teve condições de fazer faculdade. Já era apaixonado pelos números, mas pouco tinha aprendido, quando prestou o primeiro vestibular, nem sabia o que era trigonometria. Mesmo assim, foi em frente e passou para Matemática, na UnB. Assim que iniciou o curso, foi convidado a lecionar no Colégio Militar Dom Pedro II. Em 2014, ele concluiu o mestrado em Educação Matemática na UnB, e sua pesquisa, claro, foi sobre o Projeto Matemática Todo Dia.


“O estudante brasileiro não tem o hábito do estudo diário. Educação tem que virar rotina, ao contrário do casamento”, brinca o professor. “Essa é a nossa proposta: criar uma rotina de estudos para esses jovens, mas não no sentido da repetição. Queremos romper a barreira de que a escola pública só oferece o mínimo”, afirma.
Alessandra também batalhou para se formar. Fez administração, com especialização em Educação e Tecnologia. Depois, partiu para uma licenciatura em matemática. Sua especialidade? Aprendizagem colaborativa. Em 2006, surgiu a oportunidade de voltar ao CEM 09, como supervisora administrativa. E, todos os dias, uma ideia rondava os seus pensamentos: como dar uma oportunidade aos jovens dali de ir mais longe?
“Minha inquietude aumentou quando observei que muitas escolas participavam da OBMEP e a minha não. Pensei em montar um projeto para preparar os alunos, mas precisava de um professor voluntário. Contei para o Marcos Paulo, e na hora ele disse que queria ajudar, funcionou”, conta Alessandra, que concluiu o mestrado em Educação na UnB e, atualmente, cursa o doutorado.
No primeiro ano do Matemática Todo Dia, Alessandra foi de sala em sala explicando o que era a OBMEP e como funcionaria a preparação extra para as provas da Olimpíada. Eram dez aulas de raciocínio lógico e resolução de problemas, no turno da noite. Dos 60 alunos que tinham passado na 1ª fase da Olimpíada, 50 apareceram para o projeto. Seis conquistaram menções honrosas. Atualmente, segundo a professora, o projeto consiste de “18 aulas lúdicas e colaborativas”.
“Em um contexto social de vulnerabilidade, é impossível medir o impacto desse tipo de conquista. Nosso primeiro desafio foi justamente fazer os alunos entenderem que eles eram capazes”, lembra a professora.
Para ajudar na missão, outro grupo de voluntários foi convocado: as famílias dos jovens. Inicialmente, a ideia de permitir que os filhos participassem de um projeto à noite na escola foi vista com estranheza, até por questões de segurança. Mas, aos poucos, os pais entenderam a importância daquela proposta e se tornaram aliados dos professores.
“A presença dos pais é decisiva na educação dos filhos. A escola não dá conta de todo o trabalho sozinha. Quando as famílias participam ativamente da vida escolar, as crianças têm um desempenho muito melhor”, afirma Marcos Paulo.
Desde 2011, o Matemática Todo Dia está incluído no projeto pedagógico do CEM 09. Alessandra, ganhou a função de coordenadora olímpica e hoje organiza a participação da garotada em 15 olimpíadas de conhecimento diferentes – os monitores são os próprios alunos. A mobilização transformou a escola em um sucesso local: diariamente, pais procuram a direção interessados em conseguir uma das 1,5 mil vagas.

“O ESTUDANTE BRASILEIRO NÃO TEM ESSE HÁBITO DO ESTUDO DIÁRIO. EDUCAÇÃO TEM QUE VIRAR ROTINA”

“Aprender matemática muda a relação do estudante com o ensino em geral. O raciocínio lógico serve para todas as disciplinas. É raro encontrar alguém que domina os números e não tenha um bom desempenho nas outras matérias. O que os alunos precisam é ter alguém que os estimule a estudar e que mostre que eles são capazes”, diz Alessandra.

Histórias de superação
Herança genética é isso aí: quando os irmãos Luísa Caroline Costa Abreu, Lucas Mateus Cirino Martins e Maiara Cristina Abreu Cirino Martins começam a falar de matemática, não tem para ninguém.
Luísa foi menção honrosa nos três anos em que participou do projeto, e fez o PIC em 2014 e 2015. Maiara, aluna do 9º ano do Ensino Fundamental, foi menção honrosa em 2013, 2014 e 2015. Lucas já está no 3º ano do Ensino Médio e passou para a 2ª fase da Olimpíada este ano.
O trio é o orgulho dos pais, um policial militar e uma técnica judiciária. Os três irmãos participam do Matemática Todo Dia 2016, mas só Lucas é aluno do CEM 09.
“Em casa, disputamos para ver quem é o melhor, mas só de brincadeira”, conta Lucas, lembrando que, apesar da diferença de séries, os irmãos estudam juntos.
“As pessoas vivem pedindo para fazermos contas. Mas ninguém aqui é ‘nerd’. Só gostamos de estudar”, acrescenta a caçula Maiara.
“Não tenho dúvidas: nós três vamos entrar na UnB. A OBMEP já mudou as nossas vidas”, aposta Luísa.


A jovem quer repetir a história de estudantes como Bruno Souza, de 19 anos, que, após o Ensino Médio no CEM 09, passou no vestibular de Física da UnB. No 2º e no 3º ano, ele foi menção honrosa na OBMEP. O rapaz foi campeão da Olimpíada Brasileira de Foguetes e medalhista na Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica. E também foi aprovado no vestibular de engenharia aeroespacial, mas escolheu a Física porque quer ser professor.
“Lamento que muitas escolas não valorizem a participação dos alunos nas olimpíadas. Meu Ensino Fundamental foi muito ruim. Quando cheguei ao CEM 09, tudo mudou. Dificilmente eu conseguiria passar para a UnB sem o Matemática Todo Dia”, diz Bruno.

“APRENDER MATEMÁTICA MUDA A RELAÇÃO DO ESTUDANTE COM O ENSINO EM GERAL. O RACIOCÍNIO LÓGICO SERVE PARA TODAS AS DISCIPLINAS”

Curioso é observar que nem todos os alunos do projeto prosseguem na área de ciências exatas após o Ensino Médio. Lívia Alves da Costa, de 22 anos, três vezes menção honrosa na OBMEP, faz Direito na UnB. Ela conheceu o trabalho dos professores Alessandra e Marcos Paulo em 2009 e, até então, desconhecia sua habilidade com os números. Os professores incentivaram a menina tímida a participar de uma olimpíada de robótica. Lívia foi a primeira colocada em Brasília e a quarta no Brasil, o que lhe valeu um convite para outra olimpíada, só de mulheres, nos Estados Unidos.
“Eu tinha potencial, mas não acreditava”, lembra a futura advogada. “O incentivo dos professores foi fundamental. Com a matemática, desenvolvi o raciocínio lógico, e isso serve para qualquer profissão. Hoje, a matemática é um hobby, porque pretendo ser criminologista. Mas não há conflito entre exatas e humanas: todo conhecimento é útil e se complementa”, afirma a moça, uma das professoras voluntárias do Matemática Todo Dia.

“QUEREMOS ROMPER A BARREIRA DE QUE A ESCOLA PÚBLICA SÓ OFERECE O MÍNIMO”

Outro professor voluntário é Igor Magri, de 20 anos, que cursa Relações Internacionais na UnB. Em julho deste ano, ele esteve em Portugal, com a professora Alessandra e outra ex-aluna do projeto, Elaine Sampaio, para fazer uma apresentação para a comunicação científica da “Rede Colaborativa e Solidária do CEM 09”, no Congresso Mundial de Estilos de Aprendizagem, em Bragança.
Em 2013, Igor foi menção honrosa na OBMEP. No anterior, estivera na Índia, participando do Quanta 2012, uma competição internacional de ciências, matemática, eletrônica e habilidades mentais. A viagem foi um sufoco. O governo de Brasília pagou as passagens, mas os estudantes precisaram se virar para conseguir a hospedagem e a alimentação.
“Só tivemos a viagem confirmada oito horas antes do embarque. Mas não podíamos perder aquela oportunidade. Foi maravilhoso”, diz Igor.
Passar sufoco é uma realidade que Luan da Cruz Vieira, de 19 anos, estudante de medicina, conhece bem. Quando cursava o Ensino Médio, morava a 40 minutos do CEM 09, na comunidade Sol Nascente e, por questões de segurança, sua família relutou em deixar que ele participasse do Matemática Todo Dia. No caminho do rapaz, medalhista de prata na OBMEP 2013 e 2014, surgiria outro percalço: a mãe teve câncer e ele precisou cuidar dela. Mas foi justamente ela a maior incentivadora do filho.
“Ele era um ótimo aluno, mas parecia que tudo conspirava contra”, observa a professora Alessandra. “Insistimos, conversamos com a família e o resultado está aí”, vibra.
“No dia da prova da OBMEP 2013, cheguei atrasado porque não tinha ônibus”, lembra o rapaz. “Mas deu certo, no fim das contas”. E deu mesmo. Luan cursa Medicina com bolsa integral na Universidade Católica de Brasília.
As medalhas de Ana Carolina Alves de Souza, de 19 anos, atualmente aluna de Engenharia Mecatrônica na Universidade de Brasília, foram de bronze, em 2013, e prata, em 2014. Valeram como ouro. A garota tímida, que sentava no fundo da sala de aula, mal abria os cadernos e ficava sempre calada, se revelou um talento para “todas as disciplinas”, como destaca a professora Alessandra.
Filha de um motorista e uma dona de casa, foi primeira colocada na Olimpíada Brasileira de Robótica em Brasília, em 2014, e representou a cidade em uma competição nacional em São Carlos (SP). “É uma das mais aplicadas professoras voluntárias do Matemática Todo Dia”, conta Alessandra. Ana Carolina montou um preparatório para os alunos do Ensino Fundamental, com linguagem adequada à faixa etária. A inspiração? Os irmãos mais novos, Marcos Paulo e Júlio César.
“Sem o auxílio dos professores, eu nunca teria tentado disputar uma olimpíada. Achava que não podia, que não era boa o suficiente. Estava errada, né?”, indaga, sem disfarçar a timidez. Estava, Ana Carolina.