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3 de abril de 2019, 11:23h

Blog Ciência & Matemática: por que é boa ideia ser matemático?

Reprodução do blog do IMPA Ciência & Matemática, de O Globo, coordenado por Claudio Landim

Roberto Imbuzeiro  – Pesquisador titular do IMPA

Todo mundo tem um colega de escola meio doidinho, meio mala e meio sem noção. Aconteceu de eu encontrar esse meu colega na rua, na época do fim da faculdade. Eu tinha acabado de resolver trocar oficialmente para Matemática e lembro bem da reação dele ao saber disso:

– Não acredito que você vai passar o resto da vida estudando triângulo!

A frase era doida – pensei –, mas até que fazia sentido. Um professor na escola nos tinha dito que, no fundo, tudo em Geometria tinha a ver com triângulos. Isso não estava correto, mas meu amigo não sabia. Por isso, resolvi explicar para ele que havia mais Matemática no mundo que a da escola; que havia o Cálculo e muita coisa além dele; que ainda havia muita coisa nova sendo descoberta; e que eu queria fazer mestrado e doutorado para ser pesquisador…

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– Mas aí, Roberto… – ele me interrompeu, como os doidinhos sempre interrompem.

– Você não acha que aí você vai ficar um cara muito teórico e ninguém depois no mercado vai querer te empregar? 

Eu ainda tentei me explicar, mas acho que não convenci o amigo de que era boa ideia ser matemático. Meu objetivo neste texto é convencer você disso. Não terei como entrar em muitos detalhes, mas espero pelo menos transmitir dois recados.

O primeiro é que há gente que se sustenta e se diverte fazendo o que eu faço. O segundo é que esta é uma carreira realmente importante e que estudar para ela vale a pena. 

Ensinar e todo o resto

Quando um aluno é bom de Matemática, em geral a família o encaminha para áreas como Engenharia, Computação, Estatística ou Economia. Há uma lógica nisso. Em primeiro lugar, essas profissões pagam bem. Em segundo, elas realmente envolvem muita Matemática, inclusive Matemática avançada.

Acontece que, além das áreas citadas acima, o aluno também tem a opção de fazer uma graduação em Matemática. A pergunta é: por que alguém faria essa escolha? Uma resposta, que todo mundo conhece, é que formar-se em Matemática é um caminho para ensinar a matéria. Essa atividade tem pouco prestígio em nosso país, mas é uma vocação nobre transmitir conhecimento para as gerações futuras.

Menos gente sabe que as opções de trabalho de um matemático não se esgotam aí. Na verdade, há matemáticos trabalhando nos mais variados ramos, desde a indústria financeira e a logística até a espionagem. O mercado para os matemáticos, especialmente no exterior, é variado, dinâmico e cheio de oportunidades rentáveis. 

O tal do diferencial

Falei acima de empregos que podem ser exercidos por matemáticos ou por engenheiros, cientistas da computação e outros profissionais de áreas relacionadas. Em alguns casos, esses profissionais terão mais conhecimento concreto do trabalho. Por que, então, os matemáticos se dão bem na disputa de vagas?

O que acontece é que a Matemática é uma área sui generis do conhecimento. Como disse Richard Feynman, de quem falaremos mais abaixo, a Matemática é uma linguagem com uma estrutura de dedução acoplada e por isso ela nos ensina a pensar diferente. Quando um aluno vê a prova de um teorema – por exemplo, o famigerado teorema de Pitágoras – fica claro que aquele processo não se trata apenas de dar o nome certo para as coisas, mas sim de uma dedução não trivial.

Os matemáticos têm sua formação mais voltada para aprender a deduzir e conseguem raciocinar de modo diferente sobre certas coisas. É inevitável: quem estuda Matemática consegue enxergar e deduzir coisas que os outros não veem. A formação de um matemático, que parece tão menos prática do que a de um engenheiro, pode na verdade colaborar para que ele veja mais longe e mais fundo em alguns casos concretos. 

Para ler o texto na íntegra acesse o site do jornal

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