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Parent in Science ganha prêmio Mulheres Inspiradoras na Ciência

Uma iniciativa para discutir e apoiar a maternidade em profissões da área de exatas foi a vencedora do Prêmio Nature Para Mulheres Inspiradoras na Ciência, concedido pela editora britânica Nature, na categoria Science Outreach. Criado há cinco anos, o grupo “Parent in Science” busca incentivar ações para garantir o direito das mães que atuam na área de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, na sigla em inglês). Ao todo, 19 cientistas de centros de pesquisa de todo o Brasil fazem parte do núcleo central do movimento, entre eles a matemática Adriana Neumann, que foi aluna de doutorado no IMPA.

“Quando comecei a buscar informações sobre as situações que tornam a vida das mulheres na academia mais complicada, comecei a perceber a quantidade de outros obstáculos estruturais que terminam afastando certos grupos de pessoas. Não faz sentido selecionar só um perfil de ser humano para fazer ciência, há diversos estudos que mostram que um grupo mais diverso produz um trabalho de melhor qualidade. Falando sobre a maternidade, é inaceitável achar que não vivemos em uma sociedade machista, onde há uma licença-paternidade irrisória, de 5 ou 20 dias, e tratar em processos avaliativos as mães da mesma forma que os outros candidatos. É claro que temos que lutar contra o machismo da nossa sociedade, mas enquanto isso não acontece vamos continuar excluindo as mães?”, reflete a pesquisadora.

Apesar de representarem quase metade da força de trabalho do Brasil, as mulheres ocupam apenas 26% dos cargos na área de exatas, enquanto os homens representam 74% desse total. Os dados são de um levantamento realizado por pesquisadores brasileiros a pedido do International Development Research Centre (IDRC). 

Enquanto parte das cientistas opta por adiar a gravidez ou até por não ter filhos, a maternidade se torna um desafio ainda maior para as mulheres que buscam conciliar o cuidado com os filhos e o trabalho em áreas de exatas. Dados do “Parent in Science” apontam que cerca de 80% das cientistas acreditam que o nascimento dos filhos teve um impacto negativo ou muito negativo na sua carreira científica.

O projeto foi idealizado justamente para estimular a discussão sobre a maternidade no universo da ciência do Brasil, além de incentivar a implementação de políticas que viabilizem o trabalho das mães na ciência e combatam a desigualdade de gênero. “Um prêmio como esse dá uma credibilidade ao trabalho realizado pelo Parent in Science e gera uma visibilidade que permitirá ampliarmos o debate sobre a maternidade. E, assim, chamarmos a atenção para algumas pautas urgentes, tais como os impactos da pandemia na vida acadêmica de certos grupos”, defende a matemática Adriana Neumann.

Além de seminários e palestras sobre maternidade e carreira, a iniciativa levantou dados inéditos sobre o impacto da maternidade no trabalho das pesquisadoras. Neste ano, uma campanha do “Parent in Science” resultou na inclusão do campo “licença-maternidade” na plataforma Lattes do CNPq, a fim de evitar buracos no currículo que podem prejudicar avaliações para editais e programas de bolsa. O grupo ainda lançou um financiamento coletivo que arrecadou mais de R$ 120 mil para conceder apoio financeiro a mães que cursam os meses finais de suas pós-graduações, a fim de evitar o abandono dos cursos. 

O movimento “Parent in Science” recebeu prêmio de R$ 40 mil, além de um convite para realizar apresentações e mentorias na empresa de cosméticos Estée Lauder, que organiza a premiação em parceria com a revista Nature. Esta foi a primeira vez que uma iniciativa brasileira venceu uma das categorias do Mulheres inspiradoras na ciência, que tem o objetivo de reconhecer as conquistas das mulheres e iniciativas que incentivem a participação feminina na ciência.