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Hans Donner revela influência do IMPA na Globo e na Dreamworks

Cecília Manzoni

Na década de 1980, o Fantástico, uma das maiores audiências da TV Globo, impressionou seus espectadores com imagens super produzidas e futuristas feitas a partir de técnicas inovadoras de computação gráfica abrindo o programa. A abertura virou um ícone da tv brasileira, mas o que muita gente não sabe é da influência de teorias desenvolvidas no IMPA por trás das imagens. Foi o que revelou, no último dia 11, o designer austríaco Hans Donner, autor dessa e de outras aberturas marcantes de programas brasileiros, durante participação no talk show “The Noite com Danilo Gentili”

Segundo contou Hans Donner, ao desenvolver a famosa vinheta do Fantástico com uma imensa pirâmide dourada sendo atravessada por feixes de luz nas cores do arco-íris, o matemático chinês Richard Chuang, dono da empresa Pacific Data Image (PDI) e colaborador da Globo à época, consultava com frequência o livro “Geometria Diferencial de Curvas e Superfícies”, de autoria do pesquisador emérito do IMPA Manfredo do Carmo (1928-2019).

“O mais incrível de tudo era que eu trabalhava com esse chinês, Richard Chuang, que fazia os números e cálculos matemáticos. Enchia o saco dele, porque nunca tinha sido feito uma coisa do nível que eu queria. Queria as imagens mais metálicas, um arco-íris mais bonito, e ele não conseguia dar conta. E cada vez que eu insistia mais, ele sumia com um livro. Um dia falei ‘que livro é esse aí?”, contou Donner na entrevista, exibida no canal SBT.

A resposta de Chuang surpreendeu o designer. “Era um livro escrito por um gênio matemático que morava na frente da minha sala da Globo, no Jardim Botânico, um professor do Instituto de Matemática Pura e Aplicada. Ele, um chinês que trabalhava no Silicon Valley, onde nasceu a indústria de computação gráfica para valer, usava um livro de um brasileiro vizinho da Globo para fazer a abertura do Fantástico acontecer.”

O pesquisador-líder do Laboratório de Computação Gráfica do IMPA (Visgraf), Luiz Velho, lembra do sucesso que o livro de Manfredo fazia no período. “Esse livro era o maior best seller nessa área de geometria diferencial, adotado por todos os cursos de mestrado e doutorado nos EUA e na Europa. Vendeu muito, era o melhor que tinha na época. Curiosamente, foi escrito em inglês e depois traduzido para o português”, conta.

Especialista em matemática e computação gráfica, Chuang conheceu o livro na universidade, relatou Velho, e desde então o consultava com frequência para construir engenhosos efeitos visuais. “Quando Chuang foi fazer o sistema da Globo, ele consultava esse livro para estudar tudo que tinha a ver com modelos de superfícies, que usava a geometria diferencial. Ficava em cima da mesa mesmo, como um livro de consulta, para pegar fórmulas e etc”, completou o pesquisador. 

Pesquisa brasileira protagonizou importantes avanços na computação gráfica

A influência do livro de Manfredo do Carmo também cruzou as fronteiras nacionais e foi parar em alguns dos principais estúdios de animação do mundo, em um exemplo do protagonismo da pesquisa no Brasil para a evolução mundial da computação gráfica.  A PDI, empresa de Richard Chuang em parceria com Glen Entis e Carl Rosendal, havia sido contratada pela TV Globo para ajudar a desenvolver um sistema de computação gráfica tridimensional na emissora, o que permitia a criação de imagens geradas por computador. O objetivo era conferir uma nova identidade ao canal, mais inovadora e com maior plasticidade visual, em uma colaboração que duraria por volta de um ano. 

“Os três sócios da PDI queriam montar uma empresa, mas precisavam de investimento. [O responsável pelo  Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento da Globo] José Dias os encontrou na SIGGRAPH e assistiu a alguns dos filmes que eles faziam no computador. Achou então que seria uma boa opção para sua emissora investir nesse grupo”, relembra Luiz Velho. 

Depois do período na Globo, a PDI voltou a atuar em solos americanos. A expertise adquirida com a emissora brasileira chamou a atenção de algumas empresas, e logo a PDI foi comprada pela Dreamworks, estúdio de animação americano que viria a produzir o filme Shrek (2001) e se tornar o principal concorrente da Pixar. Já a Globo detinha a tecnologia e o software para continuar produzindo animação gráfica de alta qualidade, mas faltavam profissionais capacitados para operá-los.

Velho, que à época já havia passado pelo MediaLab do prestigioso Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês) e pela Fantastic Animation Machine, e Jonas Gomes, doutor pelo IMPA orientado por Manfredo do Carmo e pioneiro em usar o computador para visualizar superfícies matemáticas, foram convidados para liderar o grupo de pesquisa e desenvolvimento da Globo Computação Gráfica. 

Jonas Gomes, em primeiro plano à esquerda; e Richard Chuang, em primeiro plano no centro, na Globograph, em 1984. Crédito: cortesia de Lucia Modesto

“Essa combinação de talentos do Jonas comigo foi muito boa porque eu possuía uma experiência muito grande em computação gráfica, arte, design, e tinha uma interlocução boa com Hans Donner, além de uma relação técnica com o José Dias. O Jonas era um matemático com uma visão para inovação e, nessa época, nós percebemos que qualquer avanço na área de computação gráfica teria como base uma matemática muito sofisticada”, contou o pesquisador-líder do Visgraf em entrevista à Mário Firmino Barreto da Costa, historiador pela Universidade Federal do Estado do Rio (Unirio).

Experiência foi o pontapé para criação do Visgraf

Depois de dominarem o sistema deixado pela PDI, a dupla, junto a uma equipe talentosa, aperfeiçoou o software e desenvolveu experimentos e pesquisas na área. O período foi um “momento histórico para a computação gráfica”, segundo Velho.  “Aquilo era um novo jeito de se fazer inovação na área de audiovisual usando uma tecnologia feita de um jeito diferente. A tecnologia de audiovisual anterior era produzida na indústria e essa nova tecnologia era criada na pesquisa.”

O potencial de técnicas a ser descoberto na computação gráfica levou Gomes, atual membro do Conselho de Administração do IMPA, e Velho a criarem o Visgraf, em 1979. “Nessa época,  a gente percebeu que começavam a aparecer pesquisas juntando matemática e computação gráfica. Antes, as pesquisas de computação eram nos departamentos de engenharia e ciência de computação. Era muito mais um trabalho de computação gráfica para indústria”. 

Visgraf, do IMPA, realiza pesquisas que estão na fronteira da tecnologia

Hoje, mais de 30 anos depois, o laboratório é um reduto de matemáticos, designers, programadores e cientistas da computação que executam projetos inovadores na fronteira da tecnologia. Realidade virtual, modelagem geométrica, visualização de dados e processamento de imagens fazem parte do dia a dia do Visgraf, que busca antecipar quais serão as futuras demandas da sociedade no campo da tecnologia e das mídias. E, mais uma vez, replicá-las para o mundo.