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7 de dezembro de 2018, 15:43h

Tese de Guilherme Reis analisa modelo matemático da epilepsia

 

Quando terminar a defesa de sua tese de doutorado na próxima segunda-feira (10) e ouvir as palmas dos colegas e professores presentes, Guilherme Henrique de Paula Reis vai sentir como se estivesse vivendo um déjà vu dos próprios estudos. Afinal, a simultaneidade das palmas, que vão crescendo lenta e coordenadamente, remeterá aos anos em que se dedicou a entender justamente este fenômeno da sincronicidade.

Aliás, a história desse goiano de 29 anos está sempre em sincronia com o destino. O primogênito dos cinco filhos do garçom Alzir e da dona de casa Romilda conhece a importância de estar antenado às oportunidades. Nenhuma delas caiu no colo. Aluno de escola pública, ele descobriu que gostava de Matemática ainda no 4º ano do Ensino Fundamental quando se entretinha somando frações de formas diferentes à apresentada pelos professores.

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Os anos se passaram e o interesse pela disciplina se somou à vontade de chegar à universidade. Batalhou nos estudos para conseguir uma vaga no Instituto Federal de Goiás para cursar o Ensino Médio e, ali mesmo, encontrou uma mentora para o caminho da Matemática.

“No 1º ano, conheci uma professora da Universidade Federal de Goiás que orientava dois alunos de licenciatura e me chamou para fazer um trabalho na universidade. Ia uma vez por semana conversar sobre matemática e foi assim que conheci a profissão”, conta.

A via de acesso para o Ensino superior estava aberta. E não foi só para ele. Os pais, Alzir e Romilda, podem se orgulhar do filho doutor em matemática e da filha arquiteta. Outros dois filhos estão cursando a universidade e a mais nova se prepara para o vestibular em Matemática, seguindo os passos do irmão mais velho.

Um lugar mágico

Guilherme conheceu o IMPA no primeiro ano de graduação por meio de amigos que o convidaram para participar do Colóquio Brasileiro de Matemática e fazer o famoso Curso de Verão. Com direito a bolsa de estudos, chegou ao Rio de Janeiro e ficou encantando com o instituto e decidiu que faria a pós-graduação aqui.

“Vim também para o Colóquio [Brasileiro de Matemático]. Não entendia nada do que as pessoas falavam. A convivência com as pessoas, esse lugar mágico do IMPA tem uma atmosfera diferente no IMPA, um imaginário”, relembra.

Após outros verões e outras visitas para as jornadas de iniciação científica — onde ganhou os prêmios em 2010 e 2012 —, conheceu o pesquisador Roberto Imbuzeiro, que reconheceu seu potencial.

O destino de Guilherme não podia ser outro. Com passaporte para o mestrado no IMPA, teve apoio de Imbuzeiro no mestrado e para lidar com as dificuldades de um estudante que mora longe da família e enfrenta a dura realidade de viver com uma bolsa de estudos.

“Quando fui aceito, ele [Imbuzeiro] se propôs a ser meu orientador. Fiquei muito honrado. Mas ele foi bem importante em todo este processo, muitas vezes fui à sua sala só para conversar e ele me deu muitos conselhos. Vir para o Rio, fazer mestrado e ficar longe da família foi difícil. O Rio é uma cidade grande e o dinheiro nunca foi suficiente. Às vezes dava aulas particulares ou monitoria para completar a renda”.

Uma questão de sincronia

Guilherme defende a tese “Interacting Diffusions on Random Graphs” na próxima segunda-feira (10), às 9h, na sala 228, para uma banca formada pelo orientador e outros importantes pesquisadores, como Jorge Zubelli e Augusto Teixeira (IMPA), Glauco Valle e Giulio Iacobelli (UFRJ) e Valentin Sisko (UFF).

Ele explica que o problema de sua tese surgiu do trabalho de seu orientador com outro aluno, bastante interessado em biologia matemática, mais especificamente no fenômeno da epilepsia.

Guilherme trata em seu trabalho do modelo matemático criado por esta pesquisa anterior que busca entender, de forma teórica, os episódios de epilepsia. Segundo ele, “muitos pesquisadores usam este modelo na neurociência, para entender o comportamento de neurônios”.

Nem todos sabem, mas a epilepsia pode ser entendida como um fenômeno de sincronização, ou seja, ocorre quando vários neurônios são ativados ao mesmo tempo de forma sincronizada. “É interessante que aquela ideia de que usamos apenas 10% do nosso cérebro é um pouco falaciosa. Se usarmos 100% de nosso cérebro, podemos ter um ataque epilético. É como desse ‘um bug’ por acessar neurônios demais”, explica

Na tese, Guilherme se apoia no modelo de Kuramoto e parte do princípio que os neurônios formam uma rede. Seu trabalho é justamente entender por que determinados grupos de populações de neurônios têm relação com uns grupos, mas não com outros.

Futuro é logo ali

Antes mesmo de defender a tese, Guilherme já tem passagem comprada para Salvador (BA). Em janeiro começa o pós-doutorado na Universidade Federal da Bahia (UFBA) para trabalhar em áreas distintas da probabilidade: sistema de partículas e equações diferenciais estocásticas.

No futuro, pensa em voltar a estudar este modelo matemático da epilepsia em pesquisas com neurocientistas fora do país, quem sabe. Sabe que “ser aluno do IMPA abre muitas portas” e faz com que um garçom e uma dona de casa morram de orgulho de ter um filho doutor. Não há salário que pague o retorno disso.

SERVIÇO:

Defesa de tese de Guilherme Henrique de Paula Reis

“Interacting Diffusions on Random Graphs”

Data: 10 de dezembro | Horário: 9h | Local: sala 228

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