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5 de julho de 2018, 10:18h

'OBMEP não é apenas uma competição', diz pesquisador

Reprodução do blog do IMPA Ciência & Matemática, publicado em O Globo, e coordenado por Claudio Landim

Roberto Imbuzeiro, pesquisador do IMPA

Em 5 de junho, cheguei em casa procurando o filho mais velho. Nem precisava: ele mesmo veio atrás de mim.

— Oi, pai. Hoje eu fiz a OBMEP…
— Eu sei, filho. Como foi? 
— Acho que fui bem, sim. De repente até passo de fase.  
— Que bom! Teve algum problema que você achou bem legal? 

Ele parou, pensou um pouco e procurou caneta e papel. 

— Teve um problema que eu achei muito legal e que eu acertei. 

Enquanto falava, ele desenhou a figura como a que está abaixo.

Figura 1

Ele me explicou que, na figura, há um quadrado de vértices A, B, C e D. Os segmentos AH, HI, ID, DJ, JK, KC, CL, LE e EB têm todos o mesmo comprimento. O enunciado do problema afirma que a área da figura escura é de 28 cm2 e pede para calcular a área do quadrado ABCD.

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Meu filho estava feliz com a solução “muito legal” que deu ao problema (essa solução está no final do texto). Cá entre nós, ele também estava orgulhoso por ter conseguido fazer o problema mesmo sendo aluno do sexto ano. Já eu estava ainda mais contente por ver que a prova tinha cumprido a missão que eu esperava dela.

Antes de falar dessa missão, vou dar o contexto da nossa conversa. Meu filho Antônio foi um dos dezoito milhões de alunos inscritos na primeira fase da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), que este ano foi realizada em 5 de junho. Apesar do nome, a OBMEP nem é só para escolas públicas, nem é só uma competição. Seus premiados recebem formação especial através de polos de treinamento, bolsas de estudo e programas conjuntos de graduação e mestrado. A Olimpíada também treina docentes e gera material didático gratuito de qualidade para todos os estudantes e professores do Brasil. Resumindo, a OBMEP é um grande achado para um país que precisa de mais gente pronta para estudar Matemática, Engenharia, Computação e outras áreas exatas e tecnológicas. 

No entanto, não era nisso que eu pensava quando escutei meu filho falar do problema. O que me deixou feliz foi ver se cumprir a missão da prova: a de tocar meu filho pela beleza. Para mim, o grande sucesso da OBMEP é mostrar para os alunos que a Matemática pode ser bonita. 

Essa afirmação pode parecer romântica e suspeita. Num país inacabado e problemático como o nosso, qual sentido de pensar esteticamente numa política pública? Pensando nisso, me lembrei de uma passagem famosa do romance “O Idiota”, de Dostoiévski. Num diálogo tenso, o príncipe Míchkin – o idiota em pessoa – é interpelado por Hippolit, um jovem doente que tem pouco tempo de vida pela frente: 

Para ler o texto na íntegra acesse o site do jornal 

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