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17 de setembro de 2018, 11:07h

O triste fim do matemático Maurice Audin

Reprodução do blog do IMPA Ciência & Matemática, de O Globo, coordenado por Claudio Landim

Na semana passada, o presidente francês, Emmanuel Macron, reconheceu, “em nome da República francesa, que (o matemático) Maurice Audin foi torturado e executado ou torturado até a morte por militares franceses que o aprisionaram em seu domicílio”. Esse gesto, esperado há mais de 60 anos pela família, segue um primeiro passo dado, em junho de 2014, pelo então presidente francês, François Hollande, ao declarar que Maurice Audin não fugira do cárcere, conforme a versão oficial, mas morrera na prisão. Trata-se de um evento histórico, pois o estado francês admite finalmente o uso da tortura durante a guerra de independência da Argélia.

Em 1957, durante a guerra, Maurice Audin, professor da Faculdade de Argel, preparava uma tese de doutorado em matemática. Anticolonialista, militava com a esposa, Josette, no partido comunista da Argélia (PCA), posto na ilegalidade em 1955. Sem responsabilidades no partido, Audin não vivia na clandestinidade e nunca foi acusado de ter participado em atentados, frequentes durante a guerra, mas distribuía panfletos e acolhia em sua casa militantes foragidos.

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Em 11 de junho de 1957, 11 paraquedistas franceses entraram no apartamento da família Audin, prenderam Maurice e mantiveram a esposa em prisão domiciliar por 4 dias. Um dos militares disse a Josette “Se ele for sensato, voltará em uma hora”, enquanto Maurice pedia-lhe “cuide das crianças”, dos três filhos, Michèle de 3 anos, Louis de 18 meses e Pierre de 1 mês. Ao final da prisão domiciliar, Josette deu início a uma busca obstinada pelo marido, que perdura até hoje. Em primeiro de julho de 1957, recebeu do exército a notícia de que ele escapara durante uma transferência entre cárceres.

Embora inverossímil, pois Maurice Audin nunca reapareceu nem procurou a família, apesar da ação persistente de Josette para esclarecer o destino do marido, esta foi, até a declaração de Hollande, em 2014, a tese oficial do estado francês sobre o caso.

A comunidade científica participou da campanha pela verdade de maneira singular. Na época de seu desaparecimento, a tese de Maurice Audin sobre equações lineares em espaços vetoriais estava quase pronta. Cinco capítulos tinham sido redigidos, mas algumas provas continham erros e lacunas. Por iniciativa do orientador, René de Possel, a tese foi acrescida de quatro páginas, redigidas por Jacques Dixmier e Laurent Schwartz, dois expoentes da matemática francesa, que completavam e corrigiam os argumentos. Na ausência do autor, essa versão foi defendida pelo orientador diante de uma plateia de cientistas, jornalistas e militantes que lotava um anfiteatro da Sorbonne.

Ao início da cerimônia, o presidente da banca, Jean Favard, perguntou em voz alta se Maurice Audin estava presente. Schwartz conta que a ideia lhe pareceu esdrúxula, mas o silêncio impressionante que se seguiu deu razão a Favard. Sem resposta, o presidente solicitou então a Possel que apresentasse os resultados da tese. Ao final, o título de doutor “ès Sciences” foi concedido a Audin com a menção “très honorable”. Deve ter sido a única tese da história defendida na ausência do autor.

Para ler o texto na íntegra acesse o site do jornal 

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