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8 de agosto de 2018, 19:41h

Na Turquia, uma vila para aprender e sonhar

O público aplaudiu de pé e não queria deixar o plenário do Congresso Mundial de Matemáticos (ICM 2018), na noite desta quarta-feira (8), depois da palestra do professor turco Ali Nesin, vencedor do Prêmio Leelavati deste ano. Inspirados pela história da Vila da Matemática, criada por Nesin no interior na Turquia em 2007,  iniciantes e veteranos cercaram o colega para cumprimentá-lo e também satisfazer a curiosidade sobre o espaço empregado em cursos temporários, destinado a alunos de todos os níveis de conhecimento, sem os rigores do ensino tradicional.

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“Estamos moldando o futuro da Turquia”, disse Nesin durante a palestra. O professor dividiu o palco com  Sevan Nisanyan, amigo de longa data e companheiro na aventura de concepção, construção e implementação da Vila da Matemática. “Nunca pensei que pudesse um dia estar aqui. A vila foi um sonho que se tornou realidade com a ajuda de alunos, de trabalhadores simples que carregaram sacos nas costas, que doaram cinco, dez dólares, que ajudaram como puderam”, agradeceu Nesin.

Nisanyam exibiu para a plateia fotos do espaço de estudo, que tem acomodações para os alunos, um amplo salão para as aulas, biblioteca, cercados por jardim e uma plantação de oliveiras. “A vila foi um ato de liberdade e de desobediência civil”, afirmou o co-fundador, lembrando as diversas vezes em que a obra foi embargada por autoridades, por falta de documentos e autorização para a construção. Além disso, o governo argumentava que a educação informal contrariava as leis turcas.  

Preso durante três anos e meio por construção ilegal, Nisanyam vive agora na Grécia e não pode voltar à Turquia. “Vejo a vila do outro lado”, afirmou. “Eu ganho os prêmios e ele recebe as sentenças”, brincou Nesin ao lado do amigo. Os dois idealizadores da vila fizeram um paralelo da iniciativa com as primeiras universidades, fundadas na Idade Média, em cidades como Bolonha e Paris. “Eram uma novidade, não se conhecia aquele modelo, mas as pessoas aprovaram. Quem visita a Vila da Matemática se encanta”, comparou Nisanyam. 

Ali Nesin ganhou o Prêmio Leelavati em reconhecimento da comunidade internacional pelo trabalho de “ampliar significativamente a consciência pública da Matemática”. O pesquisador se formou na Universidade de Yale e deixou sua carreira na Universidade de Irvine após a morte de seu pai, o escritor Aziz Nesin, que fundou uma fundação para crianças pobres. Atualmente é professor da Universidade Bilgi em Istambul.

No final da palestra, o matemático de 60 anos convocou seus colegas para visitar a Vila de Matemática e incentivou os voluntários a participarem do projeto. “Pela vida que levo, acho que não vou durar muito. Estou preocupado com o futuro da aldeia. Quem está disposto a participar?”