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Na casa dos Schorr, OBMEP é assunto de família

O primeiro voo de avião de Stella Maris Schorr foi aos 14 anos. Deixou os pais e o irmão na pequena Medianeira, cidade de cerca de 40 mil habitantes no Paraná, e rumou sozinha para o Rio de Janeiro. Em breve, teria a companhia de outros 199 estudantes de escolas públicas de todo o Brasil, que foram a Nova Friburgo (RJ) para o III Encontro do Hotel de Hilbert. 

Aqueles cinco dias de agosto de 2013 permanecem na memória de Stella Maris até hoje. Nem tanto pela experiência inédita de voar, mas pelas atividades e relações criadas durante o evento, que, até 2015, reunia, anualmente, os 200 estudantes do PIC com melhor desempenho no Fórum Virtual da OBMEP. Seis vezes premiada – duas medalhas de prata, duas de bronze e duas menções honrosas –, Stella Maris atribui a participação na competição à descoberta de uma Matemática que transformou a sua vida.

Tamanha mudança nem passava por sua cabeça até que sua família recebeu um telefonema que, de tão bom, causou até desconfiança. Soube ter direito a uma bolsa do PIC, por ter ficado em 10º lugar entre as menções honrosas concedidas pela OBMEP no Paraná. “Achei até que era trote”, recorda a mãe de Stella Maris, a professora Marciana Schorr.

Naquela época, a aluna do 8º ano do Colégio Estadual Arthur da Costa e Silva já estava um pouco mais próxima da Matemática, porque, no ano anterior, conhecera uma professora que ensinava o conteúdo de forma motivadora. Ainda assim, tinha dificuldade em determinados assuntos. Aos poucos, porém, a participação no Fórum Virtual e os encontros presenciais do PIC na Universidade Federal de Londrina lhe permitiram lidar com a disciplina de uma nova maneira.

“No 6º ano, não gostava muito de Matemática. A OBMEP e as oportunidades por ela proporcionadas mudaram muito a forma como eu via a Matemática. O PIC, por exemplo, estimula os participantes, mostra que a disciplina não é só números e fórmulas, mas um mundo cheio de detalhes a serem explorados”, observa Stella Maris.

Para Marciana, a filha realmente tomou gosto pela Matemática ao ingressar no PIC. E diz que a empolgação aumentou após o Encontro do Hotel de Hilbert. Ao retornar de lá, percebeu que a Stella Maris, aluna de boas notas, passou a se empenhar ainda mais nos estudos: “Ela estudou 40 dias sem parar para ter um ótimo resultado na OBMEP daquele ano”, recorda a mãe. Tanto esforço deu certo. Após duas menções honrosas, conquistou sua primeira medalha: uma prata.  

Gabriel e Stella Maris participaram juntos do Hotel de Hilbert

Naquele mesmo 2013, Gabriel, o caçula dos Schorr, ganhou a sua primeira menção honrosa na OBMEP. Ainda assim, quando Stella Maris pegou o avião para o Rio de Janeiro, ninguém sonhava que, em pouco tempo, a conquista seria seguida pelo mais novo da família. Apenas 12 dias após completar 14 anos – mesma idade em que a irmã viajou sozinha graças à Matemática -, ele repetiu a experiência. A diferença é que estava acompanhado da irmã: Gabriel e Stella Maris foram selecionados para o V Encontro do Hotel de Hilbert, em Florianópolis.

“A possibilidade de ser um dos 200 a ir para o Hotel de Hilbert, pelo desempenho no projeto, era um grande motivador para a maioria porque trazia a oportunidade de conhecer estudantes de todo o país e de participar de uma semana cheia de novidades e conhecimentos”, diz Stella, que mantém muitas amizades feitas no encontro.

Embora já gostasse de Matemática, Gabriel, revela que foram o entusiasmo e as conquistas da irmã que o fizeram se interessar mais pelo assunto. Com isso, OBMEP, Matemática e PIC passaram a frequentar a mesa das refeições da família Schorr. “Eu me tornei melhor em outras matérias também porque no programa você aprende a ter um pensamento ‘científico’. Graças ao meu empenho, fiquei entre os 200 melhores do país e fui para o Hotel de Hilbert, onde acompanhei palestras e vi o meu esforço ser reconhecido”, conta Gabriel.

Em casa, Marciana e o marido, Mauri, eletricista da Companhia Paranaense de Energia (Copel), sentem orgulho ao quadrado pelos resultados dos filhos. Ela ressalta a oportunidade que a OBMEP representa, e o papel da família. “Sempre procurei acompanhá-los nas tarefas. É preciso incentivá-los. Há pais que estão mais preocupados em fabricar dinheiro enquanto as crianças ainda são novas. E se elas não têm uma boa base, isso vai complicar na adolescência”, avalia.

Formada em Administração e com licenciatura em Matemática e Física, Marciana diz que as facilidades tecnológicas não são um mal em si, mas o uso inadequado pode gerar problemas: “O aluno hoje não sabe mais nem ler. Quando não sabe escrever uma palavra, digita e já aparece ali com o corretor automático. Não precisa mais nem pensar. O cérebro já está condicionado”, afirma. Para ela, o desempenho com os números está atrelado a outras disciplinas: “É preciso, por exemplo, saber Português para interpretar os enunciados dos problemas de Matemática.”

Os filhos são gratos pelo acompanhamento. “Eles sempre me apoiaram e auxiliaram em tarefas e com os conhecimentos que eu não tinha e são uma inspiração de determinação e esforço”, diz Gabriel. Stella Maris faz coro: “Eles estiveram presentes e me motivaram a estudar desde pequena, conferindo meus cadernos e auxiliando no meu desempenho”.

“Com seus esforços e méritos, ela me incentivou a estudar”

Em 2017, pela primeira vez nos últimos cinco anos, Gabriel fez a prova da OBMEP sozinho. Stella Maris concluiu o Ensino Médio e sonha com a graduação em Medicina. Por isso, está num ritmo intenso de estudo. O irmão também. Trocou o horário parcial no Colégio Estadual Arthur da Costa e Silva para o integral em uma escola particular. Com uma menção honrosa e duas medalhas de pratas, ano passado conquistou seu primeiro ouro. Em 2017, passou a integrar o Programa Mentores. É uma iniciativa lançada há um ano pela OBMEP, que permite a alunos do PIC estudar assuntos avançados em diversas áreas, com tópicos que envolvem, direta ou indiretamente, a Matemática.

“Graças à OBMEP, muitas portas se abriram em minha vida, conheci pessoas de todos os lugares, ampliei meu conhecimento, ganhei uma bolsa integral de estudos em um colégio renomado do meu Estado e continuo a estudar para obter mais resultados”, diz Gabriel. Segundo a mãe, ele “fala pelos cotovelos”, diferentemente da irmã, “mais quietinha”.

Cada um do seu jeito, os dois se complementam. E a competição doméstica por causa da OBMEP os estimulou. “Um foi ensinando o outro. Nada de brigas”, diz Marciana. E para quem acha que a mãe pode estar suavizando os  conflitos comuns entre irmãos, basta ouvi-lo falar de Stella:

“Com seus esforços e méritos, ela me incentivou a estudar e me auxiliou sempre que precisei. Foi um dos pilares para o conhecimento e determinante para a minha ascensão”, elogia o irmão, referindo-se a uma soma tão bela quanto a própria Matemática.