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8 de fevereiro de 2018, 09:10h

Matemática brasileira nasceu aberta à cooperação

Jean-Christophe Yoccoz

 

* O texto abaixo fez parte do dossiê de candidatura do Brasil ao Grupo 5, a elite da Matemática mundial, da União Matemática Internacional 

A matemática brasileira nasceu aberta à cooperação internacional. Conquanto a primeira geração de pesquisadores profissionais de matemática tenha treinado e mantido fortes laços com os Estados Unidos, conexões igualmente fortes com a França foram desenvolvidas ao longo dos anos, especialmente a partir do final da década de 1970, e permanecem decisivas até hoje.

Durante os anos 80 e 90, vários dos mais brilhantes matemáticos franceses – Pierre Bérard, Étienne Ghys, Jean-Christophe Yoccoz, Christian Bonatti e muitos outros – visitaram o IMPA por um a dois anos no âmbito do programa de “cooperação” do governo francês, que substituiu seu serviço militar.

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A cooperação com outros países importantes também vem crescendo e reflete-se no ciclo de reuniões conjuntas organizado pelo SBM e SBMAC em colaboração com seus homólogos em Espanha e Itália, por exemplo. 

Supérfluo será dizer que as relações com os países vizinhos da América Latina sempre foram uma prioridade. Nesse contexto, o Brasil tem desempenhado um papel importante ao longo das décadas. O relatório “Matemática na América Latina e no Caribe: desafios e oportunidades”, publicado em 2014 pela Comissão dos Países em Desenvolvimento da IMU, destaca seu papel como centro de treinamento para jovens pesquisadores de toda a região:

Algumas características deste país tornam necessário distingui-lo do resto da América Latina. O grau de desenvolvimento da pesquisa matemática em alguns institutos e universidades no Brasil é notável, de acordo com o número de publicações, o número de doutorados concedidos e outros indicadores. O Brasil tem desempenhado um importante papel como centro de treinamento de matemáticos de países vizinhos, como Peru, Venezuela e Paraguai.

A política geral do Brasil de conceder bolsas de pós-graduação a estudantes de todo o mundo, sem restrições de cidadania e sem condições, atraiu um número considerável de melhores matemáticos latino-americanos para suas escolas de pós-graduação. Por exemplo, quase cinquenta por cento dos alunos de doutorado da IMPA são de um país latino-americano diferente do Brasil. 

Outro papel significativo tem sido a construção de organizações regionais e redes de cooperação. Em particular, a Unión Matemática de América Latina y el Caribe (UMALCA) foi formalmente constituída na sede do IMPA em 1995, e vários matemáticos brasileiros já atuaram em seus órgãos de direção desde então.

O Brasil também tem um papel muito significativo no lançamento do Mathematical Congress of the Americas (MCA), por exemplo, hospedando no IMPA a reunião de organizações e instituições de todas as Américas de 2011, onde a organização do Congresso foi formalmente aprovada, e apoiando de diversas maneiras o recentemente criado Mathematical Council of the Americas (MCofA).

Étienne Ghys

Além do progresso espetacular da Matemática no Brasil nos últimos anos, a comunidade matemática brasileira tem sido muito importante para o desenvolvimento da Matemática em toda a América Latina. Durante várias décadas, o Brasil atraiu muitos estudantes da região, oferecendo-lhes muito boas condições de trabalho. A maioria dos matemáticos latino-americanos visitou o país para colaboração em algum estágio de sua carreira, de modo que a influência da matemática brasileira estende-se por toda a região. Por último, mas não menos importante, a série mais importante de livros e monografias matemáticas publicados na região são originalmente produzidas no Brasil. Muitos deles foram traduzidos do português para o espanhol, e são os livros didáticos para cursos de matemática avançada em vários países de língua espanhola.
Andrés Navas (presidente), Sociedad de Matemática de Chile (SOMACHI)

O Brasil desempenhou um papel importante no desenvolvimento da matemática no México e na região. Por exemplo, os grupos de pesquisa em sistemas dinâmicos que existem em vários países têm sua origem no Brasil. Do ponto de vista da cooperação latino-americana, o Brasil sempre desempenhou um papel fundamental. Essa cooperação começou há décadas, principalmente através das Escolas Latino-Americanas de Matemática, ELAM, que foram iniciadas no Brasil. Essa cooperação abriu o caminho para a criação da UMALCA e a
organização do primeiro Congresso Latino-Americano de Matemática, realizado em 2000 no Rio de Janeiro.
José Seade (diretor), Instituto de Matemáticas, Universidad Nacional Autónoma de México

A comunidade matemática brasileira tem sido muito ativa na promoção da matemática na América Latina de várias maneiras. O IMPA desempenhou um papel importante na disseminação dos mais novos desenvolvimentos na região, com um apoio generoso aos colegas de nossos países. A importância da iniciativa dos colegas brasileiros no estabelecimento da UMALCA e, mais recentemente, do Mathematical Council of the Americas, não pode ser superestimada. A organização do ICM 2018 no Rio de Janeiro é percebida como um sucesso de toda a região.
N. Andruskiewitsch (presidente), Unión Matemática Argentina.

O Brasil teve uma grande influência sobre a matemática na América Latina e, especialmente, no Uruguai. Um número considerável de matemáticos uruguaios obteve seus doutorados
de instituições brasileiras, e ainda mantiveram laços mais fortes de colaboração com colegas brasileiros ao longo dos últimos 30 anos. O Brasil também desempenhou um papel fundamental na criação da UMALCA e continuou a ser um forte defensor da União até hoje.
Robert Markarian (reitor), Universidad de la República, Uruguai.

Os membros da comunidade matemática brasileira são muito comprometidos com os objetivos do Mathematical Council of the Americas: destacar a excelência da matemática nas Américas e promover a integração científica entre todas as comunidades matemáticas do continente. Os matemáticos brasileiros desempenharam um papel essencial no estabelecimento do MCofA em 2010 e foram totalmente envolvidos com a cooperação regional. As atividades patrocinadas pelo MCofA incluem o Mathematical Congress of the Americas, onde o Brasil desempenha um papel muito importante. O MCA 2017 ocorreu em julho de 2017 em Montreal, e o Brasil é um dos principais países de apoio, incluindo Canadá, EUA e México. A reputação internacional da comunidade matemática brasileira informa a oferta do Brasil para se juntar ao Grupo V da IMU.
Susan Friedlander (presidente), Mathematical Council of the Americas.

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