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15 de outubro de 2017, 10:00h

Lindolpho de Carvalho Dias: com o IMPA na palma da mão

 
 
Um terreno encravado na floresta da Tijuca. Quando palmilhou a área de 30 mil metros quadrados, já habitada por micos, tucanos, maritacas e mais uma infinidade de espécies aprazíveis aos olhos e ouvidos, o mineiro Lindolpho de Carvalho Dias nem titubeou. Encontrara, finalmente, o lugar ideal para sediar o IMPA.  Após experiências frustradas, com imóveis em Botafogo e na Gávea, apressou-se para fechar a compra, mas os trâmites se arrastaram a ponto de perder uma parte da área. Nem isso o fez desistir do negócio.
 
Quando rememora o episódio, Lindolpho, hoje com 87 anos, dá graças à própria insistência. “Deu muito trabalho, mas valeu a pena.”
 
Quem conhece a sede do mais destacado centro de pesquisa de Matemática do país, no Horto, há de concordar com ele. E descobrir porque o número 110 da Estrada Dona Castorina tem uma entrada estreita, suficiente apenas para deixar passar um veículo por vez. “O terreno tinha quatro partes: três menores, de frente; e outra maior, de fundos. Diante da nossa demora, dois da frente foram vendidos para outras pessoas. Mas isso não atrapalhou em nada o projeto”, revela, dias antes dos 65 anos do IMPA, criado em 15 de outubro de 1952.
 
Em uma sala no último andar do prédio da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em Botafogo, onde integra o Conselho Diretor, Lindolpho desfia outras histórias sobre a instituição que dirigiu por 22 anos. E, do jeito que fala, praticamente sem pausas, parece até que foi ontem que conheceu Maurício Matos Peixoto e Leopoldo Nachbin na Escola de Engenharia da hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na qual ingressara em 1950.
 
Maurício e Leopoldo lideravam o núcleo de Matemática da Escola de Engenharia e faziam parte do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), criado em 1949. Ao aceitar o convite feito por Maurício para ser monitor da disciplina de Mecânica Racional, Lindolpho estabeleceu uma relação que se mantém até hoje e iniciou uma trajetória que o levaria ao IMPA. “Naquela época, não havia uma escola de Matemática consolidada no país. Quem gostava de Matemática, geralmente cursava Engenharia”, diz.
 
Além da proximidade com Maurício, Leopoldo e Lélio Gama, trio que faz parte da gênese do IMPA, Lindolpho era primo de Cândido Lima da Silva Dias, catedrático da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP) que redigiu o parecer de criação do instituto, primeira unidade de pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
 
Silva Dias, aliás, está ligado a outro momento importante do IMPA, lembra Lindolpho. De malas prontas para passar um período de estudos na França, levou uma verba do CNPq para adquirir os primeiros títulos da coleção da biblioteca do instituto.
 
“Ele sempre foi um entusiasta dos livros. Em Paris, visitou livrarias e, principalmente, sebos, onde comprou muitas coleções originais de revistas fundamentais”, conta o mineiro, destacando que é a maior biblioteca do gênero abaixo da linha do Equador.
 
De estagiário a diretor
 
Já formado, em 1954, Lindolpho passou a fazer cursos de aperfeiçoamento no IMPA, onde se tornou estagiário. Não havia remuneração, mas o cargo garantia acesso à biblioteca. Em poucos anos, foi nomeado para o Conselho Diretor e, em 1965, quando o então diretor, Lélio Gama, abriu mão do instituto para ficar na direção do Observatório Nacional, Lindolpho foi nomeado para sucedê-lo. Ficou no cargo até 1989, com duas interrupções (1965-69; 1971-79; 1980-89).
 
“Na falta de outras pessoas, eles me puseram lá”, diz, num gracejo. No primeiro afastamento, em 1969, passou dois anos na Universidade do Texas, nos Estados Unidos. Na época, envolvido com estudos na área de Equações Diferenciais, já era doutor em Matemática e livre-docente. Ao voltar, retomou as atividades no IMPA e deu fôlego ao projeto de uma nova sede.
 
O terreno no Horto que tanto o encantou ele descobriu em um anúncio de jornal. Morava no bairro e foi logo conhecer a área. Não sossegou até conseguir concluir a negociação, porque achava fundamental encontrar um pouso duradouro para os pesquisadores, que já estavam no terceiro endereço. Depois das três salas dentro do CBPF, na Praia Vermelha, mudaram para Botafogo, em 1957, e, depois, para a região mais central da cidade, perto da Praça Tiradentes. 
 
Fechado o negócio, a construção da atual sede foi iniciada em 1978. E, apesar de o projeto arquitetônico ser assinado por Wit-Olaf Prochnik, parte dele, segundo Lindolpho, saiu da cabeça do grupo que originou o IMPA.
“Sabíamos exatamente o que queríamos porque havíamos pensado muito nisso. Pedimos três auditórios e uma biblioteca ampla, com os gabinetes dos professores nos andares de cima e áreas de circulação nos de baixo. Tudo isso para não atrapalhar quem está estudando”, recorda.  A mudança aconteceu em 1981. O prédio ainda não estava pronto, mas minimamente habitável.
 
Qualidade e flexibilidade
 
Quando perguntado sobre as maiores características do IMPA, Lindolpho cita a qualidade do trabalho realizado pela instituição e a flexibilidade. Regras burocráticas limitantes, diz ele, poderiam ter impedido que a instituição acolhesse estudantes brilhantes, como o uruguaio Ricardo Mañe (1948-1995), o matemático que pulou da Educação Básica para o doutorado no IMPA.
 
Quando dirigiu o IMPA pela primeira vez, Lindolpho acumulou com a direção do Departamento de Matemática do CNPq, de 1964 a 1968. Ao voltar da Universidade do Texas, passou a se dedicar exclusivamente à administração acadêmica. Quando saiu do IMPA, em 1989, foi secretário geral do Ministério da Ciência e Tecnologia, presidente do CNPq (1993 e 1995) e retornou ao Ministério da Ciência e Tecnologia como secretário executivo.
 
É aposentado, mas, salienta, apenas do ponto de vista técnico. Além das atividades na FGV, integra o Comitê Executivo da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Com frequência caminha no Jardim Botânico . Como os três filhos moram fora do Rio, mata a saudade deles lançando mão de recursos tecnológicos. “Eles vêm muito aqui; às vezes, a gente vai lá. Mas hoje a comunicação está muito boa. Com o Facetime, por exemplo, a gente vê a imagem da pessoa na hora, conversa. É muito bom”, diz Lindolpho, antenado com as novidades da tecnologia.
 
Ele e a gaúcha Marília – “que veio passear no Rio e teve o azar de me conhecer” –, têm duas filhas e um filho, além de sete netos e dois bisnetos. A mais velha é veterinária e mora em Goiás; a do meio é doutora em neurobiologia e reside em Nova York, nos Estados Unidos; e o mais novo, agrônomo, mudou-se para o Canadá. Todos passaram longe das Exatas. Mas o nome Carvalho Dias já faz parte da história da Matemática brasileira.