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23 de agosto de 2018, 13:13h

Homenagem ao pai da geometria diferencial no Brasil

     No auditório do IMPA, um dia de homenagem aos 90 anos de Manfredo do Carmo

Karine Rodrigues

Aos 40 anos, no pós-doutorado na Universidade de Califórnia, Berkeley, nos Estados Unidos, Manfredo do Carmo mirava o futuro que se descortinava após trocar a Engenharia pela Matemática. Na fotografia de 1968, ele está sozinho. Décadas depois, o resultado de sua bem-sucedida trajetória fica visível em uma imagem de 2014, na Escola de Geometria Diferencial, na Universidade de Brasília (UnB): de cabelos brancos e bengala, está cercado por um numeroso grupo de matemáticos de várias partes do Brasil, que, em sua maioria, ali estavam por terem seguido os passos do mestre, morto em abril passado.

Em Berkeley, fotografado por George M. Bergman

No espaço de tempo entre as duas fotografias, exibidas na Jornada Manfredo do Carmo, realizada nesta quarta-feira (22), no IMPA, o pai da geometria diferencial no Brasil deu contribuições fundamentais à área e se tornou mundialmente conhecido. Produziu um legado que foi recordado durante a homenagem na casa que ajudou a construir e onde passou mais de três décadas. Se vivo, ele teria completado 90 ano este mês.

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Manfredo, de agasalho vermelho e bengala, cercado por herdeiros acadêmicos

Durante esse período, o pesquisador emérito do IMPA orientou 26 alunos de doutorado, que, por sua vez, difundiram o seu legado. A árvore genealógica acadêmica do alagoano está na terceira geração e possui hoje 145 herdeiros, segundo dados computados até julho deste ano pela professora emérita da Universidade de Brasília (UnB), Keti Tenenblat, primeira aluna de doutorado de Manfredo.

“Essas pessoas constituem grande parte da atual comunidade de geômetras do Brasil”, observou Keti, acrescentando que, para além desse grupo, vários outros matemáticos foram influenciados pelo alagoano.

Codá veio de Princeton para homenagear o mestre, que o inspirou a seguir a geometria

Fernando Codá, pesquisador da Universidade Princeton, nos Estados Unidos, foi um deles. Embora tenha optado por seguir para o exterior em busca de maior aprofundamento na área de análise geométrica, o período anterior no IMPA, onde conviveu com Manfredo, foi determinante em sua trajetória.

“Tive o privilégio de ter uma relação de aluno com orientador e, depois, como colaborador. Aprendi muito com ele nessas conversas de gabinete”, revelou Codá, que veio ao Rio exclusivamente para homenagear o mestre. 

Do doutorado em Berkeley, com orientação do mais proeminente geômetra da época, Shiing-Sheng Chern (1911-2004) e tese publicada no periódico “Annals of Mathematics – “The Cohomology Ring of Certain Kahlerian Manifolds -, em 1963, aos teoremas provados e publicações seminais na área – “Geometria diferencial de curvas e superfícies” tem versões em inglês, espanhol, alemão, chinês, russo, português – Codá relatou os principais episódios da vida acadêmica de Manfredo. Destacou ainda a forma como ele encarava a vida: “com simpatia, extrema sabedoria e senso de humor”.

João Lucas, Keti, Hilário, Walcy e Viana recordam a trajetória do alagoano

Após a palestra do pesquisador extraordinário do IMPA Harold Hosenberg – “Minimal planes in asymptotically flat-3 manifolds” – a excelência da pesquisa de Manfredo e os traços já citados por Codá foram ressaltados por outros matemáticos em uma mesa-redonda com o diretor-geral do IMPA, Marcelo Viana; o pesquisador da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Hilário Alencar, coordenador da Jornada; João Lucas Barbosa, da Universidade Federal do Ceará (UFC) e Walcy Santos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Viana ressaltou o lado por vezes irreverente e a honestidade intelectual do alagoano. Na mesma linha, Walcy revelou como ele foi fundamental também em um momento crítico de seu doutorado, além de generoso, abrindo espaço para pesquisadores iniciantes em detrimento de si próprio. Além da exibição de vídeos enviados por orientandos que se tornaram colegas de trabalho, a plateia participou partilhando reminiscências.

Viúva de Manfredo, Leny Alves Cavalcante, pesquisadora sênior do Programa Avançado de Neurociências da UFRJ, ficou emocionada com a homenagem. “Foi muito bonito. E várias histórias que contaram aqui eu desconhecia”.  Filho mais velho do matemático, fruto de sua primeira união, Manfredo Júnior ficou comovido ao lembrar do gabinete do pai. “Vinha muito aqui.”

A homenagem, transmitida ao vivo no Youtube do IMPA, terminou com o descerramento de uma placa na entrada do gabinete 346.  Antes disso, Alencar, com quem Manfredo também tinha profundos laços de amizade, repetiu as palavras do padre Paul Schweitzer, que, na véspera, rezou missa pelos 90 anos do alagoano, no Rio: “Como matemáticos, temos a responsabilidade de continuar o legado de Manfredo.” 

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