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3 de agosto de 2017, 20:35h

Histórias sobre o admirável professor Elon Lages Lima

Se o professor ensinava algo errado, o alagoano, de tez branca e olhos muito azuis, não pensava duas vezes e, rapidamente, o corrigia. Tantas foram as interrupções que o rapazola acabou sendo chamado para uma conversa.  Já ciente do excelente desempenho do aluno, o então diretor da Escola Preparatória de Cadetes foi direto: “O último estudante que tivemos com notas tão altas foi Luis Carlos Prestes. Então, o senhor está expulso!”, disse, numa referência ao líder comunista.

O relato fez gargalhar a plateia que lotou o auditório Ricardo Mañé, no IMPA, na tarde desta quinta-feira, para uma homenagem ao protagonista da história, o matemático Elon Lages Lima, morto aos 87 anos, em maio deste ano. Durante quase duas horas, participantes do 31º Colóquio Brasileiro de Matemática, amigos de trabalho, ex-alunos e familiares do pesquisador relembraram ou conheceram momentos de sua trajetória.

“Ele foi central na matemática brasileira por várias razões. Foi o principal escritor de livros de Matemática do Brasil e ajudou a formar várias gerações. Só por isso já foi uma figura transcendental”, observou o matemático Carlos Gustavo Moreira, o Gugu, lembrando que conheceu Elon na adolescência, quando fez um curso de verão no IMPA e passou a integrar um grupo de Iniciação Científica que ele criara.

Gugu intercalou causos aos inúmeros feitos de Elon. Um dos primeiros bolsistas do IMPA, instituição que dirigiu em três ocasiões  (1969-71, 1979-80 e 1989-93) e onde trabalhou até morrer, ele ajudou a criar cursos universitários de Matemática, desempenhou papel fundamental na construção da biblioteca do IMPA e criou, em 1990, o Programa de Aperfeiçoamento de Professores de Matemática do Ensino Médio (PAPMEM), que já formou mais de 20 mil professores em todo o Brasil. Como pesquisador, dedicou-se à topologia diferencial e algébrica e à geometria diferencial.

Coordenador do PAPMEM, Eduardo Wagner destacou que a preocupação de Elon com a qualificação do professor surgiu muito cedo. E foi movido por esse interesse que o alagoano criou, em 1982, a Revista do Professor de Matemática, publicação que se mantém até hoje, sem interrupções. Elon assinava uma seção chamada “Conceitos e Controvérsias”. Mas só os menos atentos ao estilo do mestre não desconfiavam que, na verdade, ele escrevia muito mais, escondido por trás de dois assíduos colaboradores, intitulados Euclides Rosa e Zoroastro Azambuja Filho.

Pesquisador extraordinário do IMPA, Artur Avila resolveu para a plateia um dos exercícios elaborados por Elon. E lembrou que, até o doutorado, estudou Matemática nos livros dele. Os primeiros títulos foram ganhos ao ser premiado em uma Olimpíada de Matemática. Depois, passou a comprar outros, até formar uma coleção de base. E o autor acabou se tornando seu orientador de mestrado no IMPA. “Durante dois anos, com alguma frequência, ia à sala dele”, recordou Artur, destacando que Elon dava aulas extremamente claras e era muito rigoroso. “Mas ele tinha muita paciência comigo.”

Na sala 322, mais uma homenagem 

Referência na área da Teoria dos Números, o matemático e ex-pesquisador do IMPA, Paulo Ribenboim também prestou sua homenagem. Observou que a razão de estar ali era triste, mas uma oportunidade de manifestar o quanto Elon foi importante para a matemática. Ressaltou a inteligência, a honestidade, a moral e o patriotismo do alagoano e contou uma história para ilustrar o amor que ele sentia pelo país. “Elon tinha carreira que se anunciava brilhante nos melhores lugares dos Estados Unidos, mas o coração dele bateu pelo Brasil. Bateu, bateu, bateu,  ele voltou e fez tudo o que fez. Tenho uma admiração sem igual por ele”.

Na sessão de fotos exibida ao longo da apresentação, o pesquisador emérito do IMPA, Jacob Palis foi presença constate. Sobre o amigo, lembrou da generosidade e contou como ele foi determinante no rumo de sua vida profissional. Contou ter ousado perguntar para Elon e Maurício Peixoto (um dos fundadores do IMPA) qual seria o mais importante matemático estrangeiro que estivera no país nos últimos anos. Elon citou o americano Stephen Smale, Medalha Fields de 1966. “Escrevi e disse que queria trabalhar com ele. E, para minha surpresa, ele respondeu que sim. Acho que eles (Elon e Maurício) falaram bem de mim. E isso mudou a minha vida”, contou Jacob.

Logo depois, uma placa em homenagem a Elon foi descerrada por sua viúva, Carolina Celano. Ela foi afixada na entrada da sala 322, ocupada pelo pesquisador.