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1 de janeiro de 2018, 15:37h

História inspiradora: Maria Botelho Alves Pena, Uberlândia (MG)

Na ponta do lápis, a professora Maria Botelho Alves Pena já alcançou aquele número com que muitos brasileiros sonham: os 30 anos necessários para se aposentar. Mas quem disse que esse resultado compensará uma vida dedicada ao ensino? Não mesmo, responde a mineira de Monte Carmelo, que transformou a Escola Estadual Messias Pedreiro, de Uberlândia, em uma das campeãs nacionais da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP).

Usando mais o coração do que a lógica, mesmo podendo se afastar da sala de aula desde 2006, Maria continuou como professora regente de turma por mais oito anos. Em 2015, entrou em afastamento preliminar para a aposentadoria. No entanto, pretende continuar a contribuir para a melhoria da educação básica. Há dois anos, concluiu o mestrado – com uma dissertação sobre as “Experiências vivenciadas em tempos de OBMEP” –, e tem participado de eventos de mobilização e preparação de alunos para as olimpíadas. Maria também ministra palestras e minicursos em simpósios de formação de professores de Matemática realizados pela AnpMat, com apoio da SBM e da OBMEP.

Aos 17 anos, quando a carreira no magistério ainda era uma promessa, Maria se viu diante de um problema: Letras ou Matemática? Talento para fazer contas e escrever não lhe faltava. Mas a jovem somou suas preferências, subtraiu o gosto pessoal, multiplicou pelas possibilidades de emprego e foi estudar os números na faculdade. Opção nota dez. Maria seria premiada em todas as edições da OBMEP de que participou e seus alunos dividem com ela o mérito por 303 medalhas e men- ções honrosas em dez edições da Olimpíada (2005 a 2014).

Faculdade concluída, Maria ingressou no magistério público. Um enorme orgulho para os pais, José e Margarida, que tinham “pouco ou nenhum estudo”. Hoje com 80 anos, José só frequentou os bancos escolares por seis meses, em uma sala improvisada pelo pai fazendeiro e na companhia dos filhos dos vizinhos. Dona Margarida foi até a antiga 4ª série, o que lhe garantiu um cargo de professora, também na fazenda.

“Meu pai nunca frequentou uma escola regular, mas tem um raciocínio matemático lógico incrível”, conta Maria, orgulhosa do DNA.

Os irmãos de Maria também herdaram o talento para as contas. A irmã é formada em matemática, mas, cansada dos baixos salários, fez carreira como promotora de eventos. O irmão, concursado do Banco do Brasil, tornou-se empresário. “Os dois são empreendedores e ótimos com matemática. Fiquei só na sala de aula”, diz a professora.

O tal empreendedorismo da família a acompanhou na carreira. Na dura rotina de cativar os alunos para a matemática, usa mil e uma fórmulas. Tem grupo de resolução de problemas no Facebook, promove aulas aos sábados e organiza encontros entre antigos e atuais estudantes do Ensino Médio da Messias Pedreiro. “Muitos alunos chegam ao Ensino Médio sem saber fazer as operações básicas, mas quando desafiados e estimulados, apresentam uma velocidade de aprendizagem maior do que se possa imaginar.”

“MUITOS ALUNOS CHEGAM AO ENSINO MÉDIO SEM SABER FAZER AS OPERAÇÕES BÁSICAS”

Antes de despertar a paixão, Maria precisa vencer o preconceito: ainda hoje, muitos jovens chegam à sala de aula tratando a matemática como um bicho-papão. A professora sempre se esforçou para fazer a garotada entender que lidar com números não é uma simples questão de decorar a tabuada:

“O papel do professor é quebrar esse tabu. Sempre ouço os pais falarem: ‘mas matemática é tão difícil…’ É uma questão cultural. Essa ideia vai passando de geração em geração. Explico aos jovens que a matemática é para a vida toda. Raciocinar e resolver problemas são ações do nosso dia a dia.”

“Muitos jovens nem vão muito longe nas olimpíadas, mas, ao participar, desenvolvem uma disciplina de estudos que os ajuda em todas as matérias. E isso facilita a conquista de uma vaga na universidade.”

Todos os anos, independentemente dos resultados na 1ª ou 2ª fase, os alunos continuavam participando das atividades ou ações relacionadas à OBMEP.

Inconscientemente, a garotada de Uberlândia segue a máxima do Barão de Coubertin, pai dos Jogos Olímpicos modernos, que imortalizou a frase “O importante não é vencer, mas competir”. Esse lema está embutido no sucesso da Escola Messias Pedreiro desde os primórdios da OBMEP.

“EXPLICO AOS JOVENS QUE A MATEMÁTICA É PARA A VIDA TODA. RACIOCINAR E RESOLVER PROBLEMAS SÃO AÇÕES DO NOSSO DIA A DIA”

“Quando comecei a coordenar o projeto de resolução de problemas da OBMEP, conversei com o diretor e disse temer que a criação de um grupo pudesse ser vista como discriminatória. Ele respondeu que isso só aconteceria se déssemos mais valor aos prêmios do que à participação”, lembra Maria. “E é isso o que fazemos. Pouco importa o número de medalhas ou menções honrosas. Todos os anos, mobilizamos todos os alunos para participar e se preparar para a OBMEP, e fazemos uma confraternização dos participantes e uma homenagem aos premiados.

Sempre contamos com o apoio da direção, dos pais, dos professores, dos alunos e ex-alunos, e de toda a equipe escolar.”

Outra palavra-chave nessa equação de sucesso é compartilhar. Frequentemente, alunos premiados ou participantes da OBMEP são convidados a contar suas histórias aos atuais estudantes da Messias Pedreiro. Muitos moram no exterior.

“Nada que eu fale vai superar a importância de um jovem chegar aqui e contar a garotos iguais a ele que a matemática o levou a uma faculdade no exterior, a um trabalho bem remunerado, a um destino muito diferente do de milhares de brasileiros. Eles entendem que a perseverança na matemática poderá facilitar muito a vida profissional. E isso não serve apenas para quem tem aptidão natural. Muitos desenvolvem o gosto pela matéria, são aplicados no estudo e também chegam lá”, afirma a professora.

Universidade: destino de muitos alunos da professora Maria Botelho

Fazer uma lista de alunos bem-sucedidos da Escola Estadual Messias Pedreiro é fácil como somar dois e dois. Independentemente das premiações, o passaporte para a vida acadêmica foi a participação na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP). A professora Maria Botelho sabe de cor o destino de cada um dos jovens que passaram por suas salas de aula.

“Botelho”, como é chamada, teve papel decisivo na formação de jovens como João Paulo Vieira Bonifácio, de 25 anos, engenheiro na ZF Friedrichshafez, multinacional da área tecnológica. Filho de um funcionário público e de uma copeira, João Paulo faz pós-doutorado na Alemanha. Ele participou da OBMEP em 2005 (menção honrosa) e 2006 (medalha de ouro). Seis anos depois, conquistou uma menção honrosa na Olimpíada de Matemática Internacional para Estudantes Universitários (IMC), na Bulgária.

“A matemática me mostrou que podemos conseguir tudo o que desejamos quando temos força de vontade e nos esforçamos, além de me ensinar a ver o mundo de outra forma, por meio da beleza oculta dos números”, disse. “Botelho foi a grande incentivadora da minha carreira olímpica. Em 2005, na cerimônia de premiação da OBMEP, ela me disse: ‘Ano que vem, você vai trazer um ouro para a escola, né?’ Isso me motivou muito a me dedicar mais e a me apaixonar pelas olimpíadas”, conta João.

Motivação é a palavra-chave dos meninos e meninas que ganharam o mundo após os bons resultados na OBMEP. Isso vale até para os que não optaram pela área de exatas. Leticia Alves, de 19 anos, que está cursando medicina na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), só participou da 2ª fase da OBMEP no 3º ano do Ensino Médio, e conquistou medalha de prata.

“Nunca imaginei que teria um bom raciocínio para a matemática, mas descobri que basta exercitarmos um pouco que o raciocínio começa a fluir”, conta Letícia, filha de uma técnica de enfermagem e de um administrador. “Quando você participa da OBMEP e vê o resultado é muito bom. Isso é mérito da Botelho, que é ótima professora”, reconhece.

Para o engenheiro mecânico Raphael Platini, de 27 anos, funcionário da Embraer, mestre pelo ITA, “matemática é tudo”. Em 2006, ele ganhou medalha de prata na OBMEP e teve certeza de que seguiria uma carreira que envolvesse a matéria.

“A cada dia gosto mais de matemática. A capacidade do ser humano de usar o raciocínio é impressionante. E quando usa essa habilidade com a matemática, tudo pode ser transformado. Botelho sabe o potencial da matemática para transformar a vida das pessoas e batalha para que os alunos percebam isso. É um exemplo de determinação”, diz Raphael.

Potencial realmente não falta, diria Murilo Mendonça Venâncio, de 22 anos, que cursou Engenharia Mecatrônica na UFU e participa de um projeto de extensão em robótica, pelo qual disputa competições internacionais. Na OBMEP, a lista de prêmios de Murilo soma duas menções honrosas (2006 e 2007) e duas medalhas 98 de bronze (2008 e 2009). Mas o caminho não foi tão simples assim para esse filho de um vendedor com uma agente de serviços gerais. Embora desde a infância gostasse de fazer contas de cabe- ça, o rapaz, de repente, descobriu que matemática não era bem aquilo.

“NADA QUE EU FALE VAI SUPERAR A IMPORTÂNCIA DE UM JOVEM CHEGAR AQUI E CONTAR PARA GAROTOS IGUAIS A ELE QUE A MATEMÁTICA O LEVOU A UMA FACULDADE NO EXTERIOR”

“Quando fui fazer a olimpíada pela primeira vez, levei um choque, pois o que é cobrado não tem a ver com habilidade de fazer contas, e sim um raciocínio lógico apurado. Descobri que precisava aprender essa matemática ‘de verdade’ e isso me ajudou a desenvolver o raciocínio e a capacidade de resolver problemas. E são dois pré-requisitos fundamentais para obter bons resultados em qualquer área”, afirma Murilo. “Quando ganhei a menção honrosa, a Botelho me avisou que, no ano seguinte, não entregaria o meu prêmio. Perguntei por quê, e ela respondeu: Ano que vem você vai ganhar uma medalha. E foi o que aconteceu.”

Às vezes, o prêmio surge de outra maneira. Formado em Ciência da Computação pela UFU, Ivo Costa, de 25 anos, fez apenas uma OBMEP – “por incentivo da Botelho” – e conquistou uma menção honrosa. Anos depois, ao disputar uma vaga de emprego na Algar Telecom, contou o episódio. Resultado: levou o crachá para casa.

“Na entrevista, ganhei quilômetros de vantagem sobre meus concorrentes. As grandes empresas estão investindo em jovens com raciocínio lógico matemático desenvolvido, e, naturalmente, esses talentos despontam na OBMEP, na OBM (Olimpíada Brasileira de Matemática) e na OBI (Olimpíada Brasileira de Informática)”, explica Ivo, que hoje dedica suas horas livres ao trabalho voluntário como professor em minicursos de programação de computadores na Messias Pedreiro. “Se eu não tivesse sido aluno da Botelho, talvez não estivesse onde estou. Eu trabalhava e estudava e, vendo o meu esforço, ela me acompanhava de perto”, completa o rapaz, filho da cabeleireira da professora.

Bruno Miranda, de 22 anos, também voltou à escola como professor. É um dos membros do “Grupo dos Quatro”, ao lado de Jefferson Magalhães, Augusto César Santos Peixoto e Stheffn Borg Reis de Freitas, todos alunos do último período de Engenharia Mecânica na UFU.

De 2011 a 2013, na semana que antecedeu as provas da Olimpíada, o quarteto atravessou os portões da Messias Pedreiro para ajudar os jovens que se preparavam para a competição. Em 2014, participaram da mobilização no início do ano e viajaram aos EUA para estudar e estagiar em grandes empresas. Na OBMEP, Bruno foi menção honrosa em 2006, 2007 e 2008, e prata em 2009 e 2010.

“Uma lição que aprendi com a Botelho foi que o bom desempenho em uma prova não é questão de sorte e sim de estudo e aplicação.”

Menção honrosa em 2007, em 2009 e 2010, Augusto conta que só conheceu Botelho no 2º ano do Ensino Médio, mas rapidamente percebeu que o jeito de ela dar aulas era diferente:

“Sempre me lembro dela falando que na matemática ou na vida, sempre existem várias formas de resolver um problema, sendo algumas soluções mais elaboradas e outras surpreendentes de tão simples”, diz Augusto. “Ela nunca deixou para trás os alunos com dificuldades. Se necessário, dava aulas além de sua carga horária.”

Stheffn Borg, de 22 anos, era um desses casos de estranheza com a matemática. No Ensino Médio, estava convicto de que estudaria Direito, mas as aulas de Maria Botelho o fizeram mudar de ideia:

“Ganhei menção honrosa em 2009, mas, em geral, não obtive muito sucesso em desempenho. Mas aprendi a gostar de matemática e descobri que queria engenharia. Hoje posso dizer, com toda certeza, que faço o que gosto.”

Jefferson Magalhães, 23 anos, nunca teve dúvidas: a matemática sempre fez parte de sua vida. Em 2005 e 2006, levou menção honrosa na OBMEP e foi convidado para participar do Programa de Iniciação Científica Jr. da Olimpíada. Em 2007, fez o PIC novamente. Em 2009, foi medalha de bronze e, em 2010, medalha de prata. Filho de um motorista e uma diarista, Jefferson encontrou na professora o apoio decisivo para superar as dificuldades financeiras da família e conseguir a sonhada vaga na universidade pública.

“Ela me deu livros, me permitiu usar seu computador particular. A Botelho é uma figura marcante na minha vida”, resume.

E continua sendo importante para uma nova geração de talentos da matemática.

Nathaniel Terra, de 19 anos, cursa Engenharia Química na UFU. Participou da OBMEP de 2007 a 2013, conquistando duas men- ções honrosas, uma medalha de bronze e outra de prata. Desde pequeno, gostava de matemática, mas foi no Ensino Médio que descobriu que o estudo das ciências exatas ia muito além.

“A matemática alcança campos muito mais profundos e interessantes do conhecimento humano, e decidi que gostaria de conhecê-los. Por isso, escolhi engenharia. O que aprendi com a Botelho é para a vida toda.”